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O que vemos quando recordamos as fitas do ano

E, se de repente, o melhor filme que vimos este ano fosse mesmo A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos? Talvez ficasse tudo devidamente esclarecido.

Coloquemos então o nome da portuguesa ao lado de Apichatpong Weerasethakul, Gaspar Noé, Ryusuke Hamaguchi, mas também de Jonás Trueba, Paolo Sorrentino, Peter Jackson ou Rebecca Hall. Sim, porque nos deram os melhores filmes que vimos este ano. Mesmo que não necessariamente nas salas.

 

Olhemos para as melhores fitas de 2021. Todos eles, sem excepção, capazes de revelar um cinema que conhece bem o seu passado, mas que dão um salto em frente.

1 – A Metamorfose dos Pássaros, Catarina Vasconcelos

2 – A Mão de Deus, Paolo Sorrentino

3 – Quien lo Impide?, Jonás Trueba

4 – Drive My Car, Ryusuke Hamaguchi

5 – Memoria, Apichatpong Weerasethakul

6 – Compartment nº 6, Juho Kousmanen

7 – Bad Luck Banging or Loony Porn, Radu Jude

8 – Vortex, Gaspard Noé

9 – Identidade, Rebecca Hall

10 – Get Back: The Beatles, Peter Jackson

 

Estes são tempos de listas. De uma revisão da matéria dada relativamente aos filmes estreados. Será assim? Talvez não. Pelo menos, não nos tempos que correm. Sobretudo quando se torna inevitável considerar inúmeros filmes apresentados nas grandes montras dos festivais internacionais, embora destinados ao mercado de streaming doméstico. Ou quando depois de apresentados nos festivais chegam às nossas salas, não raras vezes, um ano ou mais depois. E isto no que diz respeito às salas que, estoicamente, vão resistindo, precisamente a exibir um cinema de resistência ao mainstream. Foi precisamente aí que passaram, e não por exemplo, inúmeras retrospectivas que não esquecemos (isto para já não falar da valiosa programação da Cinemateca). Desde logo, referindo as muitas retrospectivas levadas a cabo pela Leopardo Filmes (e a sala do Nimas), como aquele memorável dedicada a Joseph Losey, mas também a Éric Rohmer, Michelangelo Antonioni. Ou as reposições da Midas, como o incontornável The Kid, do Chaplin. Ou o ciclo que a Cinemateca dedica à imensa filmografia de Allan Dwan! Enfim…

A Metamorfose dos Pássaros

Então e, se de repente, o melhor filme que vemos este ano fosse mesmo A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos? Talvez tudo ficasse devidamente esclarecido. Não? Já lá vamos. Curiosamente, num ano em que o cinema português foi bem representado. Apesar de ter sido talvez o mais atípico. Mas que proporcionou uma resposta à altura de Miguel Gomes que revelou o próprio acto de criação do cinema em Diários de Otsoga. Recordamos ainda dois excelentes documentários que nos mostram igualmente onde está o cinema: Paraísode Sérgio Tréfaut, e Vieirarpad, de João Mário Grilo.

Olhemos então para o ano cinematográfico e pensemos no que de melhor se viu nos ecrãs. Assim mesmo, no plural. Não há volta a dar. Sobretudo num ano que insiste em tornar em regra a excepção da imposição pública e sanitária que impossibilita a regular ida às salas. Uma realidade que quase parece alinhada com a intenção de reificar a transformação do audiovisual num mero desfrute caseiro. Algo que até rima com o slogan do ‘distanciamento social’. Então, se as novas regras são essas, que nos levam a contemplar o cinema exibido em sala confundindo com aquele que foi passando na televisão, porque não assumir então tudo aquilo que se viu? Incluindo os festivais (que insistem em adiar muitos filmes um ano), os screeners, os links, tudo.

A metamorfose do tempo no cinema

Assumimos então no topo A Metamorfose dos Pássaros (depois da sua revelação, e consagração, em Berlim 2019, e pré-nomeação aos Óscares), com Catarina Vasconcelos a dar o golpe de asa no cinema português, ao mesmo tempo, cumprindo o assumido registo de filme feito com arte e a pensar na arte. Isto num jogo harmonioso com aborda um narrativa pessoal, com o relance na história de amor paterna. Por isso mesmo (ou no sentido que têm os filmes), retém uma singularidade muito própria, bastante conseguida, que bem merecia a sua consagração no lote final dos nomeados ao Óscar do Filme Internacional. O filme do ano? E porque não?

Memória

Olhemos então para a concorrência mais directa – da lista muito alargada dos filmes que vimos. Por exemplo, pela sua singularidade, apetece logo pensar no ambiente sensorial criado por Memoria, de Apichatpong (um dos premiados em Cannes, mas que são veremos lá parta o ano). Pese embora a possibilidade de o filme nos reenviar para um estado de letargia, uma das vias de um certo cinema mental que aquele cineasta tailandês que gosta de ser conhecido por Joe, tal como nos confidenciou numa entrevista concedida há cinco anos durante a sua deslocação ao nosso país, a proposta de Catarina Vasconcelos consegue numa simplicidade de meios (e sem a necessidade de uma estrela como Tilda Swinton), transportar-nos para o interior de uma construção artística feita de cinema.

Numa abordagem bem diversa, Garpard Noé dá-nos o melhor do seu cinema, precisamente invertendo tudo aquilo que o título sugere em continuidade. Pois Vortex é  a mais sensível história sobre o envelhecimento – talvez a sugerir um estranho diálogo com Cry Macho – ao mesmo tempo que convoca a persona de Dario Argento, o mestre do giallo, e Françoise Lebrun, a eterna La Mamain et la Putain, para avaliar a sua própria experiência de morte eminente devido a uma hemorragia cerebral. De certa forma, uma experiência transformadora. Até para o seu cinema. Outro candidato seria, seguramente (será seguramente, para o ano também), Drive My Car, do japonês Ryûsuke Hamaguchi – já bem conhecido do público português, devido ao acompanhamento que a Leopardo Filmes tem feito da sua carreira – na longuíssima viagem de Saab vermelho, igualmente com repercussões ao nível de uma narrativa que se concretiza, ou deverá concretizar num palco, mas que ganha maior expressão entre o dramaturgo transportado e a sua jovem motorista. Vimos ainda no festival de San Sebastian um dos melhores filmes do ano. Quién lo Impide? é esse grito de resistência ao cinema acomodado, ilustrado pelo registo de cinema em construção do espanhol Jona Trueba.

Então e Má Sorte no Sexo ou Porno acidental, a pedrada no charco do romeno Radu Jude, vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2020? Do nosso ponto de vista, ficou claro logo nessa altura que se tratava de um sério candidato (o que se veio a confirmar). Aliás, uma opinião, de resto, confirmada com a conversa que tivemos via zoom com o realizador.

A Mão de Sorrentino vence fora das salas

 

A Mão de Deus

Encaremos então o que de melhor se viu fora do ecrã das salas. Algo a que nos vamos habituando, até porque daí saem revelações inevitáveis. Tanto em festivais, como em links ou screeners. Filmes cuja importância rivaliza com os melhores das salas. No caso da nossa lista, sublinhamos a honestidade sentida em A Mão de Deus, de Paolo Sorrentino, de certa forma um cineasta, pelo menos, até agora, algo sobrevalorizado, mas que nunca se sentiu diminuído pela sua proximidade evocativa ao cinema de memória de Fellini. Depois do belo, embora algo excessivo, A Grande Beleza, Sorrentino aflora finalmente o seu cinema, mesmo de mão dada com o mestre. Sim, muito mais próximo de Amarcord, mas sem veneração (essa só mesmo por Maradona). Também aí (no ecrã que se diz caseiro, via Netflix, onde claramente perde parte do seu scope) há filmes maiores. Como o surpreendente Identidade (igualmente um exclusivo da Netflix), não só ao revelar a cineasta Rebecca Hall, bem, como os contornos da sua própria identidade. Mas, acima de tudo, o Cinema ‘de letra grande’ que nos dá. E a lição de humanidade que o envolve. Curiosamente, a Netflix ofereceu um outro grande filme, precisamente talhado para o pequeno ecrã – chama-se The Lost Daughter, igualmente dirigido por uma actriz, Maggie Gyllenhaal, que se revela como grande cineasta. Uma proximidade com Identidade até pela proximidade (intimidade) com a própria autora.

Vale ainda a tour de force que Peter Jackson faz com a edição de Get Back: The Beatles (Disney +), aproximando-nos demasiado dos ‘fabulosos quatro’, precisamente num momento crucial da banda, à beira da ruptura, mas a criar um inesquecível espaço rock and roll. Dentro do musical biográfico vale ainda a pena mencionar o fabuloso The Velvet Undergroundde Todd Haynes (Apple TV+), ou ainda o incrível documentário biográfico e odisseia musical The Sparks Brothers, por Edgar Wright.

Nas salas de cinema, mas fora da lista

Relativamente às estreias oficiais em sala, e relativamente ao que pudemos ver, valerá a pena destacar, logo em Janeiro de 2021, a operação Hong Sang-soo (A Mulher que Fugiu, O Dia em Que Ele Chega, O Filme de Oki Mulher na Praia), como uma forma de centrar uma certa ideia de cinema, na frugalidade de temas e narrativa. De resto, quase uma derradeira experiência antes do fecho das salas. Apenas para se abrirem em Abril. E aí com Ondine, de Christian Petzold, um filme já exibido em Berlim no ano anterior e que nos permitiu reviver o passado, ou com o destaque feito a Nomadland, vencedor dos Óscares e vários prémios do cinema internacional. Recordamos ainda Caros Camaradasde Andrey Konchalovsky, Minari, de Lee Isaac Chung, bem como os méritos (de um cinema feito na pandemia), em Higiene Social, de Denis Coté, como projeção da nossa imagem social. Faremos uma pausa para celebrar O Movimento das Coisas, o documento antropológico e de cinema de Manuela Serra, a chegar às salas 36 anos depois da sua conclusão. O verão trouxe Annette, de Leos Carax, escassos dias depois da sua exibição em Cannes, ou Gunda, de Victor Kossakovsky, embora mais de um ano depois de passar em Berlim, tal como sucedeu com First Cow, de Kelly Reichardt). Não vimos La Flor, ou a tour de force de 800 minutos, de Mariano Linás, mas vimos os 135 minutos da tour de force do Funeral de Estado, de Sergei Loznitsa. Já em Setembro, Clint Eastwood segredou-nos que ainda não chegou ao fim, revelando em Cry Macho – A Redenção esse mesmo processo de envelhecimento. Ou a sua redenção. Em France, aplaudimos a sátira que Bruno Dumont dedica ao meio jornalístico e ao “furo”, em outro filme que conseguiu não se distanciar na presença em Cannes. Com uma Léa Seydoux num registo muito correto sobre a presença da socialite televisiva.

De referir ainda as possibilidades oferecidas por Fabian, de Dominik Graf (competição na Berlinale 2021), num fantástico mundo paralelo em que se revive o espectro do nazismo em plena actualidade germânica. Já Nanni Moretti mostrou como consegue ser igualmente arrebatador, em registo melodramático, em Três Andares, ao passo que Almodóvar recuperou também o seu melhor cinema, em Mães Paralelas, ao apostar do registo dramático para invocar o trauma do passado hispânico em que a troca de identidades ganha dimensão no aproveitamento de uma história verídica. Por seu turno, Paul Schrader demonstra saber onde reside o melhor cinema, invocando a interioridade de The Card Counter – O Jogador, mesmo quando não deixa de pensar em Taxi Driver. O ano acaba com um dos melhores: Compartimento nº 6do finlandês Juho Kuosmanen. Por aqui, o registo de uma viagem banal é atropelado por a mais improvável história de amor que nos desarma e rende.

A Chiara

Fora da lista também, embora com um pé lá dentro, três filmes: o documentário de animação Flee, do dinamarquês Jonas Power RasmussenA Chiara, do italiano Jonas Carpignano, ou Hero, do iraniano Asghar Farhadi. Sobre eles muito se poderia escrever e louvar. O importante é que sejam vistos.

Aqueles que ficam de fora

São os putativos candidatos, mas que, por uma razão ou outra, por não defraudaram o que deles se esperava, e não figuram na nossa lista. São os casos, por exemplo, de O Poder do Cão, de Jane Campion, Benedetta, de Paul Verhoeven, ou mesmo a Palma de Ouro deste ano a Titane, de Julia Ducournau.

 

 

 

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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