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A Mão de Deus: Era uma vez a grande beleza em Nápoles

Tal como o histórico golo de Maradona marcado com a mão à Inglaterra, durante o Mundial do México em 1986, é considerado um dos pontos altos da sua carreira de futebolista, também a ‘mão’ de Paolo Sorrentino neste filme sublinha o toque de mestre do cinema que vai ao seu próprio passado e se transforma na sua obra mais conseguida.

Talvez por ser o seu filme menos ambicioso, pelo menos de um ponto de vista estético, apostado numa reflexão pessoal e semi-biográfica; talvez, como forma de arrepiar caminho e exorcizar os excessos maneiristas de grande parte da sua obra, em particular a desmesura e o virtuosismo da câmara de Este é o Meu Lugar (2011), A Grande Beleza (2013) ou Juventude (2015), para citar apenas os títulos mais populares e, de certa forma, sobrevalorizados, optando claramente por um cinema ancorado na memória. Por mérito próprio, serás este um dos grandes filmes italianos (ou europeus) dos últimos anos e um dos grandes filmes do ano. Mesmo que possa perder parte da sua força na moldura dos ecrãs da Netflix. Algo talvez mitigado pelo tremendo luxo do livro de imagens e informação que acompanham os materiais do promoção do filme entregues aos jornalistas internacionais.

Há muito para gostar em A Mão de Deus. Na história deste menino, da sua família, do seus sonhos e dos seus receios. Desde logo, a vontade de evocar o passado, com todas as licenças artísticas, sem abdicar de um certo maneirismo próprio do cinema de Sorrentino, e até na proximidade ao DNA de Federico Fellini.

Pois bem, apesar das proximidades de Amarcord ou talvez ainda mais 8 ½, ao longo das pouco mais de duas horas é muito mais a ternura nostálgica desse momento crucial em que meninos se transformam em homens. Desde logo pelo extremoso trabalho de Filippo Scotti, como Fabietto (justíssimo o seu prémio de interpretação em Veneza), numa aproximação a um alter-ego ou reencarnação do próprio Sorrentino. Algo que se concretiza até na confiança de parceria como assistente de realização.

Irrepreensível também (como sempre) Toni Servillo, talvez o actor italiano mais consistente da actualidade, e colaborador habitual de Sorrentino, aqui como o pai atencioso de Fabietto. E que lhe dá o sábio conselho sexual de se adiantar o mais cedo possível com a sua ‘primeira vez’, para que tudo se desenrole com mais naturalidade. E que ‘primeira vez’ terá Fabietto! Essa ‘recordação’ do retrato de família completa-se com fabulosas vinhetas a cargo de um naipe extremoso de personagens e actores que seguramente satisfaria Fellini.

No entanto, parece-nos até que Sorrentino nos deixa uma pista cinéfila que parece direcionar estes esboços de memória talvez numa maior proximidade ao clássico Era Uma Vez na América, que o conterrâneo Sergio Leone realizou em 1984, o tal filme em cassete VHS que Fabietto tenta ver por mais de uma vez, sem sucesso. Ou seja, mais próximo da candura das memórias de De Niro ao evocar os fantasmas do seu próprio passado. Pelo menos, a elas inevitavelmente ligado. À sua própria alma.

Naturalmente, ainda a fúria provocada por Maradona naqueles efervescentes anos 80 e as particularidades naturais de uma família numerosa e ruidosa, bem como as tais implicações eróticas próprias da idade em que as glândulas baralham tudo ao mesmo tempo que congeminam e vão definindo esse futuro ainda incerto. Por fim, a paixão da arte, da criação, do cinema, seguramente tão bem sintetizado pela frase atribuída a Fellini e proferida a um jornalista, recordada pelo irmão Marchino após a audições para um filme seu: “o cinema não serve para nada. Apenas te distrai. É isso” E distrai-nos de quê, terá insistido o periodista: “Da realidade. Eu não gosto da realidade”. É isso.

Curioso é verificar também como Sorrentino prefere evocar o nome do pouco conhecido cineasta napolitano, Antonio Capuano (e de certa forma desconhecido em Portugal), ao exaltar a pulsão e a urgência de um certo realismo napolitano de que o cineasta Paolo não será alheio. Seja como for, e por tudo isto, Sorrentino poderá até fazer suas as palavras de Maradona quando sintetizou: “Fiz aquilo que pude. Acho que não me saí mal”. Nada mesmo.

 

 

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Paulo Portugal
Paulo Portugal
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