Dezembro 9, 2021

Identidade: mais vale sê-lo ou parecê-lo?

A partir de agora, teremos de actualizar as referências em redor nome da britânica Rebecca Hall, aquela actriz identificávamos com o cinema de Woddy Allen (Vicky Cristina Barcelona, Um Dia de Chuva em Nova Iorque) bem como a extensão a esse universo no filme Encontros em Nova Iorque, de Nicole Holofcener. Incluindo até o muito estimável Christine, do nova iorquino Antonio Campos. Talvez menos quando mais envolvida em projectos menos independentes, como os blockbusters, Homem de Ferro 3 ou o recente Godzilla vs. Kong. Adiante, porque importa conhecer Passing (ou Identidade), mais um produto louvável com o selo da Netflix. Sim, com legítimas ambições aos prémios do cinema também conhecidos por Óscares.

Não será de todo supérfluo referir que a adesão de Rebecca Hall a este projecto, primeiro, ao livro homónimo de Nella Larsen, editado em 1929, se prende de uma forma bem mais directa, no caso, pela ascendência africana da parte do seu avô, bem como as motivações que levaram alguns membros da família a ‘passarem-se’ por ‘não africanos’. Com uma ascendência britânica, ligada ao teatro (o pai foi fundador da Royal Shakespeare Company) e a mãe uma cantora de ópera, só após a leitura do romance de Larsen, Rebecca se apercebeu integralmente da sua indemnidade.

Na verdade, há muito para gostar de Passing, a expressão usada definir aqueles de origem africana que se fazem passar por brancos. A começar pela fotografia do catalão Edu Grau que molda esta filme assente no gesto de ‘ver’ e ser ‘visto como’. Desde logo nos créditos iniciais que terminam a negro e se deixam dominar por um crescente plano de luz branca que ocupa a tela toda. É neste excesso de luz sufocante que ouvimos ruídos, vozes, excertos de conversas de transeuntes, como se alguém as presenciasse sem enxergar bem. Mais tarde, no seio da sua família de Harlem, será o tom de sombra que sobressai. Esse plano focando o chão assemelha-se a alguém deitado, apenas vislumbrando os passos, os sapatos dos que passam. Até que a câmara segue os passos (e o diálogo) de duas senhoras e a conversa de comprar uma boneca. Até que uma delas sugere, “e porque não aquela pickanniny (uma pequenina negra), ao que a outra replica: “Não. Ela nunca conheceu nenhuma negra que não trabalhasse para nós. Graças a Deus!” Até que uma terceira lhe entrega a boneca negra depois de um pequeno acidente que derruba vários objectos na loja. Aqui, talvez, um verdadeiro gesto de passing.

Acima de tudo, o que a descrição permite é, não só, situar-nos no tempo e nos espaço – Nova Iorque no final dos anos 20, totalmente segregada, em que brancos não convivem com negros, ao mesmo tampo que esclarece, de forma subtil, o conceito de ‘Passing’. Aqui com uma dupla função – ‘passar’ (a boneca negra) à branca, mas também ‘fazer-se passar’ por branca. Literalmente, um branqueamento da identidade. Quem o faz é Irene (tremenda Tessa Thompson, seguramente na calha para os prémios de interpretação), com o olhar velado por um chapéu de renda.

O interesse reside no facto de Irene ter feições africanas, apesar da pele ser branca, de resto muito enfatizada pela tal fotografia ‘rebentada’. Isto decorre numa América em que o census definira os cidadão como ‘brancos’ ou negros’, empurrando os mestiços para o outro lado da supremacia branca. Ou então a produzir esta ‘ilegalidade’, a que a expressão ‘passar’ (droga por exemplo), recolhe o bom significado. Revelam as notas de produção – que nos chegaram num robusto e pesado livro carregado de imagens belíssimas – a política do ‘one drop rule’, ou seja, que bastaria ‘uma gota’ de sangue negro para afastar a possibilidade de ser ‘branco’. Esta essa a realidade de Nella Larsen. Um realidade que incluía, entre outras afrontas, linchamentos em praça pública de homens que mantivessem relações com mulheres brancas. Ou até humilhações em tribunal, em que os suspeitos eram forçados a despir-se para revelar traços africanos.

Ao descobrir que Clare (igualmente Ruth Negga), a sua amiga de outros tempos, se faz passar por branca, tendo inclusive casado com um branco racista (Alexander Skarsgard), estabelece-se um complexo novelo de olhares, identidades e transferências, sobretudo quando esta pretende redescobrir em Harlem a felicidade perdida da sua negritude. Um desafio de mise en scène, e adequação narrativa, que confirmam um talento, até agora, desconhecido de miss Hall. E que nos proporciona um inesperado final que motiva a ir ainda mais fundo na interpretação da tal ‘identidade’.

Mais do que (mais) um filme sobre a eterna causa da endémica descriminação racial americana, Rebecca Hall, vais mais fundo, confrontando-nos com os fundamentos da nossa própria identidade. Algo que faz com recurso a adequadas ferramentas de cinema. Sim, esta fica na calha dos Óscares. Chapeau.

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