Outubro 24, 2021

Ondine: Reviver o passado segundo Christian Petzold

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O cinema de Christian Petzold tem uma qualidade intrínseca que se organiza (e a nós com ele) no seio da sua filmografia. Será porque existe aqui uma vontade de revisitar a memória do passado alemão (e a divisão de fronteiras) a enquadrar de uma forma por vezes inusitada. Permite-nos uma comunicação ou uma dualidade de perceções com o corpo dos seus trabalhos anteriores, mas igualmente por esse diálogo não se esgotar no visionamento do próprio filme e deixar aberta a porta para eventuais e posteriores interpretações. No caso, à evolução e os próprios dilemas de uma relação amorosa que se torna impossível.

Não será certamente rebuscado procurar essas afinidades no seu cinema mais recente. Por exemplo, no anterior Em Trânsito (2018), ensaiando uma variante que é mais uma evocação da tragédia migratória tanto um remake de Casablanca, de Michael Curtiz, bem como Phoenix (2014), em que uma sobrevivente do Holocausto (Nina Hoss), cujo rosto desfigurado acabou por reabilitar uma cara nova, regressa para encontrar apurar uma verdade amorosa. Algo não muito diferente sucede em Barbara (2012), uma médica (Hoss) estabelece um profundo e permanente diálogo com o passado da Alemanha e até mesmo Yella (2007), atemorizando uma mulher (sempre Hoss) em fuga do marido e do passado que faz reviver uma outra face da sua própria vida. Na nossa entrevista, Petzold refere-se sobretudo a The State i’m In (2000),sobre uma família de terroristas em fuga (curiosamente um filme parcialmente rodado no Algarve).

Deparamo-nos agora com amores impossibilitados por uma dimensão quase mitológica, mas em que conseguimos observar as personagens de uma certa distância, quase como se tivessem uma vida dupla. Ao mesmo tempo, este exercício de reflexão e observação é acompanhado por uma reflexão bem mais ampla, em que Petzold analisa o próprio ser alemão, a mitologia e da política do seu próprio país, e de Berlim em particular. Aliás, no filme explica-se que foi uma cidade construída sobre um pântano, portanto, com tudo aquilo que fica submerso – como o peixe gigante que vive nas águas do rio de Ondine – e de que forma o passado se articula com os novos tempos. Um pouco como o passado na RDA de Barbara, a desfiguração de Phoenix.

A tudo isto não será alheia a forma muito particular com que Petzold trabalha com os seus atores. Não é segredo que cada filme é alvo de um exercício próprio de introspeção, em que as personagens se entregam a uma comunhão de ideias, de visionamento de filmes, talvez algo que passe por aquilo que ficou conhecido com a escola de Berlim, em certa medida pelo longo trabalho desenvolvido entre Petzold e o seu frequente colaborador Harun Farocki (desaparecido em 2014).

Ora, pesquisando o significado de Ondine percebemos que tem origem numa novella de 1811, precisamente com esse nome, mas que haveria de motivar, em 1938, uma peça de teatro já intitulada Ondine. Para além disso, esse é também o nome de uma doença respiratória que pode manifestar-se durante o sono e parar a respiração. No entanto, é mesmo o mito de Ondine que é explorado diretamente. Aí, uma mulher anfíbia apaixona-se por um homem mas quando ele a trai percebe que o terá de matar e regressar para a água. É esse o pacto de amor.

Paula Beer é Undine, uma historiadora urbana freelance estudiosa da topologia da capital alemã que acaba de ser traída por Johannes. Mas invés de matar o amante decide contrariar a lenda e procurar um outro, Christof (Franz Rogowski). É neste conto de fadas, tão próximo da Pequena Sereia de Hans Christian Andersen, como das 20 Mil Léguas Submarinas de Julio Verne (ou será que poderemos ver até traços de The Shape of Water?, em que estas figuras fantásticas acalentam a pretensão de ser humanas. É o caso de Undine, que ao decidir seguir em frente depois do seu desenlace, elege a sua música “Staying Alive” como uma forma de ressuscitar para a vida. Enfim, o tal cinema que se desdobra como um novelo de significados que apetece descobrir. Sobretudo neste caso que ficou mergulhado no limbo da pandemia e que agora emerge de novo nas nossas salas para nos fazer reviver o passado.

Uma palavrinha com Christian Petzold – sobre o que ficou para trás…

Sentamo-nos com o realizador sediado em Berlim. Foi em Berlim, em 2019, a propósito de Traffic, mas bem poderia ser sobre Ondine.

No seu cinema percebe-se um certo fascínio pelo passado, pelos fantasmas que aí vivem. O que procura?

Há 18 anos atrás, quando eu e o Harun Farocki (1944-2014) acabámos o filme The State I am In (2000) percebi que se tratava de uma história sobre fantasmas, sobre individualidades esquecidas pela História. No fundo, as personagens do filme procuram materializar-se e adquirir vida nova. Querem sentir que são feitos de carne e osso. E é isso que acho que é o cinema. Histórias sobre pessoas que perderam os seus entes queridos, ou o trabalho, que de alguma forma foram traumatizadas ou ficaram para trás na vida e já não são necessárias, mas que de alguma forma querem regressar a esse mundo. Essas são as histórias que acho que o cinema deve contar. E são também as histórias que me interessam. Isso faz-me até lembrar um episódio da minha vida, ou da vida do meu pai. Ficou desempregado durante cerca de três ou quatro anos. Pouco antes desse período comprara a casa onde vivemos. Era uma casa pequena, apenas com dois quartos. Durante todo esse período passava horas a fio sentado no seu carro, em frente da casa, a ouvir música clássica. Uma vez contou-me que se sentia como um fantasma, como num estado transitório, sem espaço para ele próprio. Talvez seja por isso que tenho tanta empatia com pessoas que estão à beira de perder a sua importância na vida, de se tornarem espectros e que procuram desesperadamente voltar a ser reconhecidos de novo como pessoas.

Nesse sentido, “Em Trânsito” é também um filme sobre alguém que não está onde queria estar, alguém que se sente deslocado. Como é que passa desse estado para um tempo descontinuado? 

É interessante porque durante todo este tempo de produção de Em Trânsito não pensei em todos os outros filmes que fiz entretanto. Não pensei em Yella (2007), Barbara (2012) ou Fénix (2014)Pensei em Die Innere Sicherheit/The State I Am In. Há uma expressão alemã, “o silêncio da História”, comparada com a seguinte imagem, quando um barco está no mar, mas não tem vento. Não se move. É este tipo de receio relatado em canções de marinheiros no mar durante várias semanas e tudo se começa a deteriorar, as pessoas a morrer. Este conceito foi também desenvolvido por Georg K. Glaser e o livro dele (a autobiografia “Secret and Violence“), também me influenciou o meu trabalho em Em Transito, até porque, como comunista, também esteve em Marselha entre 1940-41, tal como Anna Seghers. Foi aí que teve a noção do “silêncio da História”, pois já não tinha nem passado nem futuro. Para além disso, ninguém estava interessada nele ou no seu destino. Foi também essa a situação que os terroristas viveram no meu filme The State I’m In, pois já ninguém se interessava no seu destino. Comparando com os protagonistas de Em Trânsito, eles estão numa cidade portuária, mas já não há ninguém que se possa interessar por eles ou que queira ouvir a sua história.

Há alguma coincidência por grande parte dos seus filmes terem apenas uma palavra no título?

Na verdade, não é uma coincidência. Há uns anos li um belo texto Alexander Kluge, em que escreve a seguinte palavra “Alemanha”. E depois continua: “À medida que mais nos aproximamos dela, parece que olha para nós de uma forma mais longínqua.” No sentido que nos consegue encarar cada vez mais de longe. Acho que os títulos dos filmes devem funcionar dessa forma. São nomes que abrem e que crescem de forma metafórica. Os títulos vivaços que procuram descrever o que é o filme gastam-se depressa. Em todo o caso, há títulos que sendo maiores não se esgotam como Eyes Wide Shut/De Olhos Bem Fechados (Kubrick, 1999) ou Mónica e o Desejo (Bergman, 1953). Esses são bons títulos, mas também parecem títulos de um ficheiro.

Porque razão preferiu não incluir os elementos de época? Pode explicar isso um pouco melhor?

Há tanta gente a fazer filmes sobre refugiados que agem como se soubesse o que eles sentem. Acho que não consigo isso. Não sei o que é ser um refugiado que vem do Iémen, da Somália ou do Afeganistão. Mas quero tentar perceber os refugiados que fugiram da Alemanha e que contribuíram até para um empobrecimento da cultura alemã. E durante a rodagem fiz algo que costumo fazer em cada filme meu: faço um programa de filmes para vermos em conjunto. Um dos filmes que vimos foi o The GraduateA Primeira Noite, de Mike Nichols. Queria falar sobre a montagem, sobre a juventude e com o é difícil encontrar o nosso lugar na sociedade. Depois li informação sobre o Mike Nichols e descobrir que nasceu em 1938, aqui em Berlim, a alguns metros, e que ele e os pais tiveram de fugir do país na altura do Pogroms, e descobrir também que ele era o sobrinho de Gustav Landauer, e que esteve ligado à luta revolucionária em 1918. Portanto, tinha escolhido um filme de Hollwyood, mas que tinha história alemã e cultura alemã que tinha sido destruída pelos nazis. Foi esta uma forma de juntar o presente e o passado e de falar sobre isso.

Sobre Paulo Portugal 892 artigos
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