Agosto 21, 2019
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AS SUGESTÕES DE MIGUEL VALVERDE ​

Miguel Valverde, co-diretor do IndieLisboa

Entre a ficção e o documental

“Este ano será um festival essencialmente de ficção”

Miguel Valverde está confiante. Apesar das dificuldades e desafios vários, uns pessoais outros profissionais, em colocar de pé mais um Indie, que já vai no 14º ano, percebe que se prepara para mais uma grande edição. Ou seja, valeu a pena estar a selecionar filmes desde julho passado.

A sensação recolhida na nossa entrevista é que há a consciência de já se terem ultrapassado os ‘verdes anos’ do Indie e que se prossegue o caminho para a ‘idade maior’, sempre cientes da noção do desafio permanente. Até porque a crise de 2012 obrigou esta direção plural (Miguel Valverde, Nuno Sena e Carlos Ramos) a repensar e a redefinir processos. Mas não é o desafio que dá mais pica? Por isso continuam a afirmar da melhor maneira o IndieLisboa, um dos festivais mais desejados no panorama internacional.

Miguel Valverde e Nuno Sena

“À 14ª edição, temos uma noção muito clara do caminho que traçámos”, precisa Miguel Valverde, garantindo embora uma “maturidade ganha pela prática”. Apesar de tudo, respira-se “uma espécie de adrenalina estranha, pois parece que estamos a fazer tudo de novo”.

Como o festival que ser dinâmico, o Indie acrescenta este ano uma nova sala, o Capitólio. “Achamos que o IndiebyNight e sobretudo o IndieMusic, já um lugar tão importante neste festival, merecia sair do conceito tradicional de sala”. É assim que se pode agora encarar “a ideia de estar ao ar livre a beber uma cerveja e ver um filme”. Seguramente, com muitos a ver Supersonic, o muito aguardado documentário sobre a carreira dos Oasis, com direito a uma única exibição no IndieMusic (e também no nosso país).

Capitólio recebe IndieMusic

Mas um festival é também um negócio. Miguel Valverde nunca o esqueceu. Como não esqueceu aquela interrupção ascendente quando em 2010 tinham chegado já “ao número incrível de 44 mil espetadores em sala”, bem como a crise dois anos mais tarde que forçou “um decréscimo muito relevante, de volta ao número antes dos 30 mil”. Motivo para um repensar, reorganizar e ter novas ideias. A verdade é que desde 2011 o festival tem vindo a crescer e “já ultrapassámos de novo os 30 mil espetadores ficando muitos bons indicadores para esta edição.”

Os formatos da ficção

“O Indie tem uma coisa diferente da maioria dos festivais nacionais e lá fora”, explica “que é o facto de ter varias cabeças pensantes, mas há também duas equipas separadas a trabalhar”. Ou seja, uma trabalha para as curtas e outra trabalha para as longas. “Nesse sentido, nem sempre uma é reflexo da outra. São muitas vezes espelho uma da outra, mesmo que a Competição Internacional seja para primeiras obras, que o Silvestre é para autores mais conhecidos ou consagrados”.

Este ano, os Heróis Independentes são também motivo de muito interesse e descoberta necessária. Desde logo com a visão do americano de origem afegã Jem Cohen e a retrospetiva urgente de Paul Vecchiali. Em ambos os casos, sempre num programa de longas e curtas, tal como nas diversas secções.

Paul Vecchiali

“Quando tentámos apresentar as longas deste festival houve uma tentativa muito grande de ir à procura de ficções, mais do que em qualquer outro ano em que havia muitos documentários. Este ano este será um festival essencialmente de ficção, embora a ficção e a narrativa tenham muitas formas de expressão,” salienta.

“Já nas curtas”, refere Miguel “houve uma tentativa, não deliberada ao princípio, mas que se retira da programação, de uma linguagem muito mais politizada do que alguma vez foi.” Sim, haverá muitos filmes sobre refugiados, sobre o empenhamento político do cinema brasileiro anti-Temer, a América do Trump….

A energia (e fartura) do Cinema português

Sim, a ideia é que, uma vez mais, teremos novas descobertas lusitanas a fazer no Indie. Desde logo Colo, de Teresa Villaverde, apresentado este ano na Seleção Oficial do festival de Berlim. “Trata-se de um filme muito importante e óbvio para o festival”, subscreve Valverde. “É também o chefe de fila daquela que é a maior participação portuguesa de sempre. Pelo menos em termos de competição. Nesse sentido, este filme é muito importante no sentido de percebermos como esta crise criou estas famílias novas que se confrontam com uma realidade para a quel não estavam preparadas. Mas a competição nacional, de curtas e longas, é muito diversificada. Não há um filme igual”, enfatiza.

Ao todo, teremos apenas meia dúzia de longas metragens. Mas que dúzia! Desde logo, com o belíssimo Amor, Amor no regresso de Jorge Cramez, uma década depois da estreia de O Capacete Dourado; várias curtas depois, Miguel Clara Vasconcelos traz-nos também uma insólita visão da praxe académica, em Encontro Silencioso; há que contar ainda com a presença de Paulo Furtado (ou Legendary Tigerman, a assinar a também a banda sonora de Encontro Silencioso) no road movie Fade Into Nothing, captado pela câmara de Pedro Maia e a fotografia de Rita Lino, para além ainda do novo trabalho de Rosa Coutinho Cabral, Coração Negro, e a mensagem desconfortável e fascinante de Dia 32, de André Valentim Almeida. Por fim, Luz Obscura, de Susana Sousa Dias, num justo prolongamento da sua obra assente no arquivo. Todos imperdíveis.

Por fim, teremos ainda, fora de competição, Rosas de Ermera, de Luís Filipe Rocha, o tal filme sobre a família de Zeca Afonso, baseado numa pesquisa desde que a família vivia em Moçambique numa altura em que o pai fora colocado em Timor, na qualidade de juiz.

E quanto a curtas? “Normalmente temos 15 ou 16, mas este ano estou muito contente, porque temos 18 filmes”, assume. “Não sabíamos como recusar. Ainda haviam mais, mas que não ficaram prontos. Por exemplo, a Inês Oliveira está ainda a acabar o filme dela; o filme da Marta Mateus também ainda não estava pronto.”

Cidade Pequena, Diogo Costa Amarante

Entre os nomes consagrados, temos o Diogo Costa Amarante, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, com Cidade Pequena. Ico Costa, também habitué do Indie, regressa depois de ganhar um prémio do Cinema do Réel, em Roterdão, com Nyo Vweta Nafta, filmado em Moçambique, e que teve já presença no International Film Festival Rotterdão e que venceu o Cinéma du Réel.

Miguel Cabral exibe O Homem de Trás-os-Montes, a primeira curta depois de se ter estreado com um documentário. Entre outras curtas a merecer atenção Miguel destaca a de André Gil Mata, com Num Globo de Neve. Mas também Hugo Pedro, que ele considera “o François Ozon português”, com um filme produzido pelo Paulo Branco (O Turno da Noite), com a Fanny Ardant. Já Salomé Lamas prolonga o seu cinema muito pessoal, com Ubi Sunt. “Um filme a la Salomé.”

 

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