Novembro 14, 2019
insider

Berlim: Estamos a precisar do colo de Teresa Villaverde!

Berlim viveu um dos momentos mais marcantes da Competição, com Colo, o novo filme de Teresa Villaverde, a concurso para o Urso de Ouro. Sim, é de colo que se trata. Talvez, apesar da imprecisão da expressão. Como também é imprecisa a crise vivida por uma família de classe média lisboeta que se vê forçada a ajustar-se à vergonha escondida do desemprego paterno, ao trabalho a dobrar da mãe e também às dores de crescimento da filha adolescente, bem como da sua amiga. No meio disso tudo, temos o cinema pausado e observador de Teresa Villaverde, e do que sucede neste momento de realismo social nacional.

Algures nos andares cimeiros de um prédio no bairro dos Olivais, o pai (João Pedro Vaz) já vai denotando os indícios de perturbações mentais que uma permanência forçada em casa vai facilitando, isto enquanto a mãe (Beatriz Batarda) procura manter a cabeça organizada ao mesmo tempo que mantém dois trabalhos. No meio de tudo isto, a jovem Marta (Alice Albergaria Borges) vive na bolha dos desafios naturais permitidos pelos seus 17 anos. É com a amiga Julia (Clara Jost) que sente mais empatia, ela que por sua vez enfrenta os primeiros meses de uma gravidez inesperada, e ainda com o namorado (Tomás Gomes que interpreta e assina a banda sonora do filme), musico numa banda.

“Eu não tenho a resposta exata sobre a necessidade de colo no filme”, procurou precisar a cineasta à nossa pergunta formulada na conferência de imprensa. Mas vai garantindo que “estamos todos num momento confuso em que não sei se todos precisamos de alguma coisa que não sei se sabemos exatamente o que é.” Talvez seja mesmo colo, um conforto necessário para apaziguar a alma daqueles que não sabem o que fazer ao tempo. Algo que, de resto, Teresa admite partilhar com as suas personagens.

Por essa errância e por essa falta de rumo passaram de resto várias das suas personagens que atravessam uma filmografia coerente, ainda que esparsa, com sete filmes em 26 anos, desde A Idade Maior (1991), passando por Três Irmãos (1994)  ou Os Mutantes (1998), mas também com o lado mais pesado da vida de Transe (2006). O seu trabalho anterior, Cisne (2011) pertencerá a uma outra aresta, a das atrizes que sempre dominam os seus filmes. Aí a coerência é total.

Também aqui são elas que dominam a nossa atenção. Marta e Julia reclamam essa vertigem da adolescência, a experimentação e a liberdade. Algo que acaba por ser também transversal ao cinema português de autor. De resto, Colo começa com uma imagem que nos parece remeter para o clássico Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, de 1963, com aqueles vestígios de aldeia enfiados dentro e Lisboa e a mirada do monte a olhar para os prédios da Avenida de Roma. Há aqui a Avenida de Roma, mas também o campo, ali mesmo, no Vale do Silêncio, nos Olivais. Foi de resto esse bairro que João Salaviza habitou em Montanha (2015), com personagens também a precisar de colinho. E há ainda uma cabana onde se conseguirá encontrar parte dessa liberdade impossível.

Teresa Villaverde filma tudo isso – excelente a fotografia de Acácio de Almeida e excelente o som de Vasco Pimentel, de certa forma os olhos e o ouvido do cinema português – bem como as assoalhadas e os corpos que parecem querer sair dos seus donos. Seja o passarito de Marta, o corpo de Julia habitado por um novo corpo que já parece sentir, mas é também esse corpo, o seu, o corpo de grupo, que chegará a aproximar do precipício.

Há ainda decisões algo insólitas que se irão tomar, mas essas são coisas que só Teresa poderá explicar. Ainda assim, Colo é essa sugestão de um país que deixou tantas pessoas perdidas numa crise que não consegue explicar e para a qual elas não estavam preparadas. É por isso mesmo um filme que continua.

Depois do filandês Aki Kaurismaki usar o seu humor ácido para filmar a crise e a chegada dos emigrantes, no mais otimista The Other Side of Hope, exibido também em competição, temos agora uma esperança adiada, no limbo em que permanece o realismo lusitano. É como o realismo do cinema português, o tal cinema feito com migalhas, mas que consegue chegar aos festivais. E até ganhar prémios. Já lhe chamaram o “milagre do cinema português”.

Festival de Berlim – Competição

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