Sexta-feira, Fevereiro 3, 2023
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Salve-se quem puder: Godard “recomeça” no lugar da partida

Sauf qui peut é uma espécie de filme binário; que responde por si, mas que comporta o outro – o outro lado. Exibido esta semana na Cinemateca, na abertura da programação dedicada ao desaparecimento de JLG, permitiu-nos regressar a um dos seus trabalhos menos conhecido, dos mais conhecidos – quase num registo autobiográfico -, ainda que não é menos bom que os melhores. Salve-se quem puder!

É que, afinal de contas, esse tal ‘recomeço’ pode ter também mais do que uma leitura: pode ser até a sua nova tentativa para regressar a um cinema (mais) narrativo, justamente após uma década (a de 70) mais activista, politicamente empenhada, mais experimental. Talvez. Ou a um cinema de maior proximidade com Anne-Marie Miélville, que escreve o guião (‘em parceria’ com Jean-Claude Carrière); por fim, trata-se ainda de um filme que funciona como uma extensão do seu opus, o fulgurante A Bout de soufflé/O Acossado feito duas décadas antes (e mais de vinte filmes depois). Evidenciado por aquele plano final (que serve de enorme piscadela de olho) de Jean-Paul Belmondo a morrer na passadeira, aqui replicado por Jacques Dutronc, no papel de um cineasta chamado Paul Godard que assume “fazer filmes para passar o tempo”. Ele que morre atropelado, numa cena muito ‘decoupada’ em slow motion. Já no solo dirá: “não devo estar a morrer, pois não vi a vida desenrolar-se diante os meus olhos”.

O filme desenrola-se em quatro partes, acompanhando a vida desconexa de Godard, mas também de duas outras personagens femininas, Nathalie Baye, a companheira de Godard (Miélville?), e uma jovem Isabelle que assume com naturalidade, e cinismo qb, o trabalho pelo sexo, numa prestação à medida da muito jovem Isabelle Huppert. Pelo meio há ainda a ‘presença’ de Margeritte Duras, mais em alma, do que em presença, mas que se escuta a voz e um excerto de India Song. O filme seria menos bem recebido na sua apresentação a concurso (algo que acontecia pela primeira vez) para a Palma de Ouro, em Cannes, nesse ano de 1980, embora defendido pela própria Duras e até, aparentemente, Michel Foucalt.

Se calhar, a explicação do título (e até de uma boa tarde da carreira de Godard) estará mesmo entre o que se passa entre as personagens, a sua inquietação, o seu inconformismo, esse permanente risco, seja de ‘salve-se quem puder’. Embora esse seja um grito que atravessa quase todos os seus filmes – pois há algo sempre que está em risco ou alguém em crise. Se calhar, como a frase profética “vivre dangereusement jusqu’au bout”, pertencente ao filme de Robert Aldrich, desse ano de 1959, intitulado Ten Seconds to Hell/A Um Passo do Inferno, que se vê de relance em A Bout de Souffle, quando Michel Poicard lê o jornal nos Champs. Se calhar, o seu cinema é também um pouco isso: perigoso e deliciosamente desavergonhado. Salve-se quem puder!

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Paulo Portugal
Paulo Portugal
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