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Porto/Post/Doc recordar o cinema de resistência segundo Mészarós e Jancsó

Obras-primas de Márta Mészaros e Miklós Jancsó: quando o cinema húngaro nos oferecia a sua ‘nova vaga’ revolucionária. O PPD ofereceu também um olhar ao arquivo precioso da jovem Sierra Pettengill.

Mesmo à distância, foi-nos permitindo contemplar o cinema de vanguarda de Márta Mészarós e Miklós Jancsó, dois cineastas que colocaram a expressão ‘revolução’ no seu cinema e que merecem sair do nicho do cinema feito património e reivindicar o seu público.

Algo que o programa temático ‘We, the Revolution’ recupera, lançando luz sobre estes dois cineastas húngaros – que foram casados durante uma década, entre 1958 e 1968 – programando meia dúzia de filmes marcantes, com a particularidade de serem exibidos em cópias restauradas em 4k.

De Márta Mészarós recolhemos a intimidade das personagens femininas, sublinhada pelos grandes planos de rosto, fazendo-nos penetrar na alma das personagens. E frequentemente optando pela fotografia em preto e branco, como em Adoption, um filme de 1975, sobre a emancipação feminina, sem problemas de abordar o problema das condições de trabalho, o sexo ou as relações extramaritais. Sdoption venceria o Urso de Ouro em Berlim, abrindo a Márta as portas do circuito internacional.

O programa incluía ainda dois filmes ‘diários’ confecionais, Diary For My Children (1984) e Diary For My Loves (1987, vencedor do Urso de Prata em Berlim), onde Mészarós aborda os seus conflitos de adolescência e a sua evolução para a maturudade e estudo de cinema, sempre através da personagem de Juli (Zsuzsa Czinkóczi). A cineasta faria ainda em 1990, o Diário para os Meus Pais (não exibido no PPD), com Juli a confrontar-se com os eventos da revolução húngara falhada de 1956.

Do cinema meticuloso e politicamente implicado de Mklós Jancsó, destaca-se o uso dos planos sequência e o rigor absoluto da composição e ritual performativa de diversas personagens. Desde logo, no magnífico e incontornável clássico The Round Up, de 1966, sobre as ‘técnicas’ de prisão aqui aplicadas no séc XIX, embora a pensar mais nos métodos aplicados pelo regime soviético depois da sublevação húngara de 1956.

Esse estilo é, de resto, prolongado em Por Electra (1974), em que o realizador usa o mito de Electra para ilustrar o totalitarismo soviético num registo apostado no uso do plano sequência de impressionantes coreografias. Tal como o épico Red Psalm (1972), reencenando revoltas socialistas em performances próximas do musical e que lhe valeria o prémio de realização em Cannes nesse ano.

The Reagan Show (2017)

De referir ainda a urgência na descoberta do acervo da arquivista americana Sierra Pettengill. Seja pela forma como recupera algumas tendências do passado e as coloca em linha com o nosso presente, bem como a sugerir os riscos da sua reincidência. É o caso do racismo, em Graven Image (2017), sobre o ícone mais importante dos estados ‘Confederados’, o Stone Mountain, santuário de reunião do Ku Klux Klan; na violência e o uso de armas, em The Rifleman (2020), sobre o reflexo do NRA (Nation Rifle Association); na história oral de artistas americanos, em The Buisness of Thought (2020) ou no estilo performativo de Ronald Reagan na Casa Branca, em The Reagan Show (2017). Fica para descobrir o mais recente Riotsville, um filme deste ano em que se reflecte sobre este uso de técnicas de guerra para responder a distúrbios sociais.

Paulo Portugal
Paulo Portugal
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