Sábado, Dezembro 3, 2022
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DocLisboa: Oliver Stone confirma o local do crime em ‘JFK Revisited’

30 anos depois de JFK, Oliver Stone apresenta novas evidências forenses neste JFK Revisited que revelam inconsistências da investigação e também o papel (cada vez mais) dúbio da comissão Warren e da CIA. E que nos levam até a implicações políticas na guerra do Vietname. Enfim, é mais uma história por contar da América possível que Oliver Stone conta para quem quer ouvir. Passou hoje no Doclisboa em sessão única.

Sim, Oliver Stone regressou ao local do crime. O que é o mesmo que dizer, ao mistério e às circunstâncias que rodearam o assassinato do Presidente Kennedy a 22 de Novembro de 1963. E o público e imprensa presentes na 74ª edição do Festival de Cannes reagiram favoravelmente ao impacto de JFK Revisited: Through the Looking Glass, o documentário de duas horas apresentado no DocLisboa na secção da Terra à Lua.

Em 1991, com JFK, Oliver Stone procurava demonstrar nas três horas de filme que existia algo mais do que a participação solitária de Lee Harvey Oswald e das conclusões da Comissão Warren. Apesar de não evitar o rótulo de ‘teoria de conspiração’, o filme seria nomeado a oito Oscars, ainda que recebendo apenas dois, e confirmando um enorme sucesso de bilheteira, ao arrecadar receitas de 200 milhões de dólares em todo o mundo.

Esta nova abordagem justifica-se, segundo Stone, pela disponibilização de milhares de documentos pelo Congresso, o que permitiu uma investigação mais apurada. Mesmo assim, Oliver Stone mostrou-se decepcionado pelo desinteresse “por todas as estações de televisão e jornais”, pois em 2014, nos 50 anos da morte de JFK, “ignoravam completamente todas as descobertas feitas até ao momento”, mencionando apenas a ‘versão oficial’. “É tudo muito limitado”, afirmou. “Foi um momento muito depressivo”. Mesmo em 2017, como confirmou, o próprio Donald Trump declarara que iria libertar mais documentos classificados, apesar de recuar na ideia alegando motivos de “segurança nacional”.

Num estilo de documentário baseado em depoimentos (talking heads), mas com uma produção muito cuidada, a cargo de Robert S. Wilson (produtor regular de Stone, nomeadamente em The Putin Interviews e Snowden), ao longo dessas duas horas somos confrontados com sucessivas dúvidas suscitadas por testemunhos técnicos, e a narração de Whoppie Goldberg e Donald Sutherland, onde se avaliam os relatórios agora divulgados sublinhando as enormes discrepâncias que revelam uma realidade bem diversa.

Incentivado por Robert Wilson, que apenas descobrira JFK quando andava no liceu, procuraram trazer a público o resultado dessa investigação. Até porque, como sublinha o realizador, “existe muita informação disponível”. Sublinhando a ideia de que “nunca deveremos esquecer este assassínio, porque criou uma nova forma de estar nos EUA. O primeiro Presidente que teve a liberdade de ultrapassar a barreira entre o sector militar e das agências de informação. Isto é desarmante para a democracia”. E lançou mesmo uma mensagem para o futuro. “Espero que alguma coisa mude. A verdade é que nenhum Presidente teve a coragem para fazer isso. Precisamos de alguém com coragem para o fazer.”

JFK Revisited: Through the Looking Glass

Do que falamos então? Desde logo, da trajectória da “magic bullet“, que, segundo a versão oficial, teria de percorrer uma trajectória impossível para atingir nos sete pontos indicados e em dois corpos diferentes, o de JFK e o do passageiro no banco da frente, com a particularidade de a bala ter de efetuar o percurso que mostram os depoimentos agora revelados. Assim se abre um espaço cada vez maior à possibilidade de outros intervenientes e de disparos cruzados, uma hipótese sempre afastada. O que significaria, em suma, que Oswald não teria actuado sozinho, abrindo assim espaço para um atentado organizado. Ele que, como se sabe, foi eliminado dois dias depois por um disparo à queima roupa de Jack Ruby. Mas há mais. Como depoimentos que afastam a ideia de que o disparo fatal teria sido de frente, perfurando a traqueia do Presidente e produzindo os danos cranianos no córtex posterior. Na verdade, o que explicaria essa exposição maior em comparação com a entrada muito ligeira frontal.

Investiga-se ainda as inconsistências sobre Oswald, sobre a suposta arma do crime, com fotografias que lançam novas dúvidas, bem como as suas ligações à CIA e a movimentos pro e anti (Fidel) Castro. Ligações que acabarão por indiciar supostas ligações aos eventos da Bay of Pigs, um evento político-militar que teria apanhado JFK, bem como o seu irmão Robert Kennedy, de surpresa, e que terão acelerado a intenção de dissolver a CIA. É claro que daí ao conflito e à escalada da guerra do Vietname é uma conclusão próxima, bem como a interferência policial em política internacional e, sobretudo, ao “filme de terror” dos últimos anos.

Mais do que um documento acusatório, JFK Revisited: Through the Looking Glass parece mais empenhado em abrir o campo de possibilidades ao espectador para tirar as suas próprias conclusões sobre o assassínio do Presidente americano, de longe, mais amado em todo o mundo.

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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