Sábado, Dezembro 3, 2022
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Operação Fassbinder – A Fúria de Viver

 O presente ciclo apanha o cinema de Fassbinder já em marcha, numa fuga para a frente, num certo ritual em que Rainer Werner se olha ao espelho e expõe uma visão muito cáustica da sociedade em que vive e em que ele próprio se inclui. Ainda que já depois do soco no estômago que foi o seco e despojado noir de baixíssimo orçamento O Amor é Mais Frio do Que a Morte, de 1969, o primeiro filme de R.W.F. não incluído neste programa, mas que é de citação obrigatória ao marcar a chegada do cometa Fassbinder. Aconteceu precisamente no festival de Berlim, onde, apesar de uma recepção igualmente fria, deixou esboçado um princípio de linguagem cinematográfica, aliás bem expresso na dedicatória expressa a Chabrol, Rohmer, Straub e Linio e Cuncho (estas duas personagens do filme de Damiano Damiani, A Bullet for the General, de 1966), por certo, uma inspiração na nouvelle vague francesa. Curiosamente, no mesmo ano (em Berlim) Godard mostrava Le Gai Savoir, um filme, como JLG próprio, referiu ‘para acabar de vez com o cinema’. Talvez para que começasse algo novo com Fassbinder. Assim foi.

Cuidado com Essa Puta Sagrada (1971)

Cuidado com essa Puta Sagrada (Leopardo Filmes)

De certa forma, no radicalismo e idealismo de Cuidado com Essa Puta Sagrada, também ele composto por planos que exaltam o lado de agitação revolucionária como forma de expressão – tal como fora, com Godard, em La Chinoise, entre outros. Aliás, como bem relembra Christian Thomsen, Fassbinder convoca aqui “muitas citações dos filmes anteriores”. Uma vez mais, um ambiente fechado em que nada acontece, apenas conversas ocas em redor de um projecto de filme a fazer (ou de um tipo de cinema a nascer). Até porque, na verdade, a verdadeira ‘puta sagrada’ é o próprio cinema a revelar-se.

Fassbinder que fora o protagonista em o Amor passa a secundário (o assistente de realização) em Puta Sagrada, mesmo que o filme não ganhe com Lou Castel (que teve de ser dobrado) no papel do realizador que faz rebentar tudo quando entra (mesmo que não faça realmente nada). Até se houve a certa altura alguém dizer que “o amor é mais frio do que a morte”, mesmo que não deixe de ser, em certa medida, um auto-retrato de si próprio. Precisamente quando revela até o seu lado mais grotesco.

Seja com for, este foi um filme que o levou a uma pausa de vários meses – algo anormal no processo criativo de Fassbinder, pois estava habituado a um processo de criação contínua – levando-o a repensar numa alternativa ao seu cinema de provocação burguesa.

Algo que acabaria por encontrar numa aproximação maior às personagens, de certa forma também com uma porta aberta a uma desejada influência do cinema de Douglas Sirk, que, entretanto, descobriu e encarou como alternativa aos happy endings de Hollywood.

O Mercador das Quatro Estações (1971)

O Mercador das Quatro Estações (Leopardo Filmes)

De certa forma, algo que acabou até por encontrar quando viajou, em 1971, para na Suíça (Lugano), acabando por fazer O Mercador das Quatro Estações. Seguramente um filme central na sua filmografia, baseado até numa história da sua própria família, sobre um ex-soldado que regressa a casa para reconstruir uma vida normal com a mulher, vendendo fruta num carro ambulante.

Será justamente nessa clivagem de personagens levantadas do chão que melhor o cineasta expressa a sua visão pessimista de uma sociedade, sobretudo o ambiente familiar burguês, que parece ter consumido o seu próprio futuro. Desde logo pela violência perante o sexo feminino – e quantas mulheres não são esbofeteadas, por exemplo, nestes filmes! – acaba por ser filtrada como uma frustração sexual. Mesmo que em O Mercador sejam mesmo as mulheres que asseguram as relações de poder familiar. Como o vendedor de peras Hans Epp (Hans Hirschmuller) que nos é apresentado no flash back mortal em que a mãe, implacável e desencantada com o filho que regressa da legião Estrangeira, lhe responde quando ele a saúda afirmando que o amigo de longa data morrera: “é sempre assim: os melhores ficam por lá e aqueles como tu voltam”.

 

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972)

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (Leopardo Filmes)

Incontornável o teatral (e genial!) As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, ensaiando um magnífico (e actualíssimo!) gesto sobre a submissão dos papéis sexuais interpretados pelos elementos dos casais, seja de que sexo forem. Aqui no tratamento da duplicidade entre o amor e a repressão pela necessidade de atenção da estilista de moda Petra (Margit Carstensen), a atravessar um conflito interior, e o amor por Karin (Hannah Schugylla), mas também a hipótese de uma relação com a assistente submissa Marlene (Irm Hermann), embora esta não esteja preparada para essa ‘igualdade’.

Fassbinder desenvolve estas personagens num claustrofóbico e vicioso jogo de espelhos em redor de relações de domínio e entrega. Aliás, o próprio texto foi escrito para teatro, embora com um final diferente.

 

O Medo Come a Alma (1974)

O Medo Come a Alma (Leopardo Filmes)

O Medo Come a Alma é um filme sobre a solidão e o preconceito, permitindo ao cineasta alemão avançar (uma vez mais) para uma nova direcção, já depois da reflexão seu trabalho em televisão, e que marca também o seu triunfo em Cannes onde ganharia diversos prémios com esta corajosa proposta de uma relação entre uma uma empregada de limpeza já de idade (espantosa Brigitte Mira) com um emigrante tunisino (El Hedi ben Salem, também presença regular no cinema de Fassbinder e com quem o alemão manteve uma relação amorosa). Um filme que nos permite chegar à conclusão de que ‘ninguém pode viver sem os outros’ e que pode até (e deve) ser visto como uma revisão de O Que o Céu Permite/All That Heaven Allows (1955), de Douglas Sirk, entre uma viúva mais velha (Jane Wyman) e um pobre jardineiro (Rock Hudson).

 

Effie Briest – Amor e Preconceito (1974)

Effie Briest – Amor e Preconceito (Leopardo Filmes)

Uma vez mais empenhado em explorar novos campos do cinema, Fassbinder realiza Effie Briest – Amor e Preconceito, com a particularidade de elevar o estatuto da sua produção a um nível superior e concretizar o sonho de fazer um filme de época (neste caso, com fotografia a preto e branco) e até a permitir-se a um tempo de rodagem bem mais dilatado (e não os, por vezes, 8 dias ou pouco mais de duas semanas). Talvez por isso, um desejo apenas concretizado no seu 23º filme, baseado no romance Effi Briest, de Theodore Fontane, publicado em 1895, embora sem abdicar dos seus temas. Sim é um filme de emoções contraditórias assumindo Effi (Hannah Schygulla), contornando propositadamente uma visão modelar do seu feminino e optando antes pelo seu revés, pela repressão como forma de descoberta de emancipação.

 

Mamã Küsters Vai Para o Céu (1975)

Mamá Küsters Vai Para o Céu (Leopardo Filmes)

Em Mamã Küsters Vai Para o Céu é considerado o filme mais controverso e sarcástico de Fassbinder. E o mais arriscado. Desde logo, por transformar um episódio de um crime sensacionalista – um homem inconsolado com o despedimento mata o director de pessoal e suicida-se em seguida – num corajoso panfleto em que põe a nu todos os sucessivos aproveitamentos. Birgit Mira tem em mais um papel tremendo, como a mulher e mãe que estará à mercê do aproveitamento da imprensa sensacionalista, mas também com os diversos movimentos políticos, de esquerda e extrema esquerda. Em suma, uma exploração da tragédia, ainda por cima, no momento mais alto na carreira.

 

Roleta Chinesa (1976)

Roleta Chinesa (Leopardo Filmes)

Para Roleta Chinesa Fassbinder ousou colocar o ponto de vista na perspectiva de uma menina púbere, com uma deficiência que a obriga a andar de muletas, (Andrea Schober, à altura do que se lhe pedia). Embora também se reveja nesse lado de organização da ação que de desenvolve de acordo com o ‘jogo da verdade’ e das associações proposto pela jovem, em que balas imaginárias acabam por ser trocadas por balas verdadeiras, acabando mesmo por chegar ao limite da própria mão sentir o impulso de querer disparar sobre a própria filha. É o lado (e a oportunidade) da criança se mostrar como vítima e poder chamar a si a resolução dos problemas. Depois de apanhar ambos os pais na cama com amantes, a criança decide integrar os elementos adultos de uma mansão burguesa num jogo. Seguramente, um dos monumentos maiores do trabalho de câmara de Ballhaus, em particular na sequência da sala de estar da casa de campo, uma vez mais com essa capacidade de nos devolver (ou desmultiplicar) o outro. Um filme que conta com a participação da francesa Anna Karina.

 

O Casamento de Maria Braun (1979)

O Casamento de Maria Braun (Leopardo Filmes)

Mais um papel para a afirmar o estatuto de Hannah Schygulla, regressada de Effie Briest, embora com a vontade de poder invocar o seu inverso. No caso, a ideia de como lidar com um amor não concretizado durante uma década, como sucede com o casamento de Maria e Hermann Braun (Klaus Löwitsh) selado no meio de um bombardeamento no final da 2ª Guerra Mundial. Mas que se revela, afina de contas, incapaz diante da possibilidade de uma reunião. Ainda por cima durante a inesperada vitória da Alemanha sobre a Hungria de Puskas na final do mítico Campeonato do Mundo na final de 1954. Talvez, a descrença diante de todas as utopias possíveis. O filme seria um enorme sucesso de público e a consagração de Hannah Schygulla (se é que ela precisava). Antes ainda de Berlin Alexanderplatz 1980) e Lili Marlene (1981).

 

Depois do início a 6 de Outubro, no cinema Nimas, esta operação Fassbinder percorrerá as salas de cinema do país, nomeadamente o Teatro do Campo Alegre, no Porto, o TAGV, em Coimbra, o Theatro Circo de Braga, o Auditório Charlot, em Setúbal, e o CAE da Figueira da Foz.

 

Rainer Werner Fassbinder – A Fúria de Viver

Cuidado com essa Puta Sagrada (1971)

O Mercador das Quatro Estações (1972)

As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972)

O Medo Come a Alma (1974)

Effi Briest – Amor e Preconceito (1974)

Mamã Küsters Vai Para o Céu (1975)

Roleta Chinesa (1976)

O Casamento de Maria Braun (1979)

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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