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Nós Duas: Do que falamos quando falamos de amor?

Mais do que qualquer reinterpretação da famosa short story de Raymond Carver (ou do seu livro de contos), ao centrarmo-nos em Nós Duas percebemos que é disso mesmo que nos fala o filme de Filippo Meneghetti, esta semana em estreia. Um drama romântico, quase diríamos, com a capacidade de devolver uma certa sanidade em tempos da proverbial futilidade cinematográfica estival. É quase uma antecipação de rentrée. Talvez pela urgência de tratar-se de um filme de 2019. Chega esta semana, às salas de cinema. E é preciso ver.

Será que o tema adquire maior relevância ao mencionar que se trata de uma relação amorosa entre duas reformadas com a duração de quase uma vida inteira? É que a força maior deste filme francês – que é também estreia em longo formato do cineasta italiano -, reside mesmo na sua abordagem natural, totalmente despida de preconceitos ou agendas de género, focando-se apenas numa história de amor, sem nunca mostrar a necessidade de recorrer ao peso do elemento queer/LGBT.

Mudaria se fosse entre um homem e uma mulher? Mudaria, no sentido que afectaria de outra forma a esfera familiar mais próxima de Madeleine, ou Mado, para a mais íntima (Martine Chevallier, uma actriz da comédia française). Mesmo que para o destino do seu olhar, Nina (Barbara Sukova, a musa de Fassbinder, em Berlin Alexanderplatz (1980) e Lola (1981)), o conceito de amor (e o que é mesmo isso!) esteja sempre completo. Nesse sentido, nada mudaria.Até porque já tínhamos o Amour, de Haneke. Mas não.

Meneghetti serve-se então de uma mise-en-scène depuradíssima, em grande parte centrada no jogo de olhares entre ambas que se estabelece e reconstrói, sobretudo a partir do momento em que a saúde de Mado faz oscilar os planos amorosos que contemplam uma escapada para viver um amor merecido em Roma. Sobretudo quando um olhar quase vítreo desta, motivado pelo abalo vascular, não corresponde à ansiedade da companheira. É nesta economia, nesse jogo elíptico, do que fica por dizer ou mostrar, que Nós Duas ganha o seu centro. E de onde nunca sairá.

Nós Duas (Midas Filmes)

Fará sentido referir que Nós Duas venceu o prémio de melhor estreia, no FEST, em Espinho, na edição de 2020, bem como o queer award, depois da sua estreia em Toronto, ainda em 2019. No mesmo ano em que venceria ainda o prémio do público no festival Molodist, na Ucrânia. Chegou a ser nomeado aos Globos de Ouro, melhor filme em língua estrangeira, vencendo ainda nos prestigiados Césars e Lumière.

Como será legítimo imaginar, Nós Duas devolve um tremendo jogo de interpretação entre Barbara Sukova e Martine Chevallier. Esta última, uma respeitada actriz da comédie française, com muita experiência em televisão, mas com uma entrega total ao papel de uma amante septuagenária, embora com a responsabilidade de manter intacta a estrutura familiar, cabendo a Sukova a força duplicada de manter a fragilidade desse amor à tona, mas onde a firmeza do seu talento e presença nunca vacilou.

Talvez por isso faça sentido regressar a Carver, e ao questionamento de uma noção adocicada das histórias de amor, colocando a naturalidade do amor entre Mado e Nina em face de eventuais preconceitos sobre o peso da idade, a maturidade ou o que subtexto das implicações sociais trazem a esse discurso. Talvez baste a serenidade do cinema de Meneghetti para resolver as dúvidas. Pelo menos, permite o prolongamento de uma descoberta juvenil, um jogo de escondidas, que perdurou. Tal como aquela vontade de fugir para Roma e viver uma grande paixão. Como um derradeiro e definitivo pas de deux, como na belíssima cena final. Isso chega-nos.

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Paulo Portugal
Paulo Portugal
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