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A Cordilheira dos Sonhos: a metáfora do trauma da memória

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A Cordilheira dos Sonhos: a metáfora do trauma da memória

Na véspera de Mi Pais Imaginario ser exibido em Cannes, na sessão especial (sessão de imprensa e, na sexta-feira, sessão oficial), evocando a revolução social de 2019, A Cordilheira dos Sonhos estreia no cinema Ideal. Do chileno Patricio Guzmán sai o melhor cinema feito documento e acto de resistência das últimas décadas.

“Cada vez que passo por cima da cordilheira sinto que estou a chegar ao país da minha infância. Atravessar a Cordilheira é como chegar a um lugar muito longe no passado. Tudo me parece irreal. Sinto-me um pouco extraterrestre.” São estas as palavras iniciais de Patricio Guzmán que abrem A Cordilheira dos Sonhos, durante um longo plano aéreo que nos mostra a majestosa visão da cordilheira dos Andes vista de avião.

Em baixo, Santiago, a cidade que o cineasta suspira por o receber com indiferença. Mas é também a partir dessa enorme massa geológica, e das suas marcas, que o passado se torna reflexão. Tal como a astronomia fora para para A Nostalgia da Luz (2010) ou como a água acaba por reflectir o poder das estrelas em O Botão de Nácar (2015).

Tal como a descoberta da antiga casa de família, ainda de pé e intocada ainda pela febre construtora, relevada pelo ponto de vista de um drone, permitindo-lhe evocar mais uma memória do passado. E é precisamente esse conflito entre o presente e o passado que se ergue este filme, sempre alinhavado pelo timbre evocativo e suave de Guzmán.

A Cordilheira assume-se como uma metáfora do próprio, sonho, na medida em a sua beleza imponente e trágica, integral, maravilhosa, como refere o escritor Francisco Gazitúa, um dos vários intervenientes ao longo deste filme. Ou os frescos da montanha que o amigo Guillermo Muñoz, também ele exilado do seu país, pinta à distancia, inspirando-se em fotografias. Tal como a imagem da cordilheira gravada nas caixas de fósforos, a primeira memória da Cordilheira de Patricio Guzmán, mas que trazem também a memória do ‘golpe’ daquele dia 11 de setembro de 1973, devidamente documentado na trilogia de A Batalha do Chile. O cineasta que haveria de filmar cerca de vinte filmes sobre o Chile (mesmo sem lá viver). Haverá mesmo de dizer “nunca imaginei que a Batalha do Chile seguisse com vida até hoje. É como o espelho de um passado que me persegue”. Ou como refere na nossa entrevista: “Em Santiago não podemos deixar de ver a Cordilheira. É uma parede enorme. Ela está lá sempre a olhar para nós.”

‘A Cordilheira dos Sonhos’ (Midas Filmes)

Uma das recordações mais fortes é precisamente o estádio de futebol em que o Chile jogou (e perdeu) contra a Itália, mas em que se sagraram 3ª no mundial. E recorda como o festa durou vários meses. Só que esse foi também o estádio que se converteu num autêntico campo de concentração após o ‘golpe’. “Voltei a este estádio, como prisioneiro político”, escuta-se no filme. Onde ficou preso durante 15 dias. Depois de sair, saiu também do país com as suas bobines para nunca mais voltar.

Outros, como Pablo Salas, continuaram a filmar. Ele desde 1982-3, até aos 90, pegando quase onde Guzmán deixou. Acompanhando, portanto, a repressão de Pinochet que revemos em imagens perturbadoras, como aquelas em que aos cantos do ‘hino da alegria’ (ou a 9ª sinfonia de Beethoven) são recebidos por gás lacrimogéneo, jactos e água e cacetetes. Guzmnán diz que os arquivos de Pablo são um arquivo frágil embora extraordinário. Ou seja, “uma página da resistência popular do Chile” impossível de apagar. A memória do futuro.

Só que o futuro é já hoje, como diz quem está em Cannes onde é exibido Mi Pais Imaginario, um filme inspirado pelas revoltas politico-sociais dos dois últimos anos (entre 2019-2020), embora desta vez particularmente focadas na vontade e anseios do elemento feminino.

‘Mi Pais Imaginario’ (Alibi Films)

Recuperamos as palavras de Patricio Guzmán, proferidas em Toulouse, em Abril passado via zoom: “Hoje em dia existe um movimento social gigantesco no Chile, de união de pessoas na rua. É incrível porque começa a mudar o país. Um movimento novo, revolucionário, democrático. O país começa a trabalhar com o seu próprio passado. É necessário reconstruir o nosso país”.

 

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