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Rewind and Play: Uma jam session com Thelonious Monk

Mais um filme-evento da Berlinale recuperado para a programação do IndieLisboa. Rewind and Play é o regresso de Alain Gomis ao universo da música como forma de prolongamento da vida. Tal como fizera em 2017, com Félicité, o filme que seduziu o júri em Berlim (que lhe deu precisamente o Prémio do Júri), transmitido pela humanidade desta cantora de bares nocturnos, em Kinshasa, na República Democrática do Congo, que se vê a braços com uma inesperada missão para salvar o filho. Desta feita, recupera Gomis a mística do jazzman Thelonious Monk, durante a gravação de um programa musical, em Paris, permitindo extrair uma boa parte do carisma muito pouco conhecido deste pianista.

Tal como nos revelará na nossa entrevista (um outro encontro em Berlim depois da conversa a propósito de Félicité) foi o contacto com os materiais criados durante a gravação do programa Jazz Portrait, de Henri Renaud, em 1969, que permitiram a remontagem de uma realidade que nos ajuda também a perceber bem as diferentes dinâmicas entre o dispositivo televisivo e o cinema. E dessa forma permitir retocar também uma imagem menos conhecida de Monk.

Antes das gravações daquele dia 15 de dezembro de 1969, pouco mais de vê, a não ser a captação de imagens de Monk e da sua mulher, Nellie, no aeroporto e em momentos ocasionais num café em Paris. Será já depois, em estúdio, que os pequenos trechos musicais são entrecortados por pequenas conversas (e pequenos monólogos) de Henri Renaud, na tentativa de construir o seu programa, que depressa se transformam numa inesperada tensão. É que Thelonious não é um homem de palavras, mas de gestos musicais, pouco adequados aos rituais de uma comunicação de lugares comuns.

Acaba por ser então esta tentativa de comunicação, pouco frutífera, acrescente-se, a pontuar os monólogos entre os dedos e as teclas de ébano e marfim. Numa entrega tão completa que pouco, ou nada mesmo, deixa para a televisão. Mas é também essa mensagem do artista diante do seu trabalho.

 

… E uma conversa livre com Alain Gomis

Alain Gomis (foto: Paulo Portugal)

Será possível traçar algum paralelismo entre Felicité e Rewind and Play, sendo que se tratam de dois filmes que reflectem o lado de observação entre artista e a sua expressão musical?

Acho que tem razão. São filmes que trilham a mesma estrada. É claro que Felicité foi construído com linhas diferentes. Mas neste também as linhas são igualmente diversas. Existe o lado de construção deste programa de televisão. Temos a percepção do Thelonious Monk. E existe ainda esta tentativa de circular entre dois, por vezes três, pontos de vista, fazendo com que o espectador vá de um lado para o outro.

Que influência (musical ou outra) tem para si o Thelonious Monk?

O Monk tem uma influência enorme. Desde logo, pela forma como constrói a sua música. E como usa os silêncios…

A improvisação?…

Sim, a improvisação. Claro. Mas também as dissonâncias, tentando encontrar algum espaço. Ele nunca nos vai dizer tudo.

Será que foi talvez por isso que tem recebido um reconhecimento crescente ao longo do tempo?

Talvez, não sei. Eu tenho tentado perceber ate hoje como as pessoas ficam fascinadas por este tipo. Ele ainda tem muita gente completamente fascinada pelo seu trabalho em todo o mundo. Não percebo porquê, apesar de fazer parte desse mundo.

Qual é, para si, o seu maior fascínio?

Não sei, mas acho que à medida que as pessoas se aproximam dele, mas misterioso ele se torna. É um tipo difícil de controlar.

Mas é muito genuíno quando o vemos de uma forma muito natural, como nos mostra este documento valioso que você estudou.

Sim.

Ele é capaz de dizer duas palavras. Não muito maias…

É isso. É mais sobre aquilo que não é necessário dizer. Mas ele disse isso. Aquilo que não se toca é mais importante do que se toca. Mas eu acho que tudo isso está na sua música. Porque é também o que conseguimos ver. Ele toca o que está a viver naquele momento.

Foi aí que eu senti uma ligação com Felicité. Uma imagem que se torna mais clara à medida que nos aproximamos dela.

Compreendo. Para mim, foi importante estar ligado neste momento, porque é nesse momento me que ele se exprime. Ele exprime qualquer coisa que sente com o mundo. Ele tenta exprimir o mundo.

E é incrível como as perguntas da altura exprimem algo muito semelhante com o que se passa hoje em dia com os media…

Mas ele é tão paciente e tão cool, diante desta máquina louca que constrói imagens falsas, estereótipos. Mas é incrível que este tipo que lhe faz as perguntas aprecia imenso do seu trabalho.

Mas tem de fazer aquele trabalho.

Mas tem de o fazer. É claro que o Monk não é uma personagem fácil de entrevistar. Mas será que se pode fazer alguma outra coisa com este media?

Exacto. Imagino que para si foi uma bênção tem esse material adicional a esse espetáculo de meia hora.

Sim, era um programa de 30 minutos, apenas com alguns temas no piano. A montagem final destes rushes são cerca de 30 minutos de televisão, sendo que a totalidade dos rushes são cerca de duas horas.

Além dos excertos filmados no táxi, no bar…

Sim, foram recuperados apenas alguns momentos desses. Não vamos querer usar todos aqueles momentos de falhas. Mas, para mim, é isso que é mais interessante. Todos esses incidentes. É isso que nos permite ver uma pessoa realmente. Por isso, para mim foi uma enorme dádiva poder ver o Thelonious Monk, finalmente, como viram todas as pessoas que o conheciam e o descreveram.

Como a sua biografia.

Sim, do Robin (D.G. Kelley). Eu mostrei o filme ao seu filho e foi muito cool. E ele disse-me “este é o tipo que eu conheci”. Mas ele também tinha de manter a sua vida e então essa imagem de excêntrico também o ajudou numa certa altura. Ou seja, teve de usar um pouco isso, embora isso também o tenha destruído de certa forma.

A certa altura, o Monk foi totalmente honesto ao dizer que foi mal pago.

Seguramente.

Uma outra coisa que gostei muito, foi perceber como o Alain colocou o cinema num espaço totalmente televisivo. Como foi que abordou esses dois meios diferentes?

Pessoalmente, a minha ideia não era fazer cinema. Inicialmente, era um projecto para televisão, para a Arte. Talvez para ser exibido às duas da manhã (risos). Mas também percebi que tinha toda a liberdade, podia fazer o que me apetecia.

Como foi que surgiu essa oportunidade de fazer o programa para a (estação de televisão) Arte? Foi-lhe sugerido?

Não, fui eu. Quando me apercebi daquele material decidi fazer. Perguntei se estavam interessados e disseram que sim. Mas não pensei em fazer um programa que fosse visto no grande ecrã. Mas à medida que tudo foi avançando fui percebendo como era diferente em ver esse material na televisão ou no cinema. Neste momento, acho mesmo que é material para cinema. É talvez uma questão de ritmo e da sua relação com o tempo.

Talvez pare ser algo apreciado numa sala, com essa disponibilidade de apreciar um suporte, mesmo que tenha uma origem televisiva. Mas que nos convida a apreciar esse tempo. Isso eu acho que só no cinema se consegue. Até pela distância que nos facilita.

Exatamente. Até porque quando tentamos limpar um pouco a imagem, o campo, isso tornou-se horrível. Sento que necessitava de manter esse lado mais ‘duro’. Para usar essa dimensão, com os sinais de cortes e todo esse material, como estava…

Talvez um pouco como a improvisação do jazz?…

Sim! Porque eu estava a fazer a montagem e, às vezes, ocorrem pequenos acidentes.

E onde estava a fazer a montagem?

Em casa, em diferentes lugares. Às vezes, a viajar.

Onde vive hoje em dia?

Entre Paris e Dakar. Acho que montei este filme no meu computador em quatro ou cinco países diferentes. À vezes cometemos erros. Mas são esses erros que nos dão algo novo (risos). Tal como na música. E digo, “soa bem, vou manter isto”.

Sente que este filme lhe poderá dar alguma pista para o que poderá fazer a seguir?

Sobre o Monk?

Não, sobre música, talvez.

Acho que o cinema é muito inspirado pela música. Não tanto pela música que colocamos no filme, mas sobretudo pela dinâmica interna do filme. Do seu ritmo interno. Quando encontramos isso no filme tudo começa a funcionar no seu próprio ritmo. Apenas temos de seguir o que se segue. Estou contente por ter trabalhado neste projecto, de não ter uma tela definida para trabalhar. E de poder juntar os elementos e jogar com o material até que tudo se conjugue. Sabe, eu também gosto de teatro. Os ensaios que se fazem que se conseguem algumas coisas. No cinema é mais difícil e tudo é mais caro. Mas a música também pode fazer isso.

Sabe, lembro-me de um filme chamado Round Midnight que mudou completamente a percepção que tinha da música. E do jazz, claro. E com temas do Monk.

Sim, o filme do Tavernier, claro. Sim, com o Dexter Gordon.

É incrível como o sucesso do Monk foi tão lento, comparado como outros nomes maiores do jazz.

Sim, o Miles Davis quase toda a gente conhece, mesmo quem não gosta de jazz. Ou Charlie Parker. Já o Thelonious Monk é um pouco mais underground, apesar de ser bastante conhecido. Mas não sei porquê. O que acontece hoje é o que se passava naquela altura. Veja bem, é difícil fazer um produto do Thelonious Monk. Não é fácil de vender. Temos de ter alguma paciência e investir algum tempo. Talvez depois de algum tempo isso faça cada vez mais sentido. Não é instantâneo. Acho que é também por isso que muita gente gosta dele.

É incrível como o vemos o intenso trabalho a tocar que o faz transpirar tanto. Como se podo o seu corpo estivessem em ebulição naquele momento.

Sim, e a forma como toca é tão poderosa. Ele está numa ligação muito intensa com o piano. E vemos mesmo aquilo que ouvimos. Mas o mais incrível é a sua honestidade em tudo aquilo que faz. Como fala, como anda, a forma como toca. É exatamente aquilo que escutamos na sua música. Não conheço nenhum outro exemplo assim. Ele é único. Pela forma como gostamos dele, mas também como nos desconcerta. Isso é muito raro.

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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