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Ulrich Seidl sobre RIMINI: Não voltaremos à Europa que conhecemos

Ulrich Seidl é fiel a si próprio, ao seu cinema. Percebe-se que gosta de continuar a trabalhar nessa linha estreita (mas tão fértil) entre a ficção e não-ficção. A acção deste seu novo quadro da realidade que observa desenrola-se nos dias de hoje, algures entre o distanciamento de segurança, as brumas de inverno de uma pequena estância na costa italiana em época baixa. O protagonista é o cantor envelhecido Richie Bravo (o tremendo Michael Thomas), algures entre uma réplica de Mickey Rourke em O Wrestler (2008) ou uma versão bem melhorada e energética do ‘nosso’ Toy.

Falamos com o realizador austríaco durante a Berlinale. RIMINI faz parte da programação do IndieLisboa, fora de compeitção.

Porque a escolha de Rimini? O que foi que o atraiu para filmar ali?

Escolhi Rimini porque esse local me inspirou. Gostei muito do nevoeiro e da chuva fora de época, pois é tão diferente do verão. Gostei da atmosfera dos bares e restaurantes fechados. Acho que se fundem muito bem com a história do Ritchie Bravo. Quando escrevi o guião nem sequer tinha pensado em Rimini.

Mas já pensado no Michael Thomas? Porque ele é perfeito no papel.

Sim, escrevi o papel especificamente para ele. Acho que nenhum outro actor poderia ter desempenhado aquele papel.

Pode falar um pouco mais sobre o contexto desta personagem? O que acha da humanidade dele?

A ideia desta história é já muito antiga. Tem uns 15 anos, quando trabalhei com o Michael Thomas em Import Export. Não só descobri que ele era um verdadeiro actor, mas também que sabia cantar. Foi isso que me deu a ideia para o papel. Na verdade, parece-se bastante com a personagem. Tem aquele charme old school, um pouco viscoso talvez. Isso cristalizou a personagem e deu-me a ideia para a história do Ritchie Bravo. Mas devo dizer que, originalmente, tinha adaptado a personagem para um projecto diferente, com diferentes episódios referentes a turismo em massa. Ele seria um dos episódios, como um entertainer que já passou o seu tempo e que trabalha num resort de Tudo Incluído. E que ganha algum dinheiro extra passando tempo com mulheres mais velhas. Esse filme nunca foi feito. Mas dez anos mais tarde quando pensava no que iria ser o meu próximo projecto, esta história do Ritchie Bravo ocorreu-me e desenvolveu-se para uma longa metragem. O ponto de partida original foi o Ritchie Bravo, mas depois surgiu a ideia do seu irmão Ewald, que vemos brevemente no filme. Depois veio a figura do pai. E, depois, a filha do Ritchie Bravo. Estes foram blocos que me foram ocorrendo à medida que escrevia o guião.

Alguns dos planos neste filme são dos mais bonitos que fez em todo o seu trabalho. O que me faz perguntar, o que significa para si a beleza, enquanto cineasta?

A imagem das praias e da costa do Adriático, cheia de milhares de pessoas, meio nuas. Isso não me agrada, não acho nada belo. Acho a imagem do inverno, do nevoeiro e das praias desertas muito mais apelativas.

E quanto à neve em Rimini, foi algo puramente furtuito? Um golpe de sorte?

Foi apenas uma questão de sorte. Eu fiz uma pesquisa sobre Rimini, mas apenas dois anos antes da rodagem. Estava à procura de uma certa atmosfera e de saber a que tipo de ambiente natural corresponderia o ambiente de Rimini no inverno. Claro que desejava o nevoeiro, o frio e a chuva. Mas quando começamos a filmar, em Novembro (rodagem iniciada em 2017) e ficámos à espera do nevoeiro e da chuva. Mas não apareceu. Dia após dias tivemos um tempo maravilhoso. Por isso tive de suspender a rodagem e toda a gente foi para casa. Só em Janeiro, quando estávamos todos em Viena, soube que estava a nevar em Rimini – algo que não acontecia em décadas. Por isso voltamos todos a correr.

Parece-me que além deste período of season existe uma outra camada, conferida pelos refugiados e no que Rimini se transformou devido a isso. E a experiência que a filha dele teve neste mundo transformado. Concorda?

Isso espelha uma imagem o mundo me que viemos. Os migrantes aparecem não apenas em Rimini, e não apenas em Itália, mas em toda a Europa. Tal como na realidade, estas pessoas estão na margem da nossa percepção, e não prestamos atenção. Tal como se vê no filme. Estão por ali, numa presença constante, mas não fazem parte da realidade.

Gostava de perguntar-lhe sobre a relação da filha dele com aquele grupo de pessoas que vem com ele. Presumo que são refugiados. A ideia de os transformar num grupo quase ameaçador é significativa. O que estava a pensar nessa altura?

Sim, a filha tem um amigo árabe, que não especificamos de onde vem. Apenas que vieram juntos de Viena para Rimini para procurar o pai dela. Conheceu o namorado em Viena, e tal como frequentemente acontece com refugiados, assim que alguém se integra na sociedade procuram salvar o maior número possível de membros da família. Foi isso que sucedeu com o grupo que rodeia Tessa e o seu namorado. O facto de Tessa ter escolhido um namorado árabe é uma provocação para o pai, como para muitos da geração dele, pois tem muitos preconceitos sobre estrangeiros. Apesar de dizer que não é racista, é claro que é racista.

Será excessivo ver em Rimini alguma referência a Fellini? Pelo menos, por algumas personagens poderem fazer parte do seu leque?

Não houve nenhuma associação ou relação na escolha de Rimini a Fellini. Mas, claro, que isso pode naturalmente surgir, pois foi onde nasceu. Na verdade, em Rimini existem ruas com nomes de todos os seus filmes. Mas acho que não irão nomear nenhuma rua a propósito de filmes meus… (risos)

Qual a sua relação com a música pimba?

Eu venho de uma classe média, e tínhamos uma senhora que trabalhava connosco. Eles costumavam ouvir esta tipo de música. O hit parade. Isso consistia não apenas as músicas pop como dos Beatles, mas também músicas alemãs, com sucessos como as que ouve neste filme. Não procurei mostrar o lado kitsch, mas sim as emoções genuínas, como quando canta estas músicas, pois acredita nelas e encarna-as. Essas músicas expressam emoções que ele sente e as comunica e partilha com a sua audiência. Para mim, o lado mais tocante do filme é a autenticidade quando ele canta. São temas que falam de amor, da procura do amor, da separação. Isso corresponde à história do Ritchie Bravo e espelha o que sentem as pessoas que o escutam.

De certa forma, existe também a mesma saudade na música que o pai escuta. Acha que podemos traçar esse paralelismo? E naquele ambiente da casa de repouso.

Acho que o tema de Schbert que ele ouve expressa precisamente o oposto dos temas golden oldies que ouvimos no filme. O tema começa chego como estranho e parto como um estranho. No fim, ele também chora pela sua mãe. O tema da mãe está muito presente no filme. Começa com o enterro da mãe e termina com o pai do Michael Thomas a chorar pela sua mãe. E há também a cena em que Michael Thomas exprime o seu primeiro orgasmo provocado pela mãe. Portanto, a mãe está muito presente no filme.

Referia-me ao tema que exprime o nacional socialismo. Parece-me exprimir uma certa saudade…

Quando sofremos de demência, talvez possamos não reconhecer o presente, mas o passado está muito evidente. Vivemos no passado. Ele pode não reconhecer o filho quando o vem visitar, mas ainda se vê num passado. É o passado que se junta às duas personagens masculinas; tal como o passado de Ritchie o alcance, quando se encontra com a sua filha. E reclama parte da sua vida.

A Europa parece velha e acabada neste filme. Acredita que isso reflecte a Europa?

Não me parece que o filme seja optimista, mas também não me parece ausente de esperança. É claro que enfrentamos problemas que estão presentes no filme, como o dos migrantes. Mas isso é apenas uma das centenas de milhares de problemas. É verdade que o mundo está fora do seu eixo. Mas se existe ou não um futuro para a Europa, não saberei dizer. Mas de certeza que não voltaremos à Europa que já conhecemos.

Mesmo assim, percebe.se que a personagem do Ritchie Bravo é bastante acarinhada no filme. Apesar de todas as suas falhas. E são muitas. Diria até que é uma das personagens mais positivas nos seus filmes. Concorda?

A ideia de que o Ritchie Bravo seria uma personagem agradável foi um verdadeiro ponto de partida. A ideia de que o público poderia relacionar-se com ele e gostar dele. É verdade que ele desperta muitos desejos, ainda que tenha também o seu lado negro e as falhas, o alcoolismo, o vício do jogo. A ideia de ganhar dinheiro com favores sexuais com mulheres mais velhas. Mas, apesar de tudo, consegue manter-se um ser humano. Apesar de tudo, a sua vontade de tentar recomeçar tudo de novo, talvez seja algo com que nos podemos tentar relacionar. A sexualidade, tanto para ele como para as suas clientes, é apenas uma forma de manter alguma proximidade íntima, um contacto com o outro.

Parece-me que esse será o seu filme em que a narrativa tem mais elementos de ficção, apesar da mesma relação com a realidade. Como encara essa distinção entre realidade e ficção? Vão sempre ligadas, como nos seus filmes?

Não sei se será o filme mais ficcionado. A trilogia Paraíso ou Import/Export, eram todos ficção em certo sentido. No sentido, de que são histórias que inventei. É claro que são baseadas em realidade e o público consegue reconhecer isso. Mas este filme não é mais ficção que os outros.

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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