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IndieLisboa: agora já podemos voltar a casa

 Sim, já podemos voltar a casa, segreda-nos o Indie. Como quem diz, podemos voltar às salas. Então é para a frente que olhamos. Neste caso, para o que promete ser uma edição de grande maturidade. É a 19ª edição, que nos leva, desde hoje, dia 28, até ao próximo dia 5 de maio com uma programação muito intensa e variada.

Talvez faça algum sentido começar pelo gaze de Doris Wishman (1912-2002), no programa O Inferno Pode Esperar, retrospectiva que o IndieLisboa realiza juntamente com a Cinemateca Portuguesa – Museu de Cinema. Trata-se de um cinema desavergonhado e subversivo, muito marcado pela conotação da revolução sexual dos anos 60 que vale muito a pena descobrir.

‘Nude on the Moon’, de Doris Wishman

Do que já vimos, sublinhamos o que mais promete: logo a abrir, o intenso e tão actual Coma, do francês Bertrand Bonello, que passou na Berlinale na secção paralela, Encontros, mas que o seu “cinema fora da caixa”, como lhe chamámos na altura, muito bem poderia ter animado (ainda mais) a Seleção Oficial para o Urso de Ouro. Vê-lo-emos agora, a desafiar todas as formas, na secção Silvestre, fora de competição. Também fora de competição estará Cow, de Andrea Arnold, na visão contemplativa dos animais da quinta, em particular a vaca Luma.

‘Cow’, Andrea Arnold (MUBI)

É ainda na secção Silvestre que permitirá revelar (e actualizar) em Red Africa, o documento do cineastarusso Alexander Markov (em co-produção com a portuguesa Kintop de Susana Sousa Dias e Ansgar Schaefer), por nós descoberto na programação do Visions du Réel, focando as técnicas de propaganda soviética em África, entre o período da descolonização e a Perestroika. Sugere-se ainda o filme do austríaco Ulrich Seidl e a sua inusitada visita a Rimini, terra de Fellini. Embora com o sol e o dolce fare niente, substituídos pelo nevoeiro e um frio sem idade que busca o outro e nos remete até para a nossa própria actualidade. Michael Thomas é inexcedível, perfeito no papel de crooner que embala e aquece as jovens de outrora.

Quando passamos para a Competição Nacional, comprova-se a maturidade anunciada ao longo das nove longas metragens. Todas elas merecedoras de referências. Desde logo, esse objecto de difícil classificação que dá pelo nome de Super Natural, de Jorge Jácome, vencedor em Berlim do prémio FIPRESCI, provavelmente a melhor fita que vimos em Berlim. Tal como a experiência de Rita Azevedo Gomes a percorrer, adaptar e entrelaçar o estudo da peça de Éric Rohmer num diálogo fascinante de palavras, sons e espaços em O Trio em Mi Bemol.

Num registo completamente diferente, a dupla Adirley Queirós e Joana Pimenta inflamam a tela com Mato Seco em Chamas, impondo um cinema feito de adrenalina, polítca e o muito particular realismo social de Ceilândia, na periferia de Brasília. Tal como escapa a definição a entrega de Paulo Carneiro, em Périphérique Nord, a chegar ao IndieLisboa depois da passagem no festival de cinema documental Visions du Réel, em Nyon. Sobretudo quando percebemos que o seu cinema de observação substituiu a pacatez da aldeia de Bostofrio (2018) pela proximidade exercida pela máquina e o homem, neste caso, os carros transformados e a experiência cimentada dos proprietários,

‘Rua dos Anjos’ (Kintop)

Há que descobrir Rua dos Anjos, na estreia da dupla Maria Roxo e Renata Ferraz, onde o sexo e o cinema faz parte do diálogo de intimidade das duas cineastas. Tal como Águas do Pastaza, e a particular relação que a cineasta Inês T. Alves estabelece as crianças que vivem junto ao rio Pastaza, no Perú.

A secção inclui ainda a proposta aliciante e endiabrada de Pedro Henrique intitulada Frágil alicerçada numa dinâmica musical que facilita um cinema pouco convencional. Por fim, mas seguramente não em último, espreitamos o que se passa Atrás Dessas Paredes, seguindo as linhas narrativas propostas por Manuel Mozos num documentário que nos faz coabitar diferentes espaços humanos e arquiteturas interiores de várias épocas talvez para fazer sugerir uma qualquer ideia de liberdade. Mas ainda há curtas. Como aquela chamada Mistida que dará para ver ainda antes de passar em Cannes. Falcão Nhaga assina essa conversa entre mãe e filho. Ou By Flávio, de Pedro Cabeleira que agora pode ser descoberta depois da estreia mundial em Berlim. Às curtas haveremos de regressar e dedicar outro espaço.

‘Patti Smith, Electric Poet’ (IndieLisboa)

Entre o muito que há para descobrir nas diversas secções, como por exemplo, a sempre tantadora secção do IndieMusic. Destacamos, como é evidente, o documento Cesária Évora, logo na abertura do festival, assinado por Ana Sofia Fonseca, com imagens inéditas da “diva dos pés descalços”, bem como, num outro extremo, o ritmo proposto por Pedro Coquenão em Batida Apresenta: The Almost Perfect DJ, seguramente numa ligação que se pode estabelecer com Laurent Garnier: Off the Record, aquele que é conhecido como “o Papa ou ‘um DJ de DJ’s”, como informam as notas do filme de Gabin Rivoire. Sim, há mais; as histórias de Patti Smith, Electric Poet, a Sonosfera Telectu, recuperada por um quarteto de realizadores, incluindo Vítor Rua. E para acabar em ritmo jazz, com o toque muito particular de Thenolious Monk, em Rewind and Play, de Alain Gomis (com quem falámos em Berlim).

Sim, vai ser muito bom estar em casa.

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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