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Cinélatino celebra a urgência da criação independente

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Cinélatino celebra a urgência da criação independente
'Utama', de Alejandro Loayza Grisi

O cinema da América Latina recupera o merecido espaço de apresentação, nos encontros de Toulouse em mais uma edição do Cinélatino. A 34ª desenrola-se entre os dias 25 de Março e 3 de Abril.  

PAULO PORTUGAL, em Toulouse

Há precisamente dois anos, no malfadado ano de 2020, assumimos o compromisso de servir como júri FIPRESCI no Cinélatino, só que a pandemia de covid 19 haveria de forçar o festival a abdicar de uma presença física e a seguir apenas online. Foi o primeiro a fazê-lo e esse foi também o primeiro júri online.

Entretanto, a expectativa cresceu e concretizou a vontade de vir a Toulouse conhecer, finalmente, a mítica Cinemateca, o espaço principal do Cinélatino. É nesse recinto acolhedor, da Rua Taur, bem no centro de Toulouse, que o cinema latino combina com o ritmo da salsa, o sabor exótico do poncho e o gosto irresistível das empanadas. Só que estes são apenas alguns dos ingredientes deste festival dirigido por Francis Saint-Dizier, também presidente da ARCALT, a associação Rencontres Cinémas d’Amérique Latine de Toulouse, que desde 1989 domina esta iniciativa cultural na quarta maior cidade francesa (depois de Paris, Lyon e Marselha), no sul do país a menos de 200kms de Andorra.

‘La Calma’, de Mariano Cócolo

É o cinema de resistência que se descobre na seleção dos filmes em competição onde a falta de apoios é superada pela vontade de afirmar a sua individualidade. Este ano, por exemplo, com Utama, a estreia em longo formato do boliviano Alejandro Loayza Grisi, mas já vencedor em Sundance e Málaga. Aqui narra a vida de dois idosos quechuas remetidos a um pequeno rancho, no planalto de Potosí, sem água e apenas com a companhia de rebanho de Llamas rebaño de llamas. Também Eami, da paraguaia Paz Encina, detentora do Tigre de Ouro, em janeiro passado, em Roterdão, ou até La Calma, também a estreia do argentino Mariano Cócolo (além da curta Al silencio, vencedor do prémio de realização em Mar Del Plata), cuja fotografia e preto e branco sublinha a rudeza da paisagem e o conflito social da província rural de Mendoza, onde uma jovem vem tratar do pai que acabara de sofrer um AVC.

Mas há mais. Documentários e curtas, além do foco no Ciné en Construción, uma secção muito importante para o festival, a celebrar este ano celebra a 20ª edição. Trata-se de um dispositivo de descoberta de novos talentos, acompanhando um conjunto de longas-metragens à fase de pós-produção e facilitando a sua exposição internacional. Com a particularidade de mostrar Bolívia, de 1999, do argentino Adrián Caetano, o primeiro filme a beneficiar dessa abertura, acabando mais tarde por ser selecionado para a Semana da Crítica, em Cannes, exibido agora cópia restaurada.

Patricio Guzmán, na rodagem de ‘La Cordilheira de los Sueños’

Um dos outros pontos altos do Cinélatino, versão 2022, será seguramente o cinema insondável do argentino Matías Piñeiro, com apresentação da sua singular obra de ficção, incluindo Isabella, 2020, e Sycorax, 2021, os seu últimos filmes.

Por fim, mas seguramente não em último, a retrospectiva do cinema do chileno Patricio Guzmán, cujo fulgor político se articula de uma forma quase orgânica com uma certa poesia da memória. Cineasta celebrizado pela trilogia A Batalha do Chile (1975, 1977, 1979), registando a chegada ao poder de Salvador Allende até ao golpe de estado que haveria de impor a ditadura de Augusto Pinochet, que congrega uma outra trilogia onde evoca a memória desse tempo: Chile, La Memoria Obstinada (1997), La Mas Pinochet (2001) e Salvador Alllende (2004). Mais recentemente, Guzmán ofereceu-nos a sua maravilhosa terceira trilogia que junta Nostalgia da Luz (2010), O Botão de Nácar (2015) e La Cordilheira de los Sueños (2019), este último, o filme que nos permitiu conhecer pessoalmente Guzmán, com a apresentação do seu filme em Cannes.

 

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