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Em ‘Rimini’ Ulrich Seidl evoca a memória e o amor dorido

Ulrich Seidl é fiel a si próprio, ao seu cinema. Percebe-se que gosta de continuar a trabalhar nessa linha estreita (mas tão fértil) entre a ficção e não-ficção. A acção deste seu novo quadro dentro da realidade que observa desenrola-se nos dias de hoje, algures entre o distanciamento de segurança, as brumas de inverno de uma pequena estância austríaca e a costa italiana em época baixa. O protagonista é o cantor envelhecido Richie Bravo (o tremendo Michael Thomas), algures entre uma réplica de Mickey Rourke em O Wrestler (2008) ou uma versão bem melhorada e energética do ‘nosso’ Toy.

Ele dá luz e um tremendo vigor a este velho crooner, animando concertos para turistas alemães em hotéis. Isto para além de fazer de gigolo nas horas vagas e animar sexualmente senhoras mais velhas, trocando o amor mais físico das canções em troca de dinheiro. Já o seu pai isolado num aliso de idosos, a sofrer de Alzheimer, ainda prefere cantar canções de guerra da alvorada nazi.

Além deste belo estudo de Seidl sobre o mundo da geriatria, sublinhando este desejo desesperado de serem amados antes da chegada à derradeira fase de completo desamparo, em Rimini reúnem-se essas diferentes gerações e culturas, sem esquecer uma subtil panorâmica sobre a situação política no mundo, mostrando os migrantes e refugiados que vão, gradualmente, ocupando espaços, difundindo seu modo de vida e cultura.

A habilidade de Seidl consiste na forma como combina esse realismo do quotidiano com uma história de ficção, como a que faz surgir a filha de Ricci, abandonada ainda muito jovem, depois de se ter entregue como noiva de Alá na Síria, e que regressa agora, acompanhada de ‘cinco amigos’ árabes, para reivindicar o apoio paternal que lhe faltou.

Talvez de forma algo subtil, Seidl parece fazer uma homenagem, ainda que velada, a Fellini, o cineasta nascido em Rimini. Mesmo sem citações directa, o Fellini de Amarcord também tinha música, névoas e cenas picantes que foram cuidadosamente guardadas em sua memória. Já Seidl é o oposto – as névoas e sexo são uma tentativa de esquecer, pelo menos por um momento.

Não é por acaso que o filme termina com a primeira música Good Night do ciclo Winter Journey de Schubert. Por um lado, esta música é o início de uma viagem ao mundo do esquecimento (se considerarmos todo o ciclo), e por outro lado, é uma canção de embalar, o que significa que depois do sono ainda há esperança de despertar.

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3
Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
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