Sábado, Janeiro 22, 2022
Google search engine
InicioCríticasLicorice Pizza: a mix tape de uma história de amor

Licorice Pizza: a mix tape de uma história de amor

No que pensas quando pensas na descoberta do amor? No caso de P.T. Anderson, percebe-se, passa em grande parte pela evocação da sua memória pessoal na região de San Fernando Valley, a norte de Hollywood. Apesar de Licorice Pizza assumir a aparência de uma comédia romântica, não deixa igualmente de aflorar as raízes do seu próprio cinema. De resto, a motivar apetecíveis revisões, quanto mais não seja para apreciar a minúcia com que o cineasta temperou cenas e personagens com inúmeras referências e dados verídicos da época. A todos os títulos, uma ótima surpresa que pode muito bem afirmar-se como uma espécie de post script a muitas listas dos melhores filmes deste velho ano cinematográfico.

Será mesmo essa nostalgia a contagiar o enigmático título do filme que, nada tendo a ver com gastronomia, percebemos que evoca uma cadeia de lojas de discos popular na zona entre os anos 70 e 80 – eventualmente, oferecida pela forma redonda e a cor negra do vinil. É como se P.T. regressasse a um tempo em que foi feliz. Neste caso, um pouco antes daquele em que decorre a ação de Boogie Nights/Jogos de Prazer (1997), ambientado entre o final dos anos 70 e 80, agora a recuar a 1973, em plena primeira crise dos combustíveis, motivando algumas das cenas mais hilariantes desta comédia profundamente romântica.

É num tempo de descoberta e mutação que se centra o romance entre Gary (Cooper Hoffman, filho de Philip Seymour Hoffman, aqui na sua estreia absoluta) e Alana (Alana Haim, da banda HAIM, igualmente uma estreante à excepção dos clips musicais, muitos deles filmados por PTA – aliás, as outras membros da banda aparecem também brevemente no filme). Antológica é a sequência de abertura com o encontro deste improvável par romântico, num admirável traveling revelando o pick up galante durante a fila do retrato fotográfico para o novo ano lectivo, entre o adolescente confiante de 15 anos e a jovem mais adulta, mas igualmente mais insegura, embora cheia de recursos (fala inclusivamente português!), resignada a providenciar o espelho ou pente para o aprumo final dos imberbes. A luz e o movimento em câmara lenta que acompanha a rapariga de pernas longas até parece sugerir o ambiente ideal de um spot publicitário para uma qualquer marca de champô.

Aparentemente, a adolescência de Gary terá de esperar, pois este filho de uma relações públicas de LA, não tem tempo a perder. Nascido e crescido num mundo em permanente mutação em que é necessário apanhar o comboio certo na hora certa, este rapaz de fala mansa e raciocínio rápido, está habituado ao mundo de adultos, mesmo que cumpra o papel de actor numa comédia musical infantil. Pois é também nessa precocidade que apetece fazer ponte para o cinema. Ou para os 17 anos de PTA quando apresentou o seu mockumentary The Dirk Diggler Story (1988) sobre a uma estrela de cinema pornográfico, inspirada em John Holmes, e que oito anos mais tarde daria origem a Boogie Nights.

No fundo, é como se os diversos ingredientes desta Licorice Pizza fossem trabalhados como elementos de uma mix tape evocando e re-imaginando acontecimentos e personagens verídicas num tempo em que tudo era novo e ao mesmo tempo velho. Talvez por isso faça todo o sentido um Tom Waits tão próximo do estilo de Nighthawks at Dinner (uma série de espetáculos gravados em estúdio, com convidados ao vivo, em 1975, em Los Angeles), bem como Sean Penn, numa evocação supostamente a recordar o actor William Holden (protagonista de Sunset Boulevard (1950), curiosamente, abordando a dificuldade da transição de uma época, o cinema mudo). Por fim, Bradley Cooper, na sequência mais arrasadora (terrífica mesmo), a encarnar o cabeleireiro Jon Peters, e também produtor e namorado de Barbara Streisand.

Numa das cenas vemos também a publicidade ao filme Vive e Deixa Morrer, com Roger Moore, apresentado em double feature com O Mecânico, com Charles Bronson, talvez a evocar o turbilhão daquele início dos anos 70, ainda mal refeito do efeito de A Garganta Funda (1972), o tal filme que haveria de afirmar o X na sua classificação. Então neste filme sobre o que muda e o que fica, será seguramente também sobre o novo cinema que substituiu o relho, que o reciclou. O tal ‘Novo Hollywood’ em que cineastas mais jovens e conhecedores do cinema do mundo, portanto mais afastados da política dos estúdios, de que é herdeiro o passado de Paul Thomas Anderson. Neste caso, com Gary a representar parte dessa nova geração que vai improvisando. Talvez que os seus colchões de água ou as máquinas de flippers possam ser encaradas como soluções acertadas. Pois por mais estranhas que parecessem, conquistavam uma nova geração. É isso mesmo que se vê no final, na festa de Gary. Antes do encontro final com Alana. E apercebermo-nos disso é muito bonito. É como espreitar no espelho do início e usar o pente para corrigir o penteado.

 

 

 

  • Classificação
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
RELATED ARTICLES

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -
Google search engine

Most Popular

Recent Comments