Dezembro 9, 2021

Crónicas de França: Quando são os bons malandros a despachar

Temos sido felizes com o cinema de Wes Anderson. Sempre muito expressivo e sedutor no cuidado meticuloso com que cuida de cada plano e exprime cada palavra. Picaresco no desenho de cada personagem, sempre pronto a revelar-nos um lado algo burlesco, de humor rico e elevado e, naturalmente, muito cool. Como se tudo pertencesse a vinhetas de uma prancha animada de BD. Sim, cool tem sido sempre. Mas se Moonrise Kingdom, apresentado em Cannes há nove anos (altura em que tivemos o prazer de conversar com o realizador), foi uma espécie de zénite do seu estilo, em The French Dispatch ficamos com a sensação de que é o estilo que domina e subjuga todo o filme. Retirando-lhe, por isso mesmo, toda a sua alma.

Lamentavelmente, estas Crónicas, no prelo há já mais de dois anos, deixam-nos um sabor algo deslocado. Em que a paleta de desenhos de espaços mentais icónicos se deixa ultrapassar pela sua própria metodologia. E, no processo, permitindo que a verve do argumento (desta vez em parceria com Jason Schwartzman, como em Ilha do Cães e The Darjeeling Limited) se submeta e esvazie em favor desse rigor gráfico. Talvez ainda mais penalizador (ou imperdoável) por se tratar da evocação de uma publicação de cross culture entre a França e os EUA (talvez um pouco no estilo gráfico da revista New Yorker) – onde verá quem quiser uma piscadela ao próprio Festival de Cannes.

O problema maior, contudo, é a perceção de que Anderson acredita cegamente no seu estilo. Como arquitetura funciona. Mas há que criar os seus vasos sanguíneos que lhe possam dar vida. Algo que só poderia fazer com as linhas narrativas. Não é isso que temos. O que temos, claro, é a sua comitiva de estrelas. Eles estão todos lá. Bill Murray e Owen Wilson e todos os outros: Tilda Swinton, Frances McDormand, Edward Norton, Adrien Brody, Angelica Huston, a que se junta, este ano, a inevitável Léa Seydoux (em Cannes com quatro filmes), Benicio del Toro, Timothée Chalamet, entre uma dezena mais de actores mais habituados a papéis principais, mas que aqui se contentam com uma cameo. Tudo bem. Assim tem sido desde Os Tenembaums, em 2001. E bem, diga-se, com um aprumo quase sempre em co-autoria, com Noah Bambaum, Roman Coppola ou Jason Schwartzman.

A ideia com que ficamos é que o filme funciona como uma máquina com vida própria. Como se tratasse de uma animação, ou uma marioneta vintage. Aliás, um pouco como nos mostra o plano inicial, numa piscadela desavergonhada a Jacques Tati. Mas daí nada de mal vem ao mundo. A menos que a propósito da narrativa das excentricidades dos colunistas da revista se transforme num licenciamento de total liberdade que se verga apenas ao meticuloso estilo. E pouco nos devolva à alma narrativa, da palavra ou do seu sentido.

Particularmente gritante é a sequência sobre o artista criminoso (Benicio del Toro) que toma como musa a sua carcereira (Léa Seydoux, que aceita posar para ele) e a sua transformação em celebridade. Ora, se quisermos, é precisamente essa pura manipulação da arte, com uma aura criada à pressão, de que nos sentimos forçados a gostar (ou em alguns casos a venerar mesmo, como certa imprensa estrangeira gosta de fazer, como forma de se impor como referência), mas que, afinal de contas, se redunda em poucochinho.

(análise escrita durante o último festival de Cannes, em Julho de 2021)

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