Dezembro 9, 2021

Festival Lumière: a celebração do cinema enquanto património

No regresso às salas, com uma homenagem ao anterior diretor Bertrand Tavernier. Além de retrospetivas de Jane Campion e Sydney Pollack, a recuperação do policial de Gilles Grangier e a descoberta de Kinuyo Tanaka. O festival acabou mas a festa do cinema continua na cidade de Lyon com um ‘best off’ que se prolonga até ao dia 16 de Novembro.

Institut Lumière, Rue du 1ère film

Celebrou-se a 13 edição do festival fundado por dois naturais de Lyon – o cineasta (desaparecido em março deste ano antes de completar 80 anos) Bertrand Tavernier e Thierry Frémaux, o diretor artístico do festival de Cannes – que se dedicaram a promover um certame fundado na memória do cinema, nos seus tesouros, mas também na sua preservação. Precisamente no local onde os irmãos Auguste e Louis Lumière deram nascimento à aventura de animar as imagens fotográficas.

É precisamente na mansão da família Lumière (a village) que reside o quartel-general do festival, bem como o museu onde estão guardadas muitas das relíquias do cinematógrafo. Ali mesmo ao lado, no hangar, o local que dá acesso à bilheteira do evento, foi dado, em 1895, sinal para se abrirem as portas da fábrica de produtor fotográficos Lumière dando assim origem àquele que foi considerado o primeiro filme (La Sortie de l’Usine Lumière à Lyon, de 1895), naquela que ficou batizada como a Rue du 1ère film.

Este ano, com o destaque feito à retrospetiva do cinema de Jane Campion, naturalmente, com a apresentação do seu último filme, The Power of the Dog, após um interregno de uma década.  No plano da recuperação histórica, foi incontornável a descoberta do cinema de Kinuyo Tanaka, dentro do programa da história permanente das mulheres cineastas, com seis filmes notáveis que haverão de circular nos eventos internacionais a partir do início de 2022.

A parte mais relevante do programa deste ano completa-se com ‘a América de Sydney Pollack’, talvez aquele que melhor fará a ponte entre o cinema lírico da época dourada de Hollywood e, sobretudo, a sua própria ruptura, naquilo que ficou conhecido a ‘nova Hopllywood’. Oportunidade assim para ver grande parte desta filmografia, em quinze cópias restauradas (inéditas) da Warner, Paramount e Wild Side, incluindo Chamada Para a Vida (1965), o seu primeiro filme, Os Cavalos Também de Abatem (1969), O Nosso Amor de Ontem(1973), Os Três Dias do Condor (1975) ou África Minha (1985). Grande parte do cinema fortemente politizado dos anos 70 passa por aqui, com intervenções de peso de actores como Jane Fonda, Faye Dunnaway, Meryl Streep, ou o amigo Robert Redford, com quem Pollack filmaria sete vezes.

De certa forma, será a ligação que o cineasta francês Gilles Grangier – um fenómeno do que ficou chamado como ‘polar francês’ – com o ator Jean Gabin que participou em doze filmes de Grangier. As diversas salas espalhadas pela cidade exibiram Nas Águas do Reno (1953), Gás-Oil (1955) ou Le Désordre de la Nuit (1958).

The Cameraman (1928), de Edward Sedgwick

Seja como for, um dos momentos mais altos da edição foi, para nós, o aquele em que assistimos à abertura oficial na Halle Tony Garnier, entre quase vinte mil espetadores sentados, a uma projeção de “The Cameraman/O Homem da Manivela” (1928)de Edward Sedgwick, com Buster Keaton (o último filme onde teve controlo criativo), talvez mesmo um dos seus melhores momentos e um dos grandes filmes sobre o cinema, onde o génio de Keaton trabalha o realismo e a ficção, de certa forma antecipando o que o russo Dziga Vertov faria, um ano depois, com O Homem da Câmara de Filmar (1929).

Para além destes, o programa contemplava ainda diversos eventos celebratórios, como os 50 anos no nascimento do fenómeno ‘blaxploitation’, em 1971, com a exibição de Sweet Sweetback, de Mario Van Peebles, e Shaft, de Gordon Parks. A mesma efeméride se aplica à carreira de cineasta de Clint Eastwood, bem como os trinta anos de Van Gogh, de Maurice Pialat, a exibição da trilogia Infernal Affairs, de Andrew Lau e Alan Mak. Por fim, as aventuras de Antoine Doinel, celebradas no mais belo quarteto de filmes de François Truffaut. Ou ainda o trio de clássicos do horror japonês, com Ring (1998) e Dark Water (2002)de Hideo Nakata e Audition (1999), de Takashi Miike.

No imenso programa do Festival Lumière, puderem ser recuperados diversos clássicos do cinema em cópias restauradas, como Com a Verdade me Enganas, 1937, de Leo McCarey, Sei para Onde Vou, 1945, da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, ou ainda Millenium Mambo, 2001, de Hou Hsiao-hsien entre outros. Tal como as homenagens, este ano, devidas ao sociólogo centenário Edgar Morin (autor do incontornável Chronique d’um été (1960), co-realizado com Jean Rouch, ao compositor Philippe Sarde, à actriz Bulle Ogier (Céline e Julie vont en bateau, uma obra central de Rivette, datada e 1974). Ainda Paolo Sorrentino (naturalmente, com passagem do recentíssimo (e autobiográfico) È stata la mano di Dio (2021) ou o ator Édouard Baer.

Paralelamente, espaço a exposições de fotografias, neste caso ao trabalho de Raymond Depardon, documentando as suas viagens pela América, em The Desert American, um tributo a Bertrand Tavernier, assinado com fotos de Étienne George, e ainda as fotografias de Nan Goldin, sobre a rodagem do tremendo Variety, no que se poderá considerar uma viagem travestida do olhar feminino ao ambiente do cinema porno novaiorquino. Ainda encontros de editores de DVD clássicos, como aquele em que assinala o lançamento da coleção de filmes de Kinuyo Tanaka, exibindo o behind the scenes intitulado “The Tanaka case”.

Apesar do relevo clássico da programação Lumière, o Festival abre também um espaço de filmes novos, onde se apresentaram alguns filmes do ano corrente em antestreia, como foram os casos, entre outros, de Cry Macho, de Clint Eastwood, Vortex, de Gaspar Noé, Julie, de Joachim Trier, ou The Velvet Underground, de Todd Haynes.

Sobre Paulo Portugal 911 artigos
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