Segunda-feira, Agosto 8, 2022
Google search engine
InícioEntrevistasAlice Diop: “Faço cinema em nome dessas imagens que faltam”

Alice Diop: “Faço cinema em nome dessas imagens que faltam”

ENTRE KARLOVY VARY E INDIELISBOA

Foi uma obsessão que a levou a filmar os anónimos que passam a correr na janela do comboio metropolitano RER, atravessando Paris de norte a sul. Também a nossa de nos encontrarmos com Alice Diop, sobretudo desde que vimos o seu filme na versão online do festival de Berlim, onde venceria dois prémios na secção Encontros.

O ‘encontro’ feliz acabou por ser no KVIFF, o Festival Karlovy Vary. Isto escassos dias (ou horas) se viajar também para Lisboa, para se apresentar no IndieLisboa. Não viajamos juntos. Só a transcrição da entrevista, durante a viagem. A dela continuará, já depois de Lisboa para terminar a sua incursão da ficção. Mesmo assim, sem descurar a sua impregnada visão do real.

Talvez por isso, se sinta tão próxima do cinema português, na linha de Monteiro, Gomes ou Costa. Foi assim que começámos. A terminámos. Agora Nós.

Alice Diop

Sei que vai estar em breve em Lisboa,…

Estou muito contente por ir a Lisboa (ao IndieLisboa). É a primeira vez que vou a Portugal. Até porque adoro o cinema português.

Alguém em particular?

O Monteiro… Adoro também o Miguel Gomes.

Viu o seu último filme? Está aqui em Karlovy Vary.

Não pude ver ainda. Mas adoro muito a sua forma de interferir com o documentário no filme “Aquele Querido Mês de Agosto“.

Bom, por acaso um filme que tem uma ligação muito próxima com o novo (Diários de Otsoga).

Pois, eu sei. Mas gosto também muito do Pedro Costa. O seu último filme Vitalina Varela é um dos grandes filmes que vi nos últimos tempos.

Para mim, é um dos grandes filmes que já vi. Acho que é cinema puro.

Foi um filme que me acompanhou enormemente durante a rodagem do meu novo filme de ficção.

Sim, já lá iremos a esse filme.

À minha diretora de fotografia mostrei-lhe apenas um filme, Vitalina Varela. Por acaso, a Cahiers du Cinéma pediu a vários cineastas para fazerem um número especial a partir deste filme. E o diretor do Cahiers ligou-me a pedir-me se eu queria falar um pouco sobre o cinema do Pedro Costa. Isto porque conheço bastante bem os seus filmes. “No Quarto da Vanda“, “Cavalo Dinheiro“, etc. Foi nessa altura que eu vi o “Vitalina Varela“. Comecei às 22h e à 1h da manhã liguei-lhe a dizer que tinha visto uma obra prima, um monumento do cinema. Para mim é um dos melhores filmes que já vi. A partir desse momento falo a todas as pessoas do filme. Eu estava em Locarno há dois anos quando o Pedro Costa ganhou o prémio (Leopardo de Ouro). Na altura não vi o filme porque estava no júri (de curtas dos Pardi de domani). Mas quando vi a Vitalina a receber o prémio fiquei muito impressionada, porque ela representa muito da ficção e do documentário e isso para mim é o que mais me apaixona.

Quando vi o seu filme surgiu-me fazer a pergunta: quem somos ‘nós’? Entre o homem e a criança que observam os animais selvagens e a sequência final em que todos partem para a caçada em fato de rigor. Depois desse longo arco de observação será que poderemos obter uma resposta a essa pergunta: quem somos nós, verdadeiramente?

Acho que é uma resposta que não está fechada. O ‘nós’ do filme e o ‘nós’ meu é algo que tem a sua própria fronteira, muito inclusiva. É um ´nós´ que é também um movimento. Ou seja, o ‘nós’ de há 30 anos não é o de hoje, nem o que será amanhã. É uma reposta que terá de confirmar como se fará uma comunidade de seres muito dissemelhantes, socialmente, etnicamente, geograficamente. O filme interessa-se pela sociedade francesa de hoje e a todos os problemas identitários que se vivem de uma forma muito forte e violenta. É uma forma de observar essa sociedade dizendo que essa dissemelhança não é necessariamente a fonte do problema. Até porque há pessoas que estão no ‘nós’ e não querem estar. Acho que todas as sociedades contemporâneas são atravessadas por uma espécie de crioulização e de uma retoma da noção do que pensam sobre elas mesas.

Nous

No fundo, um processo.

Sim, um processo, um movimento. É ao mesmo tempo uma utopia, porque se trata de uma questão. Por isso tenho dificuldade em responder. O filme, ele próprio, é uma questão; como é uma também proposição de utopia; como é algo que está já instalado, mas que não se vê, mas que deveríamos ver. É uma proposta a adicionar outras pessoas nesse ´nós’. Porque ele é bastante aberto.

É algo que evolui.

Exato. É algo que tem vida própria. E que vai continuar a ter a sua vida. É algo que deveremos fazer juntos.

Considera que esta filme teve a sua génese ou era já, ele próprio, também um processo em curso, no sentido do trabalho que tem vindo a desenvolver com o seu cinema?

Sabe, eu cresci num bairro de subúrbio parisiense a norte, em que a esmagadora maioria dos habitantes eram de etnia africana. Os meus pais são senegaleses e chegaram a França há 40 anos. Por isso, eu cresci nesse bairro de trabalhadores emigrantes. Portanto, é um ligar que eu conheço muito bem.

E foi esse também o seu set, se poderemos falar assim.

Exato. Fiz aí toda a minha carreira de cineasta, filmando esse local e essas pessoas com uma necessidade absoluta de dar uma palavra e uma visibilidade a pessoas que não existiam, pura e simplesmente. Que não tinham nenhuma representação, pelo menos no cinema francês. De certa forma, este filme é uma apoteose e o fim de uma obsessão que tive a filmas estas pessoas e estes lugares. Vejo-o como um ciclo que se fecha. Agora posso passar a outras coisas, filmar outras coisas.

Como a ficção. Está a terminar o seu primeiro filme de ficção, correto?

Sim, filmei este verão. Tenho a impressão de que este filme tornou-se numa obsessão desde que sou cineasta.

Um dos propósitos de ‘Nous’ terá sido também o livro de François Masperos e as suas viagens de metro na linha RER. Foi algo que quis incluir no seu filme.

Sim, adorei esse livro que li há 15 anos. Ele teve uma editora e escreveu alguns livros, mas não chegaram verdadeiramente ao seu público. Mas esse livro, editado há 30 anos, em 1989, marcou-me muito. Não era muito conhecido. Quando o descobri, o que me tocou profundamente foi perceber que era sobre pessoas que eu conhecia e com quem cresci. Com a particularidade de não os enformar num discurso sociológico e socio-económico. No fundo, oferecia um retrato destas pessoas, por aquilo que eram, sem um discurso definido, sobre a miséria económica e coisas assim. Ele interessava-se mais em observar as pessoas, sem implicar qualquer discurso. No fundo, propunha uma balada. Ao seguir por essa linha que vai do subúrbio norte ao subúrbio sul e que atravessa, de cada vez, todos os pontos sociais de uma sociedade, mas também de um História. Achei que se tratava de uma ideia magnífica, Não para falar da periferia francesa, mas de um território e de uma comunidade. Sobre pessoas que vivem perto umas das outras e que são diferentes umas das outras. O que poderemos comprovar de um espaço encarando-o dessa forma? Isso deu-me a ideia magnífica de cinema, ou seja, de encarar essa linha de comboio (no fundo qualquer linha) – nesse sentido, confesso que me senti atraída pelo filme de Robert Kramer Route One/U.S.A., em que se passa a mesma coisa. É uma linha que apenas nos conta o que e ser americano. O Johan van der Keuken é a mesma coisa. Ao filmar Amesterdão, o que nos conta? Quer dizer, o contemporâneo da sociedade dos Países Baixos. Por um lado, parecia-me uma ideia muito bela de mostrar a necessidade de compreender o que faz um país. Vá lá, utilizo esta linha como um símbolo, como uma metáfora para contar qualquer coisa sobre a sociedade francesa de hoje.

Em todo o caso, existe algo que é apenas seu, que lhe pertence. Pode ser uma história um pouco comum. Gosto imenso dos pedaços de home movies que são os vossos, da vossa família. Era essa também um ponto de partida, esses filmes?

Obrigado. Eu sabia que o meu filme não se aguentaria se eu não estivesse inscrita no seu interior. Seria uma sucessão de retratos que seriam o contrário do que queria fazer, ou seja, um retrato sociológico. Ou seja, o trabalhador emigrado. Filmo a minha irmã que é empregada de limpeza, filmo classe média intelectual francesa, filmo a partida de caça. Se eu não estivesse lá também, o filme arriscava-se a tornar-se uma espécie de painel sociológico de pessoas muito diversas. A intenção de me mostrar no filme tornou-se mais uma reflexão sobre o cinema, sobre a necessidade que tive de fazer cinema, sobre a potência do próprio cinema. Nesse sentido, o cinema é uma forma de inscrever traços de uma realidade que desaparece.

É a memória.

Sim, a memória, mas também a memória num lugar de pessoas da minha família. Nesse sentido, uma história política. A minha história é uma história francesa e inscrever a minha história nessa história global confere ao filme uma dimensão de dizer que todas as memórias contam. Seja a memória de um rei morto há 150 anos, de quem continuamos a celebrar a memória todos os anos. Os traços raros que tenho do meu pai são também importantes, não só para mim, mas para uma sociedade que tem de conjugar todas as histórias de memórias que a compõem. Além da história dos reis, e história da emigração é algo que a compõe. Essa foi a forma de me colocar ao nível de toda a gente. Mas também de dizer que a memória da emigração faz parte integrante da memória francesa.

Nous

Tal como as contradições contidas naquele vagão de comboio isolado no centro da praça. O vagão que nos remete a Auschwitz.

Claro, também faz parte da História francesa. O campo de concentração de Dancy, o memorial de Dancy, está sobre essa mesma linha de RER. Hoje são famílias de emigrantes recentes que vivem onde estavam os judeus antes de serem enviados a Auschwitz. Essa é também uma história que a França não quer ver. O filme tanta colecionar todas essas histórias, todas essas memórias, conferindo-lhes uma nova visibilidade que tínhamos esquecido.

Regressando aos pequenos filmes de família, pergunto se terá sido também aí, com os filmes de família, como uma semente para o que virá em breve.

Exatamente. Acho que eu faço cinema em nome dessas imagens que faltam. Da história do meu passado, que desapareceram completamente. Acho que guardar parte de nos é já ter consciência do nosso valor. E quando vimos de uma família como a minha creio que somos tentados a interiorizar que a nossa história não tem valor. A necessidade de se filmar, de dar uma representação de si próprio, é até algo bastante burguês. É algo que não é natural. O desespero que tive de ter tão poucos traços do que eu vivi – e de que resta tão pouco – foi esse o meu motor para me tornar cineasta e de oferecer às pessoas que podem desaparecer, como desapareceram os meus pais, a oportunidade de fazer um traço e de fazer memória. Isso é uma obsessão no coração do filme, algo que não cheguei a teorizar antes de ser confrontada com a relação que tem com o filme, mas que é o meu motor de cineasta. Decidi filmar essas pessoas em nome da tragédia de ver desaparecer a minha própria infância, que só existe na minha memória.

Nesse percurso, será que existe uma cineasta ou um cineasta que tenha contribuído com esse DNA fílmico que vemos agora? No fundo, a sua influência.

Sim, há muitos. Mas acho que de uma forma mais direta, o Van der Keuken e o Chris Marker foram aqueles que mais me influenciaram e me deram a maior clareza. No fundo, também os tutores do Pedro Costa. Ele tentou sublimar as pessoas que são muito pouco observadas. É precisamente dai que vem a minha família do cinema. Do Wiseman.

No fundo, da realidade.

Sim. No fundo o que eu faço é o cinema do real. E de que forma permitiu colocar a câmara e contar histórias de pessoas que não faziam parte do discurso e da representação oficial.

Será que essa Histoire d’une Femme, o seu próximo filme, será que vem também daí?

É algo que vem de uma experiência muito diferente. Algo que vem de um processo, da história de uma mulher senegalesa que mata a sua filha de 15 meses deixando-a numa praia do norte, oferecendo-a ao mar. É um filme muito diferente, que fala da perturbação da maternidade, sobre o que é ser mãe e sobre todos os tabus e ambivalências que temos quando damos a vida a alguém. Nesse sentido, é um filme muito diferente de tudo o que fiz até agora.

Será que o poderemos ver, em breve num festival?

Acabei agora mesmo a rodagem, estou ainda em fase de edição.

Quem sabe, talvez de novo em Berlim.

Quem sabe, talvez. Adorei o festival de Berlim (mesmo online). Gostei imenso de como o filme foi recebido. Dos dois prémios que recebeu. Para mim, foi uma consagração extraordinária. Para mim, um dos festivais mais importantes. Fiquei muito feliz.

Paulo Portugal
Paulo Portugal
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.
RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Advertisment -
Google search engine

Most Popular

Recent Comments