Outubro 27, 2021

Berlinale: Alice Diop deixa-nos com a pergunta: mas quem somos “Nós”?

Nous, Alice Diop

No início de Nous/Nós (filme exibido na secção Encontros) a documentarista feminista francesa Alice Diop mostra-nos imagens de um grupo de pessoas que observam à distância animais selvagens no seu meio. À sua maneira, Alice Diop usa a sua câmara com a mesma intenção, ou seja, interrogar, observar. Sobretudo quando se trata de contrastes tão intensos como entre os franceses, vindos de várias proveniências coloniais, e aqueles que ostentam o pedigree de uma longa história.

Apesar de ainda muito jovem, esta filha de pais senegaleses de 43 anos, dispõe já de uma filmografia madura e mesmo um notável activismo social. Ela que ao receber, em 2017, o César para a Melhor Curta Metragem, dedicaria o prémio às vítimas da violência policial.

O caminho deste documentário não é muito diferente, já que traça seu apelo do homem comum documentado ao longo do percurso do metro RER, atravessando Paris de norte a sul. A inspiração principal viria do livro do escritor François Maspero, relatando um mês de viagens suburbanas em Les passagers du Roissy Express (1990), e que acaba completado pelo depoimento de Pierre Bergounioux, um autor prolífico (embora não publicado), particularmente interessado em detalhar a vida quotidiana nas regiões mais desfavorecidas de França.

Isso talvez justifique a paciência e o tempo que Alice Diop dedica às histórias que quer contar. Como a do mecânico de automóveis maliano, Ismael, que vive na sua carrinha, e que escutamos a falar ao telemóvel, carinhosamente com a mãe para o Mali, enquanto se mantém debruçado no capot a arranjar o motor de um carro.

Alice assume o seu gesto de cinema atrás da câmara, tal como vimos também Susana Nobre fazer, em O Taxi do Jack (a única longa metragem portuguesa no festival, neste caso na secção Fórum, também aqui comentada). Talvez para sublinhar essa proximidade com o objecto filmado. Ela que filma compulsivamente as gentes dos bairros periféricos parisienses há mais de 15 anos. Inevitavelmente inspirada pelas imagens familiares de uma câmara de vídeo antiga da irmã mais velha em que recupera imagens domésticas dos pais, emigrantes do Senegal, antes de falecerem. No fundo, a razão de ela própria fazer cinema.

O seu filme passa ainda pelo trauma do museu de Drancy, a nordeste de Paris, onde dezenas de milhares de pessoas foram deportadas para Auschwitz, deixando apenas como monumento simbólico um vagão de comboio idêntico ao usado para transporte de prisioneiros. Acabará depois com os observadores de animais do início, agora vestidos a rigor para uma partida de caça, confirmando assim o lado antropológico ao relevo social. Talvez para deixar no ar a pergunta: mas quem somos “nós”?

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