Dezembro 4, 2020

Les Misérables: A panela de pressão urbana está prestes a rebentar

Há no cinema de Ladj Ly um sério sinal de aviso à navegação. E não é de hoje. Revê agora e aumenta a sua curta homónima de 2017, talvez porque se perceba que essa energia urbana contida da malta do bairro não se limita a esse espartilho. A câmara é a arma de arremesso deste promissor realizador nascido do Mali num filme que mostra como as tensões sociais são uma autêntica panela de pressão prestes a rebentar. A Revolução está nas ruas neste policial de rua que capta por dentro as suas próprias sementes de violência.

Percebe-se que o estilo nasceu com O Ódio, de Mathieu Kassovitz, como o próprio Ladj assume, embora num tom que evoluiu tal como a temperatura que foi subindo nos subúrbios parisienses, como no seu bairro Clichy-sous-Bois-Montfermeil, um dos locais onde se desenrola a narrativa de Les Misérables de Victor Hugo. Afinal de contas foi aí que nasceu o seu cinema, nos confrontos com a polícia registados em vídeo.

Depois de se consagrar como um dos eventos no último festival de Cannes, Les Misérables tornou-se também num dos candidatos mais fortes aos prémios César (onde concorre com J’Accuse, com o maior número de nomeações). Não só pela referência a Victor Hugo pela curiosidade de ter escrito o seu clássico naquela região parisiense, mas sobretudo pela tremenda atualidade com que capta os sinais de violência num registo demasiado perto de um realismo social que não renega o documental.

A abertura do filme dá o mote. Ly sai para a rua no dia grande Final (do Mundial) e vai avisando que o povo é o seu ambiente. A câmara é inquieta e faz a ponte entre os dispositivos particulares e o pulsar do ambiente das ruas. Arriscamos a afirmar que Ladj Ly é um Spike Lee francês, conhecedor dos códigos e da alma das diferentes comunidades, sejam os africanos, muçulmanos ou ciganos.

Parte do ‘fait divers’ do roubo de um leão bebé a um circo controlado por ciganos para ir mais longe e de uma rusga que corre mal, onde um tido é disparado e um corpo de pré-adolescente tomba. Há ainda um drone que capta tudo, como um olhar de supremo numa terra sem Deus. No meio uma equipa de polícias de ronda, terá de procurar ‘fazer a coisa certa’ no seio desta ‘malta do bairro’, onde um rookie se afirma e tentar acrescentar algo. Isto numa altura em que as barricadas começam a erguer-se num vão de escada para um final arrebatador que ganha o filme. Em Cannes ganhou o Prémio Especial do Júri e recentemente foi um dos candidatos ao Óscar de Melhor Filme Internacional. Nos César se verá.

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