Sexta-feira, Março 29, 2024
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Passámos por Cá: “Sobre o realismo prático da iniciativa liberal”

Ken Loach não pode deixar de fazer cinema e cumprir a promessa feita há três anos depois de ganhar a Palma de Ouro por Eu, Daniel Blake. Aos 82 anos continua a fazer um cinema social imprescindível. Talvez porque continua a tocar-nos de uma forma profunda com as histórias do dia-a-dia das classes que precisam de trabalho para viver. Uma vez mais com uma narrativa desenvolvida em parceria com Paul Laverty, Loach viaja até Newscastle para nos focar nos dilemas de uma família profundamente afetada pelas condições de trabalho. Sorry We Missed You/Passámos Por Cá afetou-nos de forma intensa quando o vimos no passado festival de Cannes. Agora chegou a vez de uma partilha mais geral com o público nacional.

Se calhar até conhecemos alguém como Ricky (Kris Hitchen, com o seu primeiro trabalho relevante em cinema), um motorista por conta própria numa empresa de entregas rápidas ou Abby (a não atriz Debbie Honeywood), uma cuidadora informal que vende o carro e passa a andar de transportes públicos para que o marido possa comprar a sua carrinha e fazer os seus turnos de 12-14 horas seis dias por semana, como uma solução credível para resolver os seu problemas financeiros. A equação familiar completa-se um filho a atravessar os dilemas da adolescência e o absentismo escolar e uma menina que procura contribuir como pode para manter coeso o agregado familiar.

Depois do desemprego crónico de Eu, Daniel Blake, Loach atira-se a esta forma moderna de trabalho escravo, e alternativa ao desemprego – há quem lhe chame “uberização do trabalho”. Só que transporta o realismo social, quase documental, próximo de um John Grierson, um dos paladinos do documentarismo no Reino Unido, de certa forma até ‘pai’ da expressão ‘documentário’, usada pela primeira vez na crítica que ele fez ao filme Nanook, o Esquimó, de Ribert Flaherty, de 1927. De certa forma, este magnífico Passámos por Cá (a ironia do título reporta ao panfleto deixado nas caixas do correio quando não foi possível fazer a entrega da encomenda) parece uma variante atualizada do clássico Night Mail, de 1936, um dos títulos mais celebrados de Grierson, precisamente para descrever como era feita a entrega do correio noturno via comboio.

Neste seu percurso do realismo social britânico, agora a braços com a eminência do Brexit. – que o próprio Loach encara na nossa entrevista como “uma distração” – embora com um tom globalizante, Loach torna-se exímio ao abordar de forma frontal questões fraturantes da sociedade, sobretudo quando confere às personagens um profundo humanismo que não as deixa cair num poço sem fundo, mesmo quando estão à beira do desespero. Por vezes, basta um momento de paz bucólica, como sucede quando o pai aceita a ajuda da filha para fazer entregas e tem com ela um momento de paz ao fim do dia. Ou como quando Abby desespera por ter de interromper o dia de folga para assistir uma paciente sozinha que necessita de cuidados de limpeza, mas que depois sente de alguma forma uma recompensa afetiva. É tão bonito presenciar esses momentos quando são traduzidos pelo melhor cinema. Mesmo quando nos mostram este lado dorido da iniciativa liberal.

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