Dezembro 1, 2020

A doce tristeza nos olhos de Félicité

Alain Gomis, o francês de origem senegalesa, continua a trilhar um cinema de procura de uma certa identidade cultural, ao mesmo tempo que explora o certo realismo social das ruas de Kinshasa, onde ao cair da noite tudo se torna um pouco mais suportável, sobretudo depois da entrega aos ritmos e aos vapores etílicos.

Esta sua quarta longa-metragem que passou em concurso no passado festival de Berlim, a segunda depois de Aujourd’hui, em 2012, e que agora estreia entre nós, serve-se do drama pessoal de uma cantora de bar nocturno, para mostrar esse mundo feito de contrastes, mas onde as pessoas não têm outra alternativa a não ser adaptar-se. Felicité (impressionante Véro Tshanda Beya Mputu no seu primeiro trabalho como atriz) é essa intérprete de olhos tristes, que aceita a sua condição sem juízos ou julgamentos. Mesmo quando sofre o duro revés de saber que o filho teve um grave acidente de moto.

Ao aperceber-se que terá de arranjar um milhão de francos locais (aproximadamente 1500€) para a operação do filho, envereda numa luta contra o tempo para o salvar. Félicité aceita então viver para salvar a vida do seu filho. E agora quando canta, a tristeza habitual nos seus olhos adquire uma tonalidade ainda mais dorida. Talvez por isso acabe também por aceitar a ajuda do mulherengo e alcoólico Tabu (Papi Mpaka), não só para ajudar a concertar as avarias crónicas do seu frigorífico, mas também para fazer uma espécie de part time da sua vida.

Neste frenesim de câmara inquieta e stressada que nos fez lembrar Rosetta, dos manos Dardenne, descreve Gomis com dedicação os dilemas de uma grande fatia da sociedade senegalesa, com a particularidade de conseguir imprimir uma certa magia e dimensão quase épica desse povo. É precisamente esse lado documental e antropológico que encanta e nos aproxima destas personagens.

O problema é que a narrativa desta co-produção – entre a França, Senegal, Bélgica, Alemanha e Líbano -, acaba por perder parte do seu fulgor, sobretudo depois do filho sobreviver sair do hospital. É nessa altura que o filme tenta ainda desesperadamente agarrar-se a uma âncora para cumprir os seus 90 minutos de duração, acabando mesmo por repisar a conclusão anunciada no início de que a noite funciona como uma esponja de anestesia que tudo parece curar. Ou como a metáfora do frigorífico permanentemente avariado a oferecer uma explicação para um povo suspenso num limbo.

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