Dezembro 4, 2020

O Nascimento de uma Nação: era para ser mas não foi

Depois de conquistar o ano passado em Sundance o prémio do Público, bem como o Grande Prémio, os dois mais prestigiados galardões, eis que uma nuvem de suspeição acabou por tolher o enorme potencial que esta monumental estreia do produtor, realizador, argumentista e protagonista Nate Parker ao ficcionar a história do escravo Nat Turner (em parceria com Jean McGianni Celestin, cuja herança quase crística o levou à revolta em 1831 contra a barbárie da escravatura americana. Até com a ousadia de usar com bravura o título do épico controverso, de 1915, do David W. Griffith, certamente com a intenção de corrigir os seus elementos racistas e pela forma como celebra a criação do Ku Klux Klan. De resto, em plena euforia o filme fora até adquirido pela Fox Searchlight, igualmente detentora dos direitos de 12 Anos Escravo. Tudo fazia sentido.

Só que em vez de se afirmar como um dos principais candidatos aos Óscares deste ano, e logo com um filme destinado a superar essa ausência afro americana nos Óscares, o percurso de O Nascimento de Uma Nação é abalado pelas acusações a que foram alvo Parker e do seu colega Celestin pela violação de uma jovem em 1999. Apesar de Parker ter sido absolvido, ainda que não Celestin, a morte da jovem por suicídio dois anos mais tarde, acabou por gerar um desconforto que acabou por afogar à nascença as pretensões do filme. A consequência foi o falhanço na estreia americana que mal deu para fazer o break even dos 8,5 milhões de orçamento.

Bem mais complexo que 12 Anos Escravo, assente no destino de um homem livre que é vendido como escravo, O Nascimento de Uma Nação abrange a história mais complexa de um escravo que aprende a ler, acaba por pregar o cristianismo aos outros escravos, mas acaba por lhes incutir também o desejo de revolta que acontece em 1831. É aí que Parker toca uma nota diferente ao colocar também a violência durante esse curtíssimo período em que os negros levaram a barbárie aos brancos. Enfim, quase como uma revisitação da revolta ocorrida em 1991 após a tão publicitada violência sobre Rodney King que gerou uma onda de tumultos em Los Angeles. Independentemente das circunstâncias que ensombram este projecto, é um filme muito relevante e atual. Em particular, numa altura em que a supremacia branca e a intolerância dão sinais de estar bem vivas.

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