Dezembro 4, 2020

A Morte de Luís XIV: Jean Pierre Léaud e o pôr do Sol

 

Classificação: ****

O catalão Albert Serra filma o ocaso do Rei Sol, em mais uma abordagem quase mitológica a personagens históricas. É o Rei que é empurrado numa cadeira nos passeios de Versalhes, mas também aquele que está totalmente dependente. Aqui não há spoiler, trata-se mesmo da morte de Luís XIV. Só que Serra segue este registo com uma respeitosa proximidade de alcova, no interior dos seus aposentos, em grande parte filmados no Palácio de Queluz, a concretizar parte da co-produção portuguesa, da Rosa Filmes de Joaquim Sapinho. Embora com o mesmo cuidado de que pintasse um quadro a óleo.

Ali se trabalha a decadência extrema do Rei Sol, o zénite do Absolutismo, entregue aos cuidados do seu pequeno séquito de médicos, elementos da corte, incapazes de lidar com o inevitável. Na sua dimensão de proximidade, sublinhada pelo enquadramento dos rostos em grandes planos, no fundo quente e púrpura dos aposentos, com um Léaud intenso embora reservado a um minimalismo imperial.

Porventura, a escolha dos derradeiros dias de agonia de Luís XIV, a padecer de doença e gangrena, não será ocasional; como não o será, de resto, a opção para protagonista Jean Pierre Léaud, claramente um ator cuja mitologia vai para além da sua presença. É quase como se o olhar brilhante do puto de Os 400 Golpes nos sugerisse um raccord imaginário para este olhar já baço e sumido.

Há também aqui nesta Morte, naturalmente, uma proximidade com as outras opções de Serra, direcionadas ao estudo de uma personalidade, em momentos que estão perto de uma performance, como relatam as suas anteriores evocações de D. Quixote e Sancho Pança, os Reis Magos, Casanova ou Drácula. Também aqui tudo gira com uma certa liberdade, como o próprio explicou, ontem à noite, na sessão de antestreia na Cinemateca Portuguesa, num espaço captado por três câmaras que deambulam na tentativa de captar algo orgânico nesta suprema decadência.

Em vez da ideia peregrina de filmar essa decadência em tempo real, numa performance encomendada para o museu George Pompidou, em Paris, Serra resgata-nos para o interior do quarto do Sire, esse huis-clos feito de conversas e fait-divers que nos é servido como um quadro em movimento de pintura flamenga. Um cinema de transcendência, em que Léaud nos dá uma enorme performance a ensaiar a morte anunciada e enquadrada pela câmara de Serra. Para a próxima fazemos melhor, diz-se no final. 

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