Novembro 25, 2020

SHIA LABEOUF: O Futuro é dele

Ao seguir este dialogo imaginamos que será difícil não ficar contagiada com a energia que brota deste rapaz de 23 anos, destinado a fazer diferença do seu meio. Tal como nos sucedeu a nós. Com a agravante de escutar a sua linguagem rápida e observar o seu estado de permanente adrenalina. Não é por acaso que o comparam a Tom Cruise, Tom Hanks e outros grandes talentos. Mas apesar dos tenros 23 anos, Shia Labeouf denota um conhecimento cru da sua posição neste negocio. Porque é de um negocio que se trata, diz-nos ele. O filme não podia ser mais a propósito: Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, de Oliver Stone. Sim, é o namorado de Carey Mulligan, por quem se apaixonou durante a rodagem deste filme. Mas nada de perguntas pessoais, para não quebrar o embargo antes assinado…

Incomoda-o que o seu nome seja tantas vezes mal escrito?
Não quero saber. Há muito nomes parecidos. Mas o meu apelido é mal interpretado porque a minha avó era uma lésbica poeta ‘beatnik’ nos anos 50 e andava com o Ginsberg. Isto porque ela não queria ser encarado como ‘gay’. Pois então ninguém leria o que escrevia. Ela andava com ela, mas a família dela não gostava nada. Ela que era descendente dos cajuns de Louisiana, que eram homofóbicos. Por isso decidiu mudar-se para Venice Beach e andar com estes poetas ‘beatniks’ e por isso mudou o seu apelido. É por isso que é um nome tão estranho.

Quando se dispôs a fazer este filme alguém o avisou do temperamento do Oliver Stone?
Eu não tinha medo do temperamento dele, apenas de não estar à altura. O que eu não queria era ser pior do que o (Martin) Sheen (de Wall Street, em 1987). Queria ser melhor do que ele. Tinha medo de olhar o (Josh) Brolin e de sentir que estava a derreter ou de olhar para o (Michael) Douglas e não estar à altura. É que para estes traders o que os salva é a confiança;  eles são hustlers. Vendem água a uma baleia, vendem-lhe a si algo que já tem por um preço que desconhece. Para isso é necessária muita confiança.

Até que ponto o seu conhecimento sobre Wall Street lhe deu essa confiança que necessitava?
Eu era a pessoa com mais conhecimento no set de rodagem. Sem qualquer dúvida.

Mesmo mais do que o Josh, pois também é um jogador da bolsa com conhecimento do mercado?
Junto dele senti-me como pertencente a outra classe. Mas quem sou eu? Sou um puto que vem dos Transformers e ele é o Josh Brolin. E aquele ali é o Michael Douglas! Por isso mesmo não sentia esse estatuto. Por isso teria de ser mais astuto e fazer com que viessem ter comigo a pedir conselhos. E chegámos ao ponto e que até os experts da equipa vinham ter comigo. Eu já estava preparado fazer o exame final para ser trader. Já me ofereciam cargos. Muitos dos homens que estavam na profissão era por terem visto Wall Street.

O que foi que mais o fascinou nesse meio?

Eu estava apenas a tentar sobreviver. A única forma de entrar no filme era preparar-me dessa maneira.

Chegou a pensar que poderia fazer a diferença, mudar alguma coisa?
Wall Street foi criada para financiar guerras. Nós tivemos uma guerra civil, entre o Norte e o Sul. E estas acções eram a forma de financiamento. Até porque o Sul apostava largamente no trabalho de escravos. Era assim que ganhavam dinheiro. Esta foi a ideia de criar capital. Na sua origem, o capitalismo é muito justo, pois cria trabalho e garante que as pessoas tenham a possibilidade de possuir bens e propriedades ou até conseguir investimento para iniciar um negócio. É claro que existe sempre os extremos. Demasiado socialismo é mau, bem como demasiado capitalismo é mau. Tudo o que é demais é mau.

Dinheiro a mais é mau?
Sim, dinheiro a mais é mau. Conheci muitas pessoas que viviam de números. Não se pode fazer isso.


Como foi trabalhar com a Carey Mulligan?

Ela é a actriz mais talentosa com quem já trabalhei…

O Oliver Stone comparou-o a um Tom Cruise jovem. Concorda?
Tenho um enorme respeito pelo Tom Cruise, mas não me revejo nele. É a opinião do Oliver. É bom saber, mas ao mesmo tempo também é um limite. Eu não estou a escavar o passado de ninguém, pois antes do Tom Cruise eu era parecido com o Tom Hanks e antes dele era com o John Cusack. Chega a ter graça. Dava a ideia que tinham de me enquadrar de qualquer forma, pois eu não era ainda um protagonista. Agora que os meus filmes fazem dinheiro sou o Tom Cruise…

Mas que estrelas de cinema admirava quando era adolescente?
Eu conheci o Jon Voight quando tinha 14 anos e ele apresentou-me à profissão. Ele é um actor incrível. Um dos melhores. Há muitos, mas o Dustin Hoffman é o meu preferido. Ponto final.

O que sentia quando apostava largo na bolsa?
Era como o casino. Embora a bolsa não seja apenas um casino. Há muitas apostas educadas e científicas.

Consegue sentir essa adrenalina quando está a trabalhar como um actor? Pergunto isto porque percebe-se que o Shia vive de energia pura…
Mas eu também exorcizo o os demónios. Conseguir gritar em plenos pulmões no meio de 50 homens aos berros e fazer sinais é algo muito terapêutico.

É o que faz antes de uma cena?
Nem sempre. Depende dos filmes. Nos Transformers é quase como commedia dell’arte, pois não falamos com ninguém. É pantomima. Depois saltamos para um filme como este, que é num estilo completamente diferente. Mas eu não sou nada, estou só a aprender. Tenho apenas 23 anos.

Mesmo assim, muitas pessoas não têm essa carreira numa vida inteira. Como se sente ao ter este sucesso com essa idade? Transformers, Indiana Jones, Wall Street… Não é para todos, não é?
Temos de pensar em termos racionais. É movie buisness. Eu fiz um filme que foi o Paranóia e fiquei ligado. Ninguém esperava. O Steven (Spielberg) viu o filme e viu em mim algo que procurava. Foi uma decisão comercial. Ele não queria necessariamente o melhor actor, mas queria atingir um determinado objectivo. Foi também através de Transformers que conheci o Oliver. Ele precisava de financiamento para o filme dele e eu apareci como um objectivo. Eu sabia disso. Eu estou a par disso. Poderia ter escolhido o Emile Hirsch e ter o mesmo resultado. Ou o Paul Dano. Há muito actores da minha geração que são tão bons como eu. E é inspirador ter na geração que nos precedeu pessoas como o Ryan Gossling ou o Ben Foster, que puxaram o envelope e foram melhores que a geração anterior. Isso é inspirador porque nos faz trazer para o trabalho o melhor de nós próprios, pois haverá alguém atrás de nós que poderá fazer o mesmo. Ou melhor.

É interessante como alguém da sua idade consegue avaliar a sua posição no mercado com tanta clareza…

Claro. Veja bem, eu tive a sorte de que o Steven me tenha assegurado cinco anos de trabalho (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal). E eu sabia que não era por ser um grande actor, mas por conseguir a atenção do espectador. O que ele fez foi alongar essa ideia com fins comerciais. Ele é bom a fazer isso. Tal como o Oliver, embora tenham um ponto de vista diferente. Mas são ambos génios. Para mim, foi uma sorte pois vinha de um período negro na minha vida e precisava de lições que o Steven não conseguiria dar. Eu precisava de alguém com o poder de uma dentada. que me mordesse. O Oliver era alguém que eu estava à espera.

Uma espécie de substituição dele próprio?
Todos nós temos de aprender lições. Eu sou falível. O Oliver vem de famílias de colarinho branco e eu o contrario, mas ele queria tanto ter a minha ascendência quanto eu queria ter a dele. Ele prefere que saibam que tem uma bala no pescoço por ter combatido no Vietname do que saberem que a família dele é muito rica.

Fale-nos lá um pouco do seu período negro…
Eu nunca soube beber como um gentleman. Eu só sabia beber como um louco. Eram as minhas loucas, loucas raízes cajum. O meu pai era alcoólico e o pai dele bebeu até morrer. E o pai dele também. Eu venho de uma família de alcoólicos militares incorrigíveis. Eu e o meu pai fomos a única geração de sobreviventes. Para mim foi uma bênção ter encontrado o Oliver, porque ele também passou pedaços complicados. Ao Steven eu não podia relatar esses maus momentos ou ao meu pai, pois não o respeito. Adoro-o, mas não é o meu pai. É mais um amigo. Eu tenho relações amorosas, apaixonantes, apaixonantes, mesmo, com os meus realizadores. Eu morreria por todos eles. O Oliver Stone é uma figura paternal para mim, da mesma forma que o meu pai nunca conseguiria ser. Tenho um respeito pelo Steve e pelo Oliver que nunca tive pelo meu pai.

Foi o Oliver que o convidou ou o Shia que se propôs?
Ele escreveu-me uma carta, convidou-me ao seu escritório e depois desfez-me completamente. Brutalizou-me. E chegou mesmo a dizer-me: “não te preocupes, pois o Tom Cruise não era um actor antes de me conhecer”… Isto é duro. É duro, mas eu precisava se ser assim brutalizado. Ele é muito esperto.

Acha que depois dessa espécie de exorcismo procura vais procurar papéis que possam prolongar esse exercício?
Não se trata de um plano. A minha sensibilidade esta a mudar. Eu faço os filmes que gosto de ver e com as pessoas que gosto de trabalhar. Tudo pode mudar. Vou agora regressar ao trabalho e é aí que estou concentrado.

É o novo Transformers?
Sim, começo a semana que vem. É o melhor guião até agora. E atenção ninguém está a pensar filmes maus. É um filme muito difícil de fazer em Hollywood. Um dos mais difíceis.

 

Paulo Portugal, em Cannes
Publicado em Máxima online

 

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