Outubro 27, 2020

Indie: Competição Nacional Curtas 3 – o nascimento do autor e a morte do espetador

Corte, de Afonso e Bernardo Rapazote
Continuamos a nossa viagem com os autores portugueses que apresentam no IndieLisboa a suas curtas-metragens na competição nacional. No bloco Curtas 3 os nossos guias são Luís Soares, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Lúcia Pires, Afonso e Bernardo Rapazote. Apresentaram trabalhos que convidam o espetador fazer parte do cinema. 
Suspensão
Alguns anos atrás, Luís Soares iniciou um projeto de animação. Foi antes da pandemia e do isolamento. No entanto, o resultado final ficou em sintonia com aquilo que hoje se impôs como o “novo normal”. Suspensão é um pensamento existencialista apresentado de uma forma original. Assusta o ciclo da vida que corre sem emoções, sem sensações, sem expetativas. Somos apenas esquemas, transparentes, vazios. Somos moscas apanhadas e presas dentro de um punho. Alguém nos desenhou com um lápis, e este alguém tem poder para nos apagar. Uma presença auspiciosa no Indie do realizador que teve o seu aniversário no dia da apresentação.
A Dança do Cipreste
No mesmo dia nasceu Jaime, filho de Mariana Caló e Francisco Queimadela cujo filme A Dança do Cipreste também está na competição. É um trabalho experimental que poderia até ser considerado como uma videoperformance exibida em loop. É o nascimento de um autor inspirado pela natureza e que dá luz às suas obras. O casal mostra o mundo sensorial onde algas onde algas até se podem transformar numa Medusa Górgona. É a vida a correr ao lado da morte. É por aqui que o espetador entra ao ser encarado pela personagem que desenha a dança dos mortos e olha abertamente para a câmara, para nós, criando o nosso próprio retrato. O mesmo sucede em Corte, dos irmãos Afonso e Bernardo Rapazote, quando o medico real observa o corpo do rei morto. A sala é esse rei, o médico olha para nós, espetadores, faz a sua conclusão sobre a nossa morte. O filme foi selecionado este ano pelo festival de Cannes e entrou na competição Cinéfondacion. Corte é uma história de uma família real que está numa fase de estagnação. É um mundo masculino sem qualquer presença feminina (a rainha faleceu 17 anos antes quando deu à luz gêmeos). A estagnação muda para algo novo. O título Corte é um jogo dos significados. É um corte real onde acontece a história. É um corte umbilical que liga os príncipes à infância deles, num momento e que a infância acaba e a vida começa com a perda do pai e do irmão. Por fim, o rei (o espetador) é morto com uma faca de papel, num corte fatal que põe o mecanismo andar.
A Rainha
Se em Corte sentíamos a ausência da rainha, ela surge-nos em A Rainha. Lúcia Pires num jogo de géneros poderá enganar o espetador. Lúcia aborda a crença lusitana no divino, e diverte-se com isso; mostra-nos esse hábito como uma tradição. Só que Coisas divinais não pedem provas e mudam a atitude das aldeias, cidades, regiões. Será que a parte da história de Portugal é uma ficção, baseada na fé sega e exaltada? São dúvidas que ficam para o espetador decifrar no final do conjunto Curtas 3 (que será ainda exibido a 4 de setembro).

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