Setembro 18, 2020

Zé Pedro Rock’n’Roll: O retrato de uma época e de um verdadeiro punk lusitano

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Depois do DocLisboa, Zé Pedro Rock’n’Roll regressa à procura dos fãs do líder dos Xutos & Pontapés. 

Zé Pedro Rock’n’Roll é isso mesmo, é um filme rock’n’roll, mas não o seria sem a força, o magnetismo e o carisma do Zé Pedro dos Xutos. No entanto, pelo momento particular em que surge este filme de Diogo Varela Silva acaba por assumir-se como documento de toda uma geração. No fundo, um movimento que ele próprio sintetiza. Sim, it’s only rock’n’roll (but i like it).

O nome José Pedro Amaro dos Santos Reis parece remeter para um certo anonimato, algo colmatado por uma  redução mais simples –  Zé Pedro. E seria de resto a sua simplicidade e proximidade com os fãs e as bandas do seu tempo (e não só) que acentuaria um profundo estatuto de rocker performer, algo inédito no nosso país. Não são pelo seu virtuosismo e presença, mas talvez mais até pelo seu lado afável e muito próximo. Disso falam todos os que o conheceram mais de perto neste trabalho de constante procura musical em particular a mais recente parceria DJ com Henrique Amaro, da Antena 3, e a autoria do programa ‘Zé Pedro Rock’n’Roll’, na Radar, com Pedro Ramos. Ou seja, sempre a dar-nos música, aquilo que ele sempre soube fazer como ninguém.

Zé Pedro foi marcado pelas experiências. Terá contado certamente aquela, ao largo de Hong Kong, a admirar as luzes da cidade a bordo do paquete em que acompanhava o pai durante a sua estada em Timor, decorriam ainda os anos 60. Ou seguramente, o acordar para a revolução nas ruas no 25 de Abril, na efeverscência aos 18 anos, descobrindo ao mesmo tempo o movimento de massas (bem como a descoberta de outras passas). Pelo meio, sempre a música. Em particular o nascimento frenético do punk, com a ida ao festival de Mont de Marsan, em França, precisamente em 1977, que afinaria a agulha da banda pelo rumo certo.

Apesar de tudo, Zé Pedro nunca ignorou o seu lado de fã. E durante uma conferência em que trocou a guitarra por um microfone transmitiu à audiência o valor pela admiração dos outros, da atitude de ser fã. No seu caso, o próprio fascínio que sempre nutriu pelo estilo de Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, mostrando até “orgulho por me chamarem o Keith Richards português”. Ele que afirmara bem cedo na sua carreira que haveria de fazer a primeira parte da sua banda preferida, algo que se viria a concretizar uns valentes anos mais tarde.

É talvez esse magnetismo (e essa teimosa) que nos permite ultrapassar a mera recordação biográfica do guitarrista dos Xutos & Pontapés e abraçar um lado mais mitológico. Algo que já era realidade, mesmo antes de nos deixar a 30 de novembro de 2017. Não só pelo legado que é imenso, mas também pela visão, e a energia de seguir em frente, e sobretudo a dedicação total como abraçava a paixão pela música. Mesmo sem preocupações de inovação no género, Diogo Varela Silva, cineasta com provas dadas no registo musical, nomeadamente no fado, mostra-se coerente neste registo evocativo, trabalhando com materiais de arquivo, de que a entrevista com Ana Sousa Dias, na RTP, se assume como peça de relevo, a par dos inevitáveis depoimentos de talking heads, de colegas e personalidades, na ótica de servir o artista e aquilo que foi o ar do seu tempo.

Para o final, o insólito e raro momento-cinema de Zé Pedro (sim, não era grande coisa como ator) num excerto da curta Um Dia Destes, de Edgar Pêra, invariavelmente no papel de músico, acompanhado por Anamar e pelo futuro cineasta Manuel Mozos. Sim, há muita coisa para recordar em Zé Pedro Rock’n’Roll.

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