Agosto 14, 2020

Anette Dujisin, do Filmin: “Fomos dos poucos que crescemos durante a pandemia”

Europa Film Fest gratuito durante uma semana no Filmin

A plataforma Filmin, dirigida por Anette Dujisin, tem sido responsável pela oferta do melhor cinema distribuído no nosso país em modo streaming. As coisas estão a correr bem. Além da programação ser uma refrescante alternativa à oferta maciça nas plataformas internacionais, a atual fase de confinamento fez triplicar o número de assinantes. Um outro motivo para ficarmos ligados prende-se com a iniciativa Europe Film Fest, uma mostra gratuita de filmes europeus destinada a celebrar os 70 anos do início do trajeto que conduziu à União Europeia.

Em tempos de pandemia e de cinemas fechados, a opção de recurso ao cinema em casa tornou-se a lei. Mas entre tudo aquilo que nos oferece ecrã digital, vale a pena distinguir o trigo do joio, neste caso, o acesso a inúmeras estreias recentes em sala, uma solução ótima para quem vive longe dos grandes centros, bem como uma complementaridade digital para as diversas estreias em cinema. Uma das novidades é o ciclo de filmes Europe Film Fest. “A iniciativa surgiu através de uma proposta da Europa Criativa, da parte do Media Desk de Português, em conjunto com a delegação portuguesa do Parlamento Europeu e a Comissão Europeia. Procuravam um interlocutor com a intenção de fazer algo interessante com o cinema europeu”, refere Anette ao Insider numa conversa via Skype. É verdade que se tratou de um processo complexo, mas que chegou a bom termo.

Deus Existe e o Seu Nome é Petrunyia

“Há várias coisas que se juntaram. Desde logo a celebração do Dia da Europa, com vários eventos durante o mês de maio”, refere. Entre os oito escolhidos, temos Deus Existe, o Seu Nome é Petruynia, da cineasta da Macedónia Teona Strugar Mitevska, o mais recente vencedor do Prémio LUX, atribuído pelo Parlamento Europeu, além de conquistar o prémio ecuménico no festival de Berlim do ano passado. Aí se relata a história de uma jovem desempregada macedónia que, em desespero, procura na religião uma forma de superar a sua crise. Assim se combina a ideia falar da diversidade do cinema europeu, através de uma mostra de filmes premiados dos mais diversos certames e que evidenciem essa vertente mais ampla da Europa.

Para além temos ainda Toni Erdmann, da germânica Maren Ade, concorrente ao Óscar de Filme Estrangeiro, em 2016, e o grande vencedor dos European Film Awards; ainda Mediterrânea, do italiano Jonas Carpignano, divulgado no festival de Cannes, em 2015, bem como Ida, do polaco Pavel Pawlikowski, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, edição de 2013, além de diversos outros troféus. Fazem ainda parte deste ciclo, a produção italiana O Fantasma de Sicília, de Antonio Piazza e Grassadonia, o filme belga O Ciclo Interrompido, de Felix van Groeningen, o turco Mustang, de Deniz Gamze Ergüven, além da representação portuguesa com Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira.

Cartas da Guerra

“Sim, quisemos escolher também um filme português, igualmente financiado pelo programa Europa criativa”, sublinha Anette. “Lá está, é um filme português, mas fala de África, do colonialismo, ou seja, alarga esse âmbito das fronteiras europeias. O mesmo se passa com o Mediterrnânea, ao abordar a crise dos refugiados e a violência durante todo esse percurso. O Fantasma de Sicília também é muito sensível na abordagem da questão das crianças e da mafia, a criminalidade. Ida, ganhou diversos Deus Existe e o seu Nome é Pegtruynia também é importante no foco relevante sobre os direitos da mulheres”.

Proximidade com distribuidoras portuguesas e produtores locais

Anette Dujisin está igualmente ciente que parte do sucesso do Filmin pode ser atribuído à proximidade mantida com as distribuidoras portuguesas e os produtores locais. Sublinhando mesmo a ideia de se afirmarem como “um complemento às salas de cinema. Do nosso lado tivemos a possibilidade de flexibilizar e adaptar os filmes ao nosso catálogo. Até porque nós estamos ligados ao cinema em sala, temos festivais e até distribuição em sala”, algo que realiza juntamente com o companheiro Stefano Savio, diretor da Festa do Cinema Italiano e presidente da associação Sorpaso. “Até porque quanto todo o cinema parou conseguimos em muito pouco tempo colocar diversos filmes na nossa plataforma. Foi um período em que tudo se alterou e foi repensado”, sublinha.

É claro que durante todo este período de quarentena, o recurso às plataformas de streaming tem sido para muitos o recurso a uma proximidade regular com o cinema de qualidade que se vai fazendo. Sobretudo na altura em que as salas de cinema tiveram de fechar as portas, complicando muito a programação e o percurso de certos filmes. Apesar de tudo, Anette confirma que “fomos dos poucos que crescemos durante a pandemia”.

Mosquito

Um dos casos foi Quarto 212, do cineasta francês Christophe Honoré, cuja estreia ficou cortada e o único recurso foi a divulgação pela Filmin, o que motivou, como nos confirmou Anette, com “o envio de um vídeo muito simpático”. Um outro caso foi Mosquito, de João Nuno Pinto, que após uma semana de estreia teve igualmente de ficar limitado ao visionamento em casa. “O realizador ficou muito triste”, confessou-nos a gerente do FilmIN. “Sobretudo porque o filme acabou por ter bastante imprensa positiva”, para além de continuar a ser um dos filmes mais visto. Tal como sucede com a série A Herdade, na versão mais longa do filme de Tiago Guedes, cuja estreia fora no anterior festival de Veneza. “Apesar das séries não serem o nosso foco, não quisemos deixar de dar esse destaque a A Herdade, que é também um filme, embora aqui numa versão de mais de quatro horas. Também correu muito bem. E é bom perceber como as pessoas consomem também cinema português. Pelo menos, da nossa parte tentamos sempre dar muita atenção ao cinema nacional.”

Numa altura em que a palavra ‘desconfinar’ se começa a ouvir com regularidade, fazemos um balanço, sendo que para Anette Duisin reconhece o papel positivo do Filmin durante o confinamento. “Acho que demos uma boa resposta aos distribuidores em termos de pandemia. Acho que estão contentes com a rapidez e a nossa flexibilidade e com a maneira como rapidamente conseguimos disponibilizar as coisas. Mesmo assim, mantém a confiança. “Acho que tudo vai correr bem, mesmo depois da reabertura das salas. Vai continuar a haver uma boa dinâmica.”

 

Novidades e lançamentos Filmin

Há muito mais novidades de cinema para além da Europa Film Fest, como nos confirmou Anette. Desde logo com a estreia próxima de Ema, de Pablo Larraín, que se vem juntar à sua filmografia já presente na plataforma. Também a coleção Palmas de Ouro de Cannes, justamente numa altura em que deveria estar a decorrer a 73ª edição. Estão igualmente já disponíveis vários filmes de Luis Buñuel, ficando agendada para depois a segunda metade do ciclo recentemente exibido em sala pela Leopardo Filmes. Em breve também será de esperar um foco sobre o cineasta Bruno de Almeida. Para além disso serão ainda disponibilizadas todas as produções do Paulo Branco.

 

Sobre Paulo Portugal 869 artigos
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