Agosto 14, 2020

Visions du Réel mostrou-nos o filme em que Hector Babenco ensaia a sua própria morte

É o barulho da máquina de suporte respiratório que se escuta na abertura de Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer que parou, um documentário incluído na secção Atelier Petra Costa integrado no festival online Visions du Réel, já vários meses depois de ter recebido o prémio do melhor documentário sobre cinema na edição do festival de Veneza, em setembro de 2019, ou seja, a última antes da pandemia.

Por razões óbvias, o ruído desta máquina familiar será até demasiado familiar a todos quantos têm convivido mais de perto com a doença que globalizou o mundo da forma mais insólita. A imagem que a acompanha está desprovida de cor e mostra um tubo de alimentação artificial desfocado. Escuta-se uma voz feminina – é a de Barbara Paz que filma o marido, o cineasta brasileiro Hector Babenco, remetido para uma cama do hospital. “O que você falaria para você… morto?”, é a pergunta. A resposta: “Puta que o pariu. Chegou!”

Não deixa de ser relevante a pergunta (ou mesmo a resposta), já que o cineasta brasileiro (de origem argentina) Hector Babenco sempre conviveu demasiado de perto com o cancro que lhe foi diagnosticado desde que tinha 38 anos, no auge da sua carreira, depois de O Beijo da Mulher Aranha, onde fora nomeado para um Óscar pelo seu trabalho de Realização. Estávamos em 1985, há 35 anos, já depois de ter feito Pixote, a Lei do Mais Fraco, em 1981, o filme que o afirmou internacionalmente. Foi então debaixo dessa sentença, com a abertura plena do mercado internacional, que fez ainda Estranhos na Mesma Cidade/Ironweed, com Jack Nicholson e Meryl Steep, no ano seguinte, aventurando-se depois na Amazónia com A Brincar Nos Campos do Senhor, em 1991.

Babenco deixou-nos em 2016, mas pouco antes ainda sugerir para a câmara: “como nasce um filme?”, sublinhando que aquele era um filme sobre cinema. Num dos planos mais bonitos, Hector deitado na cama do hospital vai dirigindo e ensinando a mulher a usar a objetiva.

“Eu já vivi minha morte, agora só falta fazer um filme sobre ela” compreendendo que esse era o derradeiro filme que faria, o filme em que seria o protagonista da sua própria morte. No entanto, prolonga-se através da narrativa que toma corpo em O Meu Amigo Hindu, em que Willem Dafoe assume o seu reverso numa história precisamente sobre a luta contra o cancro. Um documento sobre a vida e a morte, portanto. Sobre a criatividade como escapatória. Assim se opera o nascimento da ficção inventando uma sensação e desenvolvê-la. A dada altura, Dafoe sem cabelo encontra-se com Babenco (também sem cabelo) numa réplica fiel entre a representação e a vida.

É claro que um filme desta natureza corre sempre o risco de ser piegas, embora neste caso o caminho seja sempre evitado, ficando-se antes no ato de criação, em particular com as imagens belas de Paz. O trabalho e as memórias pois foi isso que o permitiu avançar. Só que agora no filme da morte de Hector Babenco, ele vive.

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