Outubro 19, 2020

Liberté: Somos todos voyeurs no bosque da perversidade de Albert Serra

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No cinema de Albert Serra é frequente a observação de personagens e figuras mitológicas nos derradeiros momentos da sua existência, como que presos à própria decadência física. Parece até ser nessa eminência de extinção que o cinema do realizador catalão afirma toda a sua vitalidade. Em Liberté assiste-se à celebração das derradeiras orgias entendidas como um imenso adeus à libertinagem do século das Luzes. Só que é também nesse estertor que se afirma toda a vitalidade deste cinema de contemplação.

Esse quadro ganha vida num eucaliptal lá para os lados da Amareleja, no Alentejo, reproduzindo um bosque entre a França e a Alemanha, na coprodução coordenada por Joaquim Sapinho. Estamos em pleno século XVIII, próximos do eclodir da Revolução Francesa, em que certos elementos aristocratas se entregam a fantasias carnais noturnas, num derradeiro momento de puro deboche. É ao germânico Duque de Walchen (Helmut Berger) que pedem proteção e partilham fantasias, num registo próximo de Saló de Pasolini ou de O Último Tango em Paris, de Bertolucci, a que não será alheia a entrega e submissão presente no célebre romance História d’O e respetivas adaptações.

Ao espetador pede-se a disponibilidade para espreitar a câmara que observa aqueles que deambulam nesse cruising voyeurista, contemplando as suas presas humanas disponíveis a um apetite e instinto animal. No fundo, assumindo-se como personagens à deriva no verdadeiro sentido Pirandelliano mas que permitem que o cinema nasça e se assuma.

Aquilo que começou por ser uma peça de teatro e depois uma instalação evolui aqui para um ponto de vista sobre um material em construção, no fundo, algo mais orgânico, começando desde logo pela descoberta de lidar com o corpo por parte de um cast maioritariamente não profissional (talvez com a exceção de Berger) observado (e liberto) em longos takes, superando uma fragilidade que acaba filtrada pelo cruzamento das três câmaras que captam a ação em simultâneo. É aí que Serra capta “algo que o olho não consegue ver”, como assegurou à plateia da Cinemateca Portuguesa durante a apresentação de Liberté.

Aliás, Serra assume que é a câmara, e não ele, que organiza esta magia da representação, propondo-se ocupar os espaços vazios. Algo que cozinha com uma “montagem maligna”, usando o recurso digital para misturar imagens com diversos planos. Segundo explicou “a ideia era de subverter uma certa linearidade ou simplicidade”, algo que conseguiu com o recurso à pós-produção. E não será isso o próprio cinema, jogando com os elementos e materiais construindo algo novo e selvagem? No fundo, desenhando uma insólita sofisticação pictórica e sensual, uma espécie de trip (a expressão é de Serra).

É essa a sua lógica sobre este poema sobre a noite numa perspetiva destorcida, tal como o olhar do espetador que se distorce e se corrompe, mas também liberta. Seja diante de uma ‘chuva dourada’ um ‘banho de leite’ ou algumas outras cenas ainda mais explícitas. Talvez seja mesmo essa possibilidade de despojamento do espetador, a de assumir uma faceta velada na sala escura conferindo a Liberté um lado mais inebriante, mesmo quando é votado a alguma impotência e mesmo frustração. Seguramente, uma vibração bem mais palpitante que o habitual exibicionismo que corre o risco de se converter em puritanismo. Depois da exploração dos mitos de História da Minha Morte (2013) e de A Morte de Luís XIV (2018), Serra ensaia aqui um sublime poema sobre a noite em que se assiste à libertação total da alma. E da carne.

 

 

 

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