Março 31, 2020

Berlinale: Nos passos perdidos da evocação histórica

Volevo Nascondermi/Hidden Away

Há qualquer coisa com os filmes de abertura de festivais. Os programadores costumam ser useiros e vezeiros em selecionar produtos anestesiados, frequentemente biográficos ou com premissas por demais evidentes, embora adornadas de uma chamativa nota de glamour, neste caso servida pela presença de Sigourney Weaver e e pela starlet Margaret Qualley. My Salinger Year, do canadiano Philippe Falardeau, não foge à regra, com a sua narrativa formatada e de desiderato previsível.

Infelizmente, o mesmo sucede com o pouco tolerável Minamata, apresentado na secção Berlinale Special, um fite de valiosa consciência ambiental embora o valor de denúncia dos milhares de casos de contaminação da água que provocaram severas doenças neurológicas na baía de Minamata acabe desbaratado pela pobreza da adaptação de Andrew Levitas e do papel frouxo de Johnny Depp a evocar o trabalho seminal do alcoólico fotojornalista W. Eugene Smith que acabou celebrizado na revista Life, forçando a companhia a aceder à indemnização daqueles que contaminou.

Infelizmente, o desencanto afetou também a Seleção Oficial competitiva, com o biopic Volevo Nascondermi (Hidden Away), de Giorgio Diritti, sobre o pintor naif expressionista Antonio Ligabue (1899-1956) devolvido com uma entrega esforçada de Elio Germano, com alguns momentos de verdadeira poesia interpretativa, na linha de Daniel Day Lewis, convincente na forma como dá espessura plástica à cultura do vale do rio Po. Ainda assim, lamentavelmente, o filme nunca consegue verdadeiramente ascender a um produto que se separe da encomenda artística com o selo da RAI.

Começou morna esta Berlinale.

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