Julho 15, 2020

Bacurau: Sonia Braga e Udo Kier fervem na distopia explosiva de Kléber Mendonça Filho

Apesar de Kléber Mendonça Filho operar uma incursão no cinema de género no seu novo filme, em parceria com Juliano Dornelles, percebe-se que existe uma ligação íntima com os problemas políticos e sociais evidenciados em Aquarius. O cenário desvia-se agora dos centros urbanos para o interior, mais concretamente no interior de Pernanbuco, que acaba por ser varrida do mapa ficando à mercê do deleite belicista de mercenários americanos contratados para acabar limpar a região. Mas é aí que esta dupla de realizadores invoca o passado histórico da região para dar corpo a este filme ousado e arrebatador, sem problemas em fundir a ação com a ficção científica, o western com o terror, talvez numa inesperada combinação entre o futuro distópico de Mad Max e Jogos de Poder. Aliás, foi o próprio Kléber que referiu ao Insider em Cannes, onde o filme passou em competição, que “em muitos aspetos do dia-a-dia, o Brasil parece uma distopia.”

O guião foi iniciado há uma década, antes ainda de O Som ao Redor, cruzando o exacerbamento político populista, com a mais profunda tradição brasileira, para se centrar nas preocupações da cidadezinha de Bacurau, algures entre o Rio Grande do Norte e Paraíba, nomeadamente na luta pelos problemas mais básicos, como a necessidade de água potável, comida dentro do prazo de validade, vacinas ou rede de internet ou o desprezo por uma cultura de sobras. No fundo, uma narrativa muito ligada a um realismo das pequenas coisas, mas em que essa luta pelas necessidades básicas é colocado no mesmo plano da liberdade de orientação sexual

Sonia Braga é parte dessa ponte no cinema de Kléber (que faz parte do júri oficial do festival de Berlim), para além de Barbara Colen (na versão mais jovem de Braga em Aquarius), a que se junta Silverio Pereira (o cangaceiro Lunga), para além da incursão de Udo Kier à frente dessa equipe de operacionais à procura de emoções fortes assegura o polo oposto, como que apenas a sublimhar um certo delírio em que terá entrado a política brasileira. No fundo, algo que acaba por ser igualmente trabalhado por Gabriel Mascaro no tremendo Divino Amor, recentemente estreado entre nós.

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