Fevereiro 21, 2020
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A Vida Invisível: os segredos de um melodrama tropical que o tempo não apagou

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É o Brasil em revista que se olha em A Vida Invisível, como uma recordação em surdina sobre algo vivido de forma bem mais natural, talvez porque aceite pelo estabelecido numa sociedade tradicionalmente dominada pela figura masculina. Mesmo sem evitar um estilo de narrativa mais mainstream, porventura condicionado até pelo compromisso da adaptação literária do romance de estreia de Martha Batalha, Karim Ainouz não deixa de trabalhar os pontos mais fortes de contacto na história de duas irmãs cariocas separadas, em meados dos anos 50, por uma trama sentenciada pela inclemência dos brandos costumes lusitanos que acabaram por contagiar toda uma sociedade. No cartaz de apresentação do filme indicado para o Óscar internacional, o título é antecipado da expressão ‘melodrama tropical’, numa clara aproximação de um género mais universal a algo tão específico como a identidade brasileira.

Nesta vida de duplas narrativas percebe-se bem o que fica pelo meio, o que separa, embora algo que Karim entretece com um cinema que não aceita render-se à telenovela. Tão ajustado António Fonseca na representação desse pater famílias emigrado, alinhavado pela submissa Flávia Gusmão na representação feminina funcional. Porque é de uma vida inteira que se trata, contaremos com o feitiço do tempo para identificar aquilo que muda, o que permanece imutável e aquilo que apodrece e morre.

A Vida Invisível poderia ter dado uma novela competente, mas percebe-se que é no cinema que melhor se afirma a sua densidade traduzida por um inteligente jogo de espelhos em que melhor se compreende o valor da intimidade, solidariedade, do ser feminino. O decisivo ‘feitiço’ será dado pela presença breve, mas tremenda, de Fernanda Montenegro, a sublimar toda essa carga e tensão, a dar expressão maior ao tal ‘melodrama tropical’, que poderá ser lido de diversas formas, até com alguma ironia a devida atualidade.

É assim o cinema de Karim Ainouz, ele que se afirmou como uma das vozes mais fortes do potente e diversificado cinema brasileiro e cujo percurso vem marcado por um certo humanismo em saudável equilíbrio entre a ficção, as curtas metragens e o documental. Entre a nossa descoberta de Madame Satã, no festival de Cannes, em 2002, na secção Un Certain Regard, até ao prémio o ano passado, na mesma secção, com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (assim era a versão inicial do título, o mesmo do romance), o filme indicado pelo Brasil para o Óscar internacional, há todo um cinema marcado pelos segredos que o tempo não apagou.

Momentos que fomos acompanhando em diversos momentos. Como em Veneza, em 2009, a propósito do magnífico road movie com o belo título Viajo Porque Preciso, Regresso Porque Te Amo, realizado em parceria com Marcelo Gomes, e depois em Berlim com A Praia do Futuro, numa forma diversa de aflorar o filme em movimento e logo numa história de amor com mais marcas de proximidade com A Vida Invisível. O reencontro em Berlim ocorreria em 2018 com o documental Zentralflughafen TFH, no título original (pois foi rodado em alemão e em Berlim onde reside o cineasta), a propósito do aeroporto inaugurado por Hitler (entretanto encerrado em 2008) e que passou a ser usado como um local de alojamento de refugiados e parque de diversões para os locais. Ou não fosse este também um cinema de encontros contradições.

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