Outubro 21, 2020

Era uma vez… os candidatos aos Óscares, e a sua (in)capacidade para reciclar a História

Eis os nove candidatos ao Óscar de Filme do Ano – e a nossa visão pessoal (com notas!) Na lista de nomeações que ensaia aquilo que é Hollywood, ou seja, a sua capacidade para reciclar a História e criar novas fantasias, ou apenas motivos para irmos ao cinema. Isto é Hollywood!

 

Le Mans ’66: O Duelo **

Uma variante de Faísca McQueen em versão imagem real que convence apenas nos momentos em que pensamos na animação da Pixar. Ou seja, estamos muito longe do Le Mans de 1971, com o Steve McQueen, o tal filme que Carros da Pixar pisca o olho e a personagem Faísca emula o ator. O Duelo mais não faz que esboçar uma história que puxa pela rivalidade italiana e americana – que até teria pés para andar (ou correr) -, mas que se fica pelo registo de fórmula.

 

O Irlandês **

O filme em que Marty Scorsese encerra a sua saga sobre a ‘cosa nostra’ iniciada com Tudo Bons Rapazes (1990) e prolongada em Casino (1995). Ou seja, uma trilogia (e homenagem) de De Niro e Pesci. Só que peca por demasiado tardia. Não só o feitiço do tempo não ajuda no plano dramático (o boneco de De Niro é particularmente penoso), bem como na sua duração crescente. Percebe-se o imenso fresco de uma época, embora irremediavelmente desvirtuada na imposição dos ecrãs pequenos domésticos e na sugestão de ver como episódios de uma série de TV. A verdade é que vimos O Irlandês em sala de cinema, o que não ajudou muito. Há dois anos atrás, Scorsese avisava que “o cinema está morto” sublinhando a sala de cinema como a experiência ideal. A Netflix deu-lhe vida, o cinema está lá, mas não é bem o que gostaríamos de ver.

 

Jojo Rabbit *

Este é o filme que não é da Netfix, mas que deveria ser da Netflix. O problema é quando o neozelandês Taika Waititi (ah, já se percebe, foi o realizador do Thor: Ragnarok, da Marvel!) quer fazer de Wes Anderson embora o seu esboço se atropela no politicamente incorreto do tema para o transformar em algo correto e formatado. Este é daqueles casos em que não se percebe bem a razão de Jojo pertencer no lote do Melhor Filme. Vá, deu a Scarlett Johansson uma das suas duas nomeações do ano.

 

Joker ****

Ao contrário de Jojo Rabbit, a abordagem da temática ao universo de super-heróis é feita em Joker como se tratasse de um filme old school dos anos 70, vá na linha de Scorsese. Pela rigorosa viagem no tempo e pela correta dimensão da esquizofrenia trabalhada por Phoenix percebe-se que é uma aposta bem consumada pelo realizador da trilogia A Ressaca. A que a melhor prestação do ano de Bob De Niro (mais Scorsese que em Scorsese) dá uma preciosa ajuda. Felizmente, já sabemos que Todd Phillips é o homem indicado para sequelas que se seguem.

 

Mulherzinhas **

Por falar em sequelas, esta versão da muito indie Greta Gerwig, habitual colaboradora de Noah Baumbach, ao conto de Louisa May Alcott parece vingar a quota feminina dos Óscares, como que a salientar a urgência deste enésimo remake que pouco acrescenta. Pelo menos mostra mais cinema que Judy, no putativo prémio para Renée Zellweger como Judy Garland (mas isso são outras histórias). Bem Florence Pugh, a sobressair no cast feminino, confirmando que é um nome com que teremos de contar mais no futuro.

 

Marriage Story ***

É claro que podemos imaginar o que Greta Garwig poderia acrescentar à personagem feminina neste filme de Noah Baumbach (e parecia tão calhada!), mas teremos de nos contentar com a outra nomeação ao Óscar de miss Scarlett Johansson. Pena é que nem ela nem Adam Sandler, perdão Adam Driver (mas como Sandler poderia ser tão bom, mesmo sem pensar em Diamante Bruto/Uncut Gem – esta só a possibilidade para mencionar esta prestação esquecida) tenham sido achados nesta variante muito mais posh de Cenas da Vida Conjugal de Bergman.

 

1917 **

Sam Mendes evoca a Guerra das Guerras pensando no seu avô de origem tuga. Isto numa altura em que o cinema luso fez melhor – seja com o nosso Soldado Milhões e agora também com Mosquito, de João Nuno Pinto que temos (mesmo) de ir ver. Nesse duelo, sabemo-lo bem, vence o prodígio técnico da fotografia de Roger Deakins. E vencerá – assim parece ser o consenso – o Óscar respetivo (leia-se o Melhor Filme).

 

Era uma vez em… Hollywood *****

Só que nessa história, a nossa escolha seria para… Quentin Tarantino, que de certeza não ganhará a estatueta. Ele que nem ganhou sequer (onde deveria ter ganho) a Palma de Ouro do último festival de Cannes (que foi para o filme que encerra esta lista). Seja como for, Era uma Vez… seduz na viagem ao passado do cinema, às fórmulas do género, mesmo que se sirva das duas vedetas mais célebres de Hollywood. Apesar de se combinarem tão bem neste jogo de duplo. Talvez por isso, este filme faça também de duplo da própria realidade, ao servir-se dela com um twist. Bravo Mr. Tarantino.

 

Parasitas ****

Hilariante seria que o Óscar mais cobiçado fosse ganho pelo filme do sul coreano Bong Joon Ho que celebra a luta do proletariado, em que os pobres se assumem como os ‘duplos’ dos ricos. É também por aí que Parasite parece recontar a história de ‘Era uma Vez em Hollywood’ ao assumir e celebrar esse permanente make believe. Ou seja, era o filme que os americanos gostaria de fazer. Mas aí só Tarantino nos parece mais próximo.

 

 

 

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