Novembro 21, 2019
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Bostofrio où le ciel rejoint la terre: Tudo sobre o meu avô

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Bostofrio où le ciel rejoint la terre é um documentário, mas aguça-nos a narrativa com as suas imagens efabuladas. O próprio título confirma isso mesmo, sobrepondo ao realismo do local uma ideia de fantasia e jogo dos elementos. É assim que o passado do realizador naquela pequena aldeia assalta o mistério da sua própria existência em virtude do pai não ter sido perfilhado. Essa busca da memória do avô mantida por agricultores reticentes em lidar com a verdade ou com os dramas associados foi também o objeto de cinema ensaiado por Paulo Carneiro neste documentário investigativo e identitário.

Hoje quando Paulo Carneiro se coloca diante daqueles que viveram com o avô Domingos Espada percebe-se que essa realidade não mudou muito, os modos do trabalho, a impenitência do tempo, as vontades das terras, bem como as meias palavras, os sorrisos enigmáticos que tanto servem para descrever os costumes locais ou, simplesmente, tudo aquilo que não se discute. Mas é também nesses quadros realistas, nessas conversas à volta da lareira que sentimos mais verdade no que chega a assumir um lado quase lendário ou mitológico.

Pelo menos a história que terá juntado a pastora Profetina – diz-se que teria problemas mentais e que corria tudo à pedrada quando as coisas não corriam de feição – no caminho de Domingos Espada. “Lá falavam quando se encontravam, não é?”, vai esclarecendo Maria, com bonomia e sotaque transmontano, antes de concluir em tom inevitável “Com certeza, porque a sonhar os garotos não apareciam, não achas?”.

Entre esta sucessiva ordem de interrogatórios, haverá talvez uma única cena que escapa a essa regra, aquela em que o neto interrompe um show musical na aldeia com a tradicional rapariga de pernas longas a dançar ao som das rimas picantes para perguntar aos presentes se conheciam o avô, bem como para por o dedo na ferida dos mais de 150 mil filhos de pais incógnitos. Ficaria o statement onde impera a lei do silêncio e os risinhos comprometidos.

Por aqui ficamos a pensar na realidade e nos inúmeros segredos escondidos por detrás de sorrisos maliciosos. É como as fábulas, o seu lado mais misterioso deverá permanecer como tal, nem que seja para confirmar a natureza que desafia a realidade. Mesmo que essa omissão descreva a realidade assimétrica de um país.

Tivemos a oportunidade de ver Bostofrio há cerca de um anos nos XXIV Caminhos do Cinema Português em Coimbra, já depois de ter passado no IndieLisboa, e de recuperar esta saudosa investigação parental tão impregnada de histórias e costumes.

 

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