Agosto 8, 2020

San Sebastian: As referências da realidade nas favelas do Rio à talassoterapia em França

Pacificado

Dois filmes da secção competitiva de hoje permitiram-nos viajar até às favelas do Rio de Janeiro para auscultar a evolução da política de controle de tráfico de droga, na produção de Darren Aronofsky e direção de Paxton Winters, em Pacificado; e ainda levar um banho de comédia com o escritor Michel Houellebecq e o ator Gérard Depardieu em Thalasso, de Guillaume Nicloux. Sim, esta dupla contribuiu um pouco para elevar a fasquia de qualidade dos filmes que o júri no festival, presidido por Neil Jordan, terá de avaliar para decidir o próximo vencedor da Concha de Ouro.

“A perceção da realidade é mais importante que a própria realidade”. A frase é citada (e mais do que uma vez) em Thalasso, mas podemos talvez apropriar-nos dela para estes dois casos. Do lado de Pacificado, reconhecemos o trabalho de um realizador americano (sem experiência assinalável) que viveu durante largos meses na favelas do Morro dos Prazeres, contactando com traficantes, durante o período que antecedeu o Mundal de 2014, acabando por devolver um competente registo realista dos códigos locais.

Pela dimensão dir-se-ia uma tentativa de fazer O Padrinho brasileiro, com a chegada de Jaca (Bukassa Kabengele), antigo chefe local após 14 anos de cativeiro, e o confronto e aceitação da nova realidade agora a cargo de Nelson (José Loreto) um elemento mais jovem e perigoso. A par disso, intromete-se ainda a relação frágil de Tati (Cassia Nascimento) uma menina adolescente que poderá ser a filha que nasceu nestes longo período de ausência. É precisamente nessa densificação interior, e no cuidado em cair nos clichés de uma aproximação de género, que Pacificado ganha estrutura, estendendo a metáfora dos vícios de corrupção ao sucessivos governos da política local.

Tahlasso

Ao contrário do que se poderia esperar, Pacificado segue em ritmo de panela de pressão, com uma gestão precisa da violência, por forma até a respeitar a política de contenção que vingou durante essa longa mega operação. Ou seja, há uma preocupação do filme não cair no estilo de Cidade de Deus ou Tropa de Elite, cujo cenário decorre também nesse Morro. E é esse mesmo o seu maior trunfo. Ou seja, Winters e Aronofsky, mesmo sem serem brasileiros, compreenderam perfeitamente a realidade por que passava o Brasil traduzindo-o num registo bastante competente. Talvez um dos mais competentes desta seleção oficial até agora.

Felizmente, o mesmo podemos dizer também do realismo performativo no divertidíssimo e inteligente Thalasso. E por diversas ordens de razões. Desde logo, pela hipótese de ensaiar uma comédia, uma comédia inteligente, diga-se, género tão raro no cinema contemporâneo; por outro lado, o facto de incluir dois monstros da cultura francesa, o escritor Michel Houellebecq e o ator Gérard Depardieu, numa clínica de talassoterapia. aqui ocorrem diversos encontros e desencontros, com a particularidade do cineasta Guillaume Nicloux usar o autor francês numa vertente de sequela de O Rapto de Michel Houellebecq (2014), pois parte dessa trama regressa agora, tal como também uma referência a Vale do Amor (2015) em que assume a sua própria identidade, ou mesmo The End (2016), como o próprio Nicloux assume nas notas de produção do filme.

 

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