Julho 18, 2019
insider

Jonas Trueba: “Este é um filme sobre a identidade e a busca de nós próprios”

Encontro com cineasta espanhol após a estreia mundial de La Virgen de Agosto (leia aqui a análise)esse filme diário sobre a jovem Eva (Itsaso Arana) que decide ficar em Madrid para refletir sobre a vida e esperar um novo recomeço. Talvez uma nova fase da lua. Durante a entrevista percebemos como a sua forma de trabalho se desenvolve no ambiente descontraído. No fundo, um prolongamento dos seus filmes anteriores.

Tudo começou com a teimosia de fazer Los Ilusos (2013), um projeto sem fundos desenvolvido apenas pelo empenho de amigos e profissionais, mas que acabaria por fundar a produtora Los Ilusos Films, em parceria com Javier Lafuente. Um percurso crescente a cada filme, desde logo com Los Exilados Românticos (2015), vencedor de vários prémios e menções honrosas, bem como La Reconquista (2016), presente na seleção oficial de San Sebastian, igualmente premiado em Espanha e no estrangeiro. Mais recentemente, iniciou o projeto Quién lo Impide, um working progress com diversos adolescentes.

 

Caro Jonas, começo com uma provocação: como está o teu português?

Mau, mau, como todos os espanhóis, mas entendo bem. A minha minha mãe nasceu no Brasil e fala bem.

(risos) Compreendo, mas todos os portugueses falam um pouco de castelhano… Regressemos então a Madrid em Agosto. Como se ligou esta ideia de captar a cidade vazia, bem como o seu elemento religioso?

Eu trabalho de uma forma natural, não à procura de uma inspiração. Trabalhamos a partir de sensações reais que sentimos. Gosto de trabalhar com os meus amigos, que são também atores (Vito Sanz, Isabelle Stofell, María Herrador, Mikele Urroz, entre outros). E assim se vão criando os filmes, de uma forma muito orgânica, a partir do que vai surgindo.

Itsaso e Jonas

Sente-se isso no filme. Por isso pergunto até que ponto o guião estava já desenhado?

Existia um primeiro guião, que escrevi eu com a Itsaso e que nos serviu para armar o financiamento do filme e saber o que queríamos fazer. Tentámos logo não o respeitar muito. Seria uma ferramenta importante para a base do filme, mas sobretudo teria de se fundir com a realidade e tudo o que ia aparecendo. Para mim era importante o desenho da produção do filme porque era aí que estava a personalidade do filme. Trabalhamos apenas vinte dias, mas também é o filme mais caro.

É interessante esse desenho, até porque o filme tem também um percurso que segue os dias do calendário, embora não de uma forma convencional. Fale um pouco desta opção.

O filme tem essa estrutura de diário que nos ajuda a construir a história. A ideia era precisamente essa, que os dias não seguiam um ritmo lógico, algo que vai desorientando o espetador. Gostei dessa sensação porque é típica do verão, em que os dias correm de uma forma diferente, ora demasiado longos ou muitos curtos.

De resto, diz-se no filme que o verão permite que as pessoas sejam um pouco mais concretas, não é assim?

Isso. É um pensamento que tentámos desenvolver com agosto como um momento de ócio, de hedonismo, mas também um tempo que pode ser profundo, porque tens mais tempo, podes pensar mais, de outra maneira. E a descontração é boa porque permite passar algo mais profundo. Normalmente pensamos o contrário, que é para nos esquecermos de tudo. De resto, acho que é algo que estamos a perder neste mundo cada vez mais moderno. Quase tudo é muito tenso e rápido. Acho que o cinema pode ajudar a ver as coisas com mais calma, que nos ajude a pensar através do filme. Eu senti isso durante a rodagem – para mim só existia o filme.

O que me pareceu importante era o que ligava as pessoas. Mesmo como se fosse algo muito básico, mas que pode ser relevante para uma ligação. Algo que é importante também para conhecermos melhor esta Eva, que produz de certa forma o seu elemento religioso.

Trabalhamos com uma ideia de virgindade… De página branca. Mas este filme é também sobre a identidade e a busca de nós próprios. Por exemplo, agora em Espanha falamos muito das questões de identidade por motivos políticos. Do nacionalismo, em que se faz uma construção do passado.

E que pode ter séculos, como sugere um dos vossos partidos nacionalistas emergentes…

É verdade, mas nós trabalhamos uma ideia de identidade, mas de identidade do presente. Uma ideia filosófica que veio de (Ralph Waldo) Emerson, que foi bastante importante para o meu filme. Ou seja, nós partimos de uma ideia de identidade de zero. Temos de construir a nossa identidade, uma identidade própria, uma identidade do seu, da cidade em que vives. Mas como algo verdadeiramente novo e não que se ocupa do passado. Foi nisto que trabalhamos. O filme decorre num puro presente. O que é raro.

E nem sempre é fácil…

Não é fácil, tens sempre de apoiar-te nas histórias das personagens. Ou seja, aqui não há ‘back story’. Mas como te disse, o guião foi sendo construído pelas nossas conversas, apenas o necessário para armar o filme, tentando que seja um processo vivo de criação. Nós tínhamos um projeto de vinte dias de rodagem. E estávamos já nos quatro últimos dias de rodagem e a ficção estava quase em branco.

Isso percebe-se no filme. E acho que é isso que o filme tem de bom, deixa-nos nesse ponto de relaxamento totalmente aberto para a história que se segue.

Sim, é uma aposta. E como cineasta tenho de pensar o que sentirá o espetador. Sobretudo quando está a ver um filme em que não sabe exatamente no que se está a agarrar. Cada dia é quase como um novo recomeço.

No entanto sabías que o filme teria de acabar no dia 15 de agosto, certo?

Sim sabia. É no dia da festa religiosa da Ascensão da Virgem. É o dia em que se supõe que virgem ascende ao céu. Não sou religioso ou crente, mas vivemos rodeados de festas e de religiosidade, e acabamos por nos relacionar com isso.

Embora se note cada vez mais que as festas são ‘festas’, mas em que o significado parece já ter sido perdido há muito tempo. Ou seja, é mais um ritual…

É verdade, é assim que se passa. Mas há algo religioso que gosto, e que é muito cinematográfico, e que é a maneira diferente de entender a fé. Para mim, a fé é muito importante. Acreditar nos companheiros, no trabalho que fazemos e nos espetadores. Essa é uma fé que tento manter.

O filme tem ainda essa imagem fortiíssima do final, com a Eva ao lado do poster da Lua…

Isso foi algo que apareceu na rodagem. Eu queria ter um poster de uma lua e pedi-o ao diretor de arte. Mas quando colocámos a câmara a Eva apareceu no plano à frente do poster naquela posição que parece um halo. Foi uma casualidade bonita, embora num efeito procurado.

Este é um filme do presente, embora o teu passado seja inevitável pela ligação à tua família ligada ao cinema. Imagino que esta pergunta seja frequente, por isso tentarei colocá-la de outra forma. Com vês essa ligação dentro deste elemento temporal?

Pelo contrário, agradeço a pergunta, porque para mim a filiação é muito importante. A criação do cinema também tema ver com isso, com a transmissão e com o diálogo. Então em minha casa tive essa felicidade de poder dialogar com o meu pai (Fernando Trueba). Embora isso também seja de certa forma um problema. O que dizia da herança, ou seja, ser o mesmo mas também não ser.

É a ideia da autonomia, não é?

Essa autonomia de que fala ao filme é algo que sinto muito profundamente. Tenho um conflito com isto entre o familiar, a herança e o que sou eu mesmo. Mas o meu pai transmitiu-me muitas coisas boas. Desde logo o amor pelo cinema. E a generosidade, algo que é importante na vida como no cinema.

Existe um ponto de vista crítico também?

Digamos que somos bastante generosos com o trabalho do outro. Sempre com muita preocupação e muito carinho. Muito diálogo.

O filme está para estrear em Espanha no dia 15 de Agosto. O que esperas da reação em Espanha, depois desta estreia mundial aqui em Karlovy Vary?

Essa estreia em Espanha a 15 de Agosto é uma aposta nosso, pois parece-nos que é importante para o filme, embora tenhamos a consciência que em Espanha vai ser algo muito difícil.

Alguma previsão de estreia para Portugal?

É estranho, mas nunca consegui estrear em Portugal. É absurdo esta coisa entre Espanha e Portugal…

Sim, tão perto e ao mesmo tempo tão longe…

Gostaria muito mas até ao momento não temos esse contacto.

Sobre Paulo Portugal 774 artigos
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