Junho 16, 2019
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Verão: Kirill Sebrennikov recorda underground russo: “na verdade, isto não aconteceu”

Leto (Verão) estreia finalmente em Portugal, precisamente depois de ter sido exibido há exatamente há um ano no festival de Cannes. Como se compreende, destila daqui a pulsação da luta contra a opressão vivida pelo inconformado Kirill Sebrennikov, o cineasta russo que permanece ainda em prisão domiciliária. No entanto, para a história fica a evocação das duas figuras de proa de um certo movimento underground russo, durante os anos 80, em particular em Lenigrad, como Mike Naumenko e Viktor Tsoi, no seu sublinhado desse período de rebeldia, reciclando para as plateias locais os ventos de euforia que sopravam do Ocidente. Até seria um grande filme, não fosse o caso de estar demasiado ligado a essa mesma nostalgia, nem sempre muito convincente.

Logo no festival do ano passado, a imprensa recebeu muito bem o seu filme, num misto de homenagem e de reconhecimento pelo trabalho de Sebrennikov. De referir que a prisão de Kirill sucedeu precisamente após a rodagem deste filme, precisamente no dia 23 de agosto, em S. Petersburgo. O que fez com que algumas cenas acabassem por ser filmadas por uma segunda equipa, como confirmou o seu produtor na conferência de imprensa a seguir a sessão, apesar de Kirill ainda ter conseguido terminar a montagem em casa num elegante preto e branco, embora desnecessário. Contudo, será quando vemos alguns excertos a cor que nos aproximamos mais da patine desse tempo.

Kirill não esteeve em Cannes, mas o festival tentou que o realizador estivesse presente, embora um comentário de Vladimir Putin referindo que teria muito gosto, embora alertava para o facto de que na Rússia o departamento de justiça funciona com liberdade… Ironias.

Como se percebe, o filme soa como um novo grito de liberdade. Algo que já se sentira no anterior O Estudante, há dois anos exibido em competição em Cannes. Tal como esse estudante decide questionar a moralidade dos adultos, também aqui se desenha o retrato da mesma aspiração, no caso, o movimento underground na Rússia, a pedir uma Perestroika que só se concretizaria no final da década de 80, embora homenageando aqueles que abriram caminho. Em particular em Viktor Tsoi, considerado uma lenda no seu país, recordando o seu trabalho em conjunto com o seu ídolo Mike, uma espécie de variante de Liam Gallagher, dos Oasis, e a sua mulher, com quem se sugere uma aproximação romântica a Jules e Jim.


Talvez por tudo isso se perdoe um pouco a essa vontade imensa de beber a novidade do Ocidente que cola ao produto final um tom demasiado vincado, talvez menos realista, ou algures entre um ideal e a realidade, ainda com um excessivo name droping demasiado referencial. Bowie, Marc Bolan, Lou Reed, Richard Hell, a lista continua… A explicação poderá estar na exploração de um look mais new wave, em particular nas cenas musicais que surgem em verdadeiro formato de video clip, aliadas a uma animação scratch, colando a eses temas um estilo artístico mais primitivo.

Seja o momento em que numa carruagem de comboio os passageiros se assumem como personagens de um improvisado videoclip do tema Psycho Killer, dos Talking Heads, ou num autocarro, ao som de Passenger de Iggy Pop. Na realidade, isto não aconteceu. A frase vai-nos sempre recordando isso, como que a abrir um hiato entre a realidade e a repressão politica e social da altura.

Na verdade, o mesmo se pode também dizer sobre a presença de Kirill Sebrennikov. Na verdade, o diretor artistico do Gogol Center em Mosvoco, o cineasta, encenador e dramaturgo, não podia ter sido preso. Na verdade, isto não aconteceu.

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