Maio 24, 2019
insider

Curtas no IndieLisboa: o império dos sentidos


A competição nacional de curtas metragens é uma secção muito relevante do  IndieLisboa. É aqui que o público tem oportunidade de conhecer as novas tendências do cinema português. Em certa medida, o formato curto torna-se até mais interessante que o longo. Porquê? Desde logo por permitir uma viabilização mais rápida, mas também porque os autores se aventuram em territórios de experimentação e risco. E com isso abrem também caminhos ao espectador. O problema é que a programação do IndieLisboa é muito vasta e não nos permite ver tudo.

Invisível Herói é a terceira curta de Cristèle Alves Meira e vai ser apresentado em Cannes na Semana da Crítica, tal como sucederam há três anos com Campo de Vóboras. Confesso que após ler na sinopse que a personagem principal tinha uma “deficiência visual” fiquei algo reticente. É que esses temas sensíveis como este podem conter o perigo de uma visão especulativa. Afinal de contas, as dúvidas não eram necessárias. O filme existe na fronteira entre documentário e ficção mostra-nos o mundo sem pena de Duarte, na sua deriva à procura do amigo.

Invisível Herói, de Cristèle Alves Meira

Duarte Pena foi mesmo a inspiração para Cristèle e relata uma história da serenidade e liberdade inteira. A deriva de uma pessoa que apesar de ser invisual consegue ter a vida muito mais rica do que muitos. A história faz-nos viajar através de várias dimensões à medida que se transforma numa coisa onde o realista se torna fantástico. Duarte Pena e os seus amigos, muitos deles também invisuais e participantes no filme, estiveram na apresentação do projeto, na sessão do cinema S. Jorge. Curiosas as reações deles, motivadas pelo som, reagindo muito certo ao tudo que acontecia no ecrã.

Podemos talvez fazer uma ponte entre Invisível Herói Poder Fantasma de Afonso Mota, exibido logo a seguir. Do mundo das pessoas cuja vida é dependente mais de ouvido do que da visão, passámos para o mundo das pessoas que fogem para o mundo sonoro. O filme de Afonso Mota vive de sonoplastas que trabalham no cinema e cujo trabalho e nome são normalmente desconhecidos do público. Uma curta bastante cinematográfica na forma como aborda a metalinguagem na análise de pensamentos, procura e competitividade de uma nova geração de cineastas.

Grbavica de Manel Raga Raga também tem muito a ver com a questão de sentir e não ver. Ele que continua a sua ligação à região, de resto bem presente na sua obra anterior. Grbavica é também o nome de bairro enorme de Sarajevo ocupado durante a Guerra dos Balcãs e o título do filme de Jasmila Žbanić, vencedora do Urso de Ouro em Berlim, em 2006. Grbavica é um bairro que viu muito e onde os ecos dos pontapés na bola que os miúdos fazem a jogar futebol recordam os disparos que deixaram marcas na parede. Claro que esse trauma fica na cidade. O realizador não mostra nada concreto, mas tenta apanhar os pensamentos e as reflexões do passado. Sombras, sons, acontecimentos – tudo é fragmentado, parece um pesadelo do qual não é possível sair.

Outro dos filmes apresentados nesse bloco foi The Hood de Patrícia Vidal Delgado. Patrícia estuda em LA e este trabalho é um exercício académico que entrou na competição nacional.
Apesar de se mostrar como um filme de temática tipicamente americana, não deixa de ser considerado como um  interessante olhar de fora. Trata-se de uma história pitoresca com algum sentido de humor, embora com essas marcas de exercício, de treino, de rascunho, mais ainda não o trabalho de uma cineasta formada.

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