Junho 17, 2019
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LÁZSLÓ NEMES sobre ANOITECER: “A alma humana não está à distância de um clique”

Paulo Portugal, Veneza (Setembro 2019)

Em Anoitcer, Nemes opta pelo cunho autoral e mantém o estilo de Saúl agora numa Hungria nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. E pelo compasso de um processo que vem detrás e joga com o tempo. Aqui seguimos Irisz (Juli Jakab), a rapariga em demanda pelo passado da família. Também aqui a câmara é subjetiva e cúmplice. Ela também procuras, também quer saber. A diferença é que aqui não há catacumbas nem fornos crematórios. Tudo agora se passa no meio das ruas e da delicadeza dos tecidos finos de uma chapelaria de classe de Budapeste. Afinal de contas o lado decorativo tão característico daqueles anos galantes em que uma Europa pomposa se preparava para se atirar de peito aberto para um interminável conflito das trincheiras. Afinal de contas, um labirinto que salta dos corredores dos campos de concentração para as ruas de Budapeste.

Se pensarmos bem, é também esse elemento de descoberta que o húngaro vai exorcizando a memória dos seus antepassados trespassada por duas guerras. Também por isso dizemos que este Nemes merece ficar também às portas da eternidade. Foi precisamente com o realizador com quem fomos desvenbdando os mistérios e significados do filme – durante a nossa entrevista no último festival de Veneza, onde o filme passou em competição – ao longo de um processo onde vão também surgindo novas arestas do seu ato criativo. Sobretudo quando Lázsló aflora a magia do cinema que se descobre na película de 35mm, um formato que defende como possível, em que se fala do modo como comunicamos (e nos encaramos) hoje em dia, “como se fossemos anjos”. Fala de Murnau, como parte da sua fonte inspiradora e do seu filme de 1927 Aurora (Sunrise) – não será por acaso que o filme se chama Anoitecer, ou seja Sunset? – e do produtor William Fox (por sinal o produtor de Aurora). No fundo, é o sonho de um cinema (ou de uma Europa) a tentar cumprir o seu ideal.

Recordo que falámos na altura da promoção de O Filho de Saúl– não em Cannes, mas em San Sebastian – e em que logo se tornou claro que o seu filme seria um forte candidato aos prémios do ano. Como foi essa experiência?

Foi algo muito intenso. É uma campanha. Algo muito estranho que acabei por descobrir. Apesar de detestar todo aquele lado das perguntas, a verdade é que descubro sempre elementos novos cada vez que falo convosco.

Se calhar coisas novas do seu filme que nem sabia…

É verdade.

E o que descobriu de novo neste filme?

Ainda não tenho uma distância suficiente para ter essa perceção. Normalmente, preciso de alguns meses para cristalizar essas mensagens. Acho que isso faz parte do processo de fazer um filme. Nesse sentido, tento articular exatamente aquilo que quero dizer. Não é algo que esteja predeterminado. É um processo, como digo.

Lembro-me também de abordar o projeto do filme que agora vimos. Na altura admitia até uma ligação entre ambos. Apesar de serem bastante diferentes, percebo agora essa ligação. Como se fosse uma espécie de génese (e justificação) do que estaria para vir… Pode confidenciar-nos o seu ponto de vista?

Na verdade, existem intertextualidades. A atriz principal (Julia Jakab) entrou em O Filho de Saúl mas não estava predeterminada para fazer o papel de Iris neste filme. O interessante é que vemos esta mulher sem cabelo e muito cansada. Estávamos em 1944 e umas décadas antes teria tido um belo chapéu ao sol nas ruas de Budapeste. Estas imagens acabaram por me perseguir. Algo que sucedeu depois de fazer o primeiro filme. É claro que a civilização poderia ter evoluído de uma forma totalmente diferente. Parece ser um mistério o que aconteceu com aquele belíssima civilização austro-húngara, com a sua mistura de nacionalidades, culturas, línguas, com toda a sua invenção, criatividade, ideologias. Pensar que esse borbulhar de criação humana originou a total destruição na Europa é algo arrasador.

Esta procura que fazem as duas personagens no filme poderá ser também a sua própria procura no seu país, na sua própria origem?

Claro. Acho que esta é também uma procura de mim próprio. A Europa central é um local estranho, tem a solução para inúmeros problemas. Tantos realizadores vieram dessa região, muitos deles para Hollywood, Inglaterra ou França. Há uma tradição de cinema muito forte.

Em O Filho de Saúl seguimos a narrativa através da perspetiva de uma única pessoa, algo que se passa também aqui. É um ponto e vista que quis privilegiar?

Admito que me interessa a experiência subjetiva. A arte é muito interessante do ponto de vista subjetivo, embora essa abordagem seja muito escassa no cinema, privilegiando mais um ponto de vista objetivo. Por exemplo, hoje com o CGI podemos criar o que quisermos. Não há fronteira. Acho que nos estamos a mudar de um ponto de vista único. Nós somos apenas únicos. Do ponto de vista civilizacional achamos que sabemos e conhecemos melhor o nosso mundo. Mas tudo isso acaba por ser algo limitado. Neste caso, estamos numa espécie de labirinto a tentar descobrir este mundo. Formulo diversas perguntas, que eu próprio me coloco. No fundo é uma procura dela própria. Isso é algo que me interessa. E por isso a seguimos o filme todo.

Percebemos bem que os seus filmes são para ser vistos na grandiosidade de um grande ecrã, mas o que pensa quando percebe que muitas vezes acaba por ser visto num computador ou smartphone?

Hoje em dia as pessoas vêm realidade virtual. Do ponto de vista tecnológico é um avanço, mas a arte deve também resistir um pouco já que limita a imaginação. Por isso mesmo é que luto porque o filme em 35mm deva continuar a ser uma possibilidade. É essa a magia do cinema, ter a luz e a escuridão. Quando vemos um filme em 35mm metade do tempo estamos na escuridão. Ficamos na dúvida, na obscuridade. Somos forçados a usar a imaginação. Quando as imagens estáticas se tornaram em movimento percebemos que vemos um truque. Acho que os seres humanos precisam um pouco e magia e de sonho. Não sou pessimista, mas acho que caminhamos no sentido de uma satisfação de curto prazo.

Apesar de ser um realizador muito jovem, fez dois filme de época. Isso significa que se interessa mais pelo passado do que se passa hoje em dia, na Europa central por exemplo?

Interesso-me muito pelo que se passa na Europa central. Mas tento dar um passo para trás e observar o quadro todo. Há um sentimento de poder na civilização que nunca foi tão rico e bem ligado. Mas há algo que sentimos como ameaçador. Não falo do ponto de vista político. No século XIX tiveram a deia das nações-Estados. De onde vamos daí? Há um século atrás a civilização foi destruída quando estavam no seu auge. Os bárbaros não destruíram Roma, foi ela que se destruiu a si própria.

Faz algum tipo de paralelo com o que se passa hoje em dia?

Isso é o vosso trabalho como jornalistas. Há similaridades com o que se passa hoje e há cem anos atrás. As pessoas esperam algo, como há um século atrás. Acho que se acham invencíveis, como há um século atrás. Onde a morte nem sequer existe. Vivemos num virtual de nós próprios onde temos uma imagem narcisista. Isto, naturalmente, num ponto de vista civilizacional. Tentamos viver num estado ideal, como se fossemos anjos. Mas não somos anjos. Temos sempre algo destrutível em nós. E este filme mostra precisamente essa faceta. É a nossa confiança absoluta na tecnologia. Essa adição complementada com o fim do desejo. O cinema é muito isso. Não em particular, mas de uma forma genérica.

Este é um filme com várias camadas. Acha que este jovem pode ser também a génese da nova Europa?

Sim, é um filme sobre camadas. De como a alma humana não está à distância de um clique. Não é nada que se abra num ficheiro. Há coisas que nos são desconhecidas. E repare o tempo deste filme é o da moda da psicanálise em Budapeste, pois foi ali que nasceu precisamente nesta altura. Esta forma de pensamento que nos permitiria conhecer-nos a nós próprios. A protagonista tenta conhecer-se e ao mundo que a rodeia. Mas à medida que descobre algumas camadas, percebe que existem outras, um labirinto de informação e incerteza. Foi algo que me interessou.

Quando vemos aquela imagem final desta mulher tão próxima da guerra..

É engraçado, porque temos estes postais de campos de batalha, quadros de trincheiras, e às vezes temos uma espécie de colosso, uma mulher a flutuar. Neste filme, o feminino e o masculino estão combinados.

Para além destes postais, que outro tipo de imagens o influenciaram para fazer este filme?

Talvez o Aurora,de Murnau. Influenciou-me muito do ponto de vista narrativo, já que é um filme sobre a esperança e o desespero do ser humano. É um grande filme e foi feito por europeus. Feito por um alemão, o Murnau, e convidado por um húngaro, o William Fox (fundador dos estúdios da Fox), combinado a América com a Europa, o mundo novo com o mundo antigo, na promessa de uma nova civilização. Havia uma enorme esperança nesse período que antecedeu a Primeira Grande Guerra, numa altura e que o cinema estava quase a passar do mudo para o sonoro. Vi também alguns filmes de 1900’s que eram rodados na frente de carroças e que nos mostravam cidades. É um certo caos que quis colocar também no filme.

Não deixa de ser curioso como neste período a ideia de embarcar numa guerra chegou mesmo a ser algo quase romântico, não concorda?

Sim. Era algo galante. As pessoas iam defender ideias bonitas.

É verdade que deseja fazer o seu próximo filme nos Estados Unidos? O que o move a ir para lá?

Não é que eu quera mudar para os EUA. O que eu disse é que um dia gostaria de fazer ali um filme com atores de língua inglesa, já que têm lá grande atores. Mas foi apenas a formulação de um desejo, não uma intenção clara.

Sobre Paulo Portugal 765 artigos
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