Julho 19, 2019
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As Herdeiras: a primeira longa de Marcelo Martinessi atualiza a condição feminina no Paraguai

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Há filmes assim, com um encanto sereno, a correr o risco de passar despercebidos. As Herdeiras, um tocante registo no feminino, não merece esse crivo. Quanto mais não seja pela oportunidade que nos dá de tomar conhecimento com raridade do cinema do Paraguai. Apresentado no festival de Berlim, mas de 2018, portanto há mais de um ano, As Herdeiras logo nos despertou a atenção pela sua especificidade cultural, a primeira longa metragem do realizador Marcelo Martinessi, por sinal vencedor da curta documental na secção Horizontes, do festival de Veneza, de 2016. Chega finalmente às nossas salas, graças à coragem e iniciativa de uma pequena distribuidora, a Nitrato, de Américo Santos, com um trabalho de teimosia e qualidade evidenciado no cinema Trindade, no Porto, mas também com os ecos possíveis em Lisboa.

Um ano depois revemos o filme, e o texto produzido durante a Berlinale em que conquistou o prémio Fipresci, da crítica internacional, para além da interpretação feminina para a estreante Ana Brun e ainda o galardão Alfred Bauer, pela contribuição artística por “abrir novas perspetivas da arte cinematográfica”.

Um ano depois, desgravamos também a intensa entrevista que fizemos a Martinessi  e que nos atualiza sobre a realidade daquele país do interior da América Latina. Em particular, o esclerosamento de classes sociais atrofiado pelos 35 anos de chumbo da ditadura de Alfredo Stroessner, de certa forma retomada pelo atual Horacio Cartes, a quem Martinessi não tem pudor a apelidar de “traficante de droga”. Na verdade, no filme são até relatados casos que rimam com as recentes decisões do nosso juíz Neto de Moura. Por tudo isto, mas não só por isto, vale a pena não deixar de ver As Herdeiras.

O filme acompanha a deriva de auscultação da realidade patriarcal do seu país, num filme integralmente defendido por mulheres, e em que os escassos homens recebem apenas a condição de meros figurantes. A história assenta em duas amigas que obviamente tiveram uma longa vida em comum, embora Martinessi não se sente forçado a explicar a sua relação, tal como várias outras coisas no filme, deixando esses espaços em branco para o espetador refletir e eventualmente preencher.

Chela (a estreante Ana Brun) e Chiquita (atriz com larga experiência no teatro) são duas sexagenárias que perceberam que a vida desafogada do passado terá de passar a ser enquadrada por uma nova realidade e um novo suporte financeiro. Ao serem forçadas a sair de casa, percebem também uma nova realidade. Chela acaba por utilizar o seu carro para transportar amigas e conhecidas acabando por ter aí alguma compensação financeira. Ao passo que Chiquita, incapaz de pagar as suas dúvidas e forçada a conhecer a realidade de uma prisão para mulheres. No fundo, Chela sai de casa e Chiquita entra para outra realidade, mas onde acaba por ser também a ‘rainha’ que era em casa.

Martinessi ausculta de forma peculiar a pulsação da realidade feminina, caracterizada pelo seu fechamento – Martinessi sugere mesmo uma “idade das trevas” – propondo estas novas possibilidades, ainda que não abdicando de um cinema que mantém esse lado fechado. Talvez por isso, a primeira imagem do filme seja uma câmara furtiva, como que a espreitar o que se passa, com algum pudor, numa porta entreaberta, como se tivesse medo de sair da escuridão. Mas é precisamente essa escuridão que absorve a condição social no seu país e que nos é descrito de uma forma muito subtil, sem necessitar de fazer passar o peso da mensagem de eternizada e vincada sociedade. Foi uma bela surpresa de um cineasta que confirma o que de melhor se esperava.

(artigo originalmente escrito durante o festival de Berlim 2018, onde o filme passou em competição. Agora revisto e acrescantado)

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