Julho 19, 2019
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As Cinzas Brancas Mais Puras: Jia Zhang-ke submete os códigos da saga gangster ao eterno feminino

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O cinema de Jia Zhang-ke é feito de um eterno retorno, frequentemente pontuado por uma revisitação regular às suas geografias, sejam elas terrenas, musicais ou cinematográficas. Pelo menos a um certo cinema de perfil realista e social, em que não é alheia a presença obrigatória da sua atriz fetiche – e também mulher -, Zhao Tao. É como se criasse novos e deliciosos significados para o déja vu.

Em As Cinzas Brancas Mais Puras Jia recupera o universo do jianghu, esse mundo mágico de artes marciais presente nos clássicos filmes wuxia e a sua atualização até ao ao universo das tríades. Numa deriva de quase duas décadas, seguimos o destino de uma mulher (Zhao Tao) e o gangster Irmão Bing (Fan Liao), após a interrupção pelo tempo de prisão em que cumpriu cinco anos para salvar o amante.

Um tratamento fértil do tempo em que se percebe a voragem da abertura da China ao mundo, ilustrado da melhor forma pela metáfora majestosa da barragem das Três Gargantas, elemento omnipresente do cinema de Jia (em particular em Still Life, o filme vencedor do Leão de Ouro, em Veneza, em 2008) e a transformação operada com a pulsação do capitalismo a galopar desde 2001. É essa euforia que se sente quando toda a gente sube em cima de uma mesa para dançar ao som de YMCA, dos Village People, um pouco à semelhança do efeito do tema Go West, dos Pet Shop Boys, em Montanhas se Afastam, de resto, como confirma Jia Zhang-ke na nossa entrevista, no passado festival de Cannes, ao referir que eram os dois temas da moda. Ainda assim, esta a banda sonora é pontificada ainda pela banda sonora de The Killer, o clássico de John Woo, sugerindo a habitual mescla temporal do seu próprio cinema.

De certa forma, este elemento temporal serve para fazer merecer o presente e sentir assentar a poeira do tempo e até para confirmar o romance. Sobretudo assumido por esse eterno feminino que Tao tem imposto no cinema de Jia com grande classe.

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