Outubro 28, 2020

Veneza 75: Ryan Gosling viveu em Veneza o seu ‘space oddity’

O Primeiro Homem na Lua – Filme de abertura (competição)

O Golem (Venice Classics)

Damien Chazelle e Ryan Gosling fazem um novo ‘pas de deux’ em Veneza, dois anos depois do muito badalado e multipremiado La La Land. Com um filme fulgurante e uma vez mais destinado a atingir as estrelas. Ainda que agora a dança seja outra. Apesar de não estar totalmente afastada. Não só pelos ecos que toda essa aventura espacial mereceu da cultura pop, desde logo com o lançamento do single de David Bowie, Space Oddity, apenas uma semana antes de Neil Armstrong saltitar na lua. Mas também por a sua biografia oficial, de 2005, First Man: The Life of Neil A. Armstrong, James R. Hansen, relatar o rema ‘Lunar Rhapsody preferido do casal. Ou até, se quisermos, pela dança de câmara com que o realizador acompanha o dramatismo das cenas. Seja nas mais intensas sequências de ação, normalmente nos cubículos das naves, mas ainda em algumas sequências familiares. É muito por aqui, nesta gestão do lado histórico, na verteste realista da época, e ainda a emoção humana que o filme sobe às estrelas.

Tal como o próprio já referiu, O Primeiro Homem da Lua foi também o primeiro projeto que Chazelle anunciou a Gosling. E sim, desta vez, o menino de 33 anos consagra o mesmo cinema que deseja ser visto e ter público, com uma presença muito forte do cinema de aventura, mas que nos convida a entrar. Mesmo correndo o risco do déjá vu, Damien acaba por sair por cima de quase todos os ‘obrigatórios’. Desde logo, uma homenagem a Os Eleitos, de 1983, de Philip Kaufman, uma vez que percorre parte desse período, embora sem prestar vassalagem. De resto, fica uns furos acima do Apollo 13 de Ron Howard e mesmo de Gravidade,de Alfonso Cuarón. Já Kubrick pertence a outra estirpe e nem o seu lado mais filosófico faz parte das suas intenções.

É claro que o canadiano Gosling é a escolha inevitável, já a britânica Claire Foy no papel da esposa de Neil é uma ótima surpresa, mesmo que no papel submisso das mulheres da altura. Ainda assim, fascina pela forma como contém a emoção e a gere em lume brando. Apesar da seleção e gestão do cast ser de uma forma geral irrepreensível, sobra ainda espaço para atentar no detalhado trabalho de câmara.

Curiosamente, no serão de ontem, em jeito de pré-abertura do festival, com a exibição de um dos primeiros super-heróis, no filme mudo O Golem, de 1920, de Paul Wegener, em cópia irrepreensível com transcrição em 4K, retivemos uma frase que talvez se pode aplicar ao filme de Chazelle. Por sinal, um filme acompanhado com o mais belo acompanhamento musical que já ouvimos. Dizia o diretor da cinemateca de Bruxelas, responsável por parte desse trabalho meticuloso em combinar a película de dois negativos e outros tantos excertos, que ouvira ao belga Luc Dardenne a melhor expressão para classificar o trabalho de restauro. Dizia ele, citando de cor, que “o restauro não é mais do que a recuperação da emoção que o realizador quis criar da época”.

É que talvez este O Último Homem da Lua pode até ser visto como isso mesmo, uma espécie de restauro, do trabalho sobre o mesmo tema que já foi feito. Mas agora melhor, pelo menos com melhores condições para contar a mesma história. Já Paulo Baratta, o Presidente da Bienal de Veneza, saudou o filme e as diversas conotações sobre o medo e as perseguições, declarando que “os fantasmas regressam quando temos necessidade deles”. Por sua vez, o diretor artístico do festival, Alberto Barbera, enalteceu a qualidade estética de um filme que acabava por trilhar uma das primeiras formas artísticas da linguagem cinematográfica, essa forma de arte tão nova na altura. Antes ainda de Murnau e da… Marvel.

Tivemos ainda a presença de Vanessa Redgrave, que receberá um Leão de Ouro em homenagem à sua carreira. Ela que mais recentemente se assumiu como realizadora. Vimos em Cannes a sua estreia com o documentário Sorrow, infelizmente demasiado pueril na sua mensagem humanitária.

Mas isso serviu também para ela fazer uma elipse com a sua própria vida, pois assumiu-se como “children of war”, refugiada no seu próprio país na eminência de uma invasão nazi. E assim lançou a farpa em direção do seu governo e não só. E recordou como Laurence Olivier disse uma vez em palco, “a star is born”, referindo-se a ela. Terminando a dizer “os meus compatriotas perceberam agora que o governo não percebe nada da política.”

 

O Primeiro Homem na Lua****

 

O Golem*****

 

 

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