Agosto 15, 2018

A Ciambra: Jonas Carpignano capta os ritos de passagem do ciganito Pio Amato

Apesar de ser do ano passado, A Ciambra chega apenas agora às nossas salas, mas sem que se note alguma perda de mensagem. Entretanto, o filme de Jonas Carpignano correu mundo em festivais internacionais, desde a sua estreia mundial em Cannes, na Quinzena dos Realizadores. E passou mesmo por cá, no LEFFEST de Paulo Branco, aliás, como o próprio nos confirmara numa entrevista que lhe fizeramos em Karlovy Vary, onde tivemos a oportunidade de conhecer o filme. Mas Carpignano vem ainda de trás, tal como Pio Amato, o protagonista que parece mesmo crescer na tela diante nós e durante a duração do filme. Este artigo, tal como a entrevista já foram publicados no Insider, que agora recuperamos com atualizações devidas.

Na região de A Ciambra, uma comunidade cigana da Calábria, no extremo sul de Itália, mesmo no bico da ‘bota’, o mundo das crianças e dos homens tende a ser algo ténue, pois até os putos de cinco anos, de cigarrinho na boca e copo de vinho nos lábios, procuram queimar etapas para chegar o mais rápido possível à idade dos homens. Pio Amato é um deles. Ele não tem tempo a perder, tal como a Rosetta do filme dos irmãos Dardenne, que com este tem até uma curiosa proximidade.

O italo-afro-americano Carpignano detetou nele uma aura que isolou e capturou em três dos seus filmes. Primeiro, foi a curta A Ciambra, de 2014, prolongando-se um ano depois numa das personagens de Mediterrânea, e acabando mesmo por se revelar como um dos filmes mais aclamados da edição de ano passado de Cannes, conquistando o prémio Europa Cinemas na Quinzena dos Realizadores.

Aos catorze anos, Pio apressa como pode todos os ritos de passagem que abram as portas da idade maior. Habituado a viver à sombra do irmão, o pirralho é forçado a improvisar quando este é preso. Algo que a câmara inquieta do realizador capta, num registo próximo do semi-documental e quase antropológico contaminado de resto pelos ritmos tecno-pimba da nova música cigana.

Sim, estamos num emersos num profundo realismo, talvez não muito longe do ambiente neorealista de Siuscia ou O Ladrão de Bicicleta, clássicos incontornáveis de Vittorio De Sica; ainda que este também seja talvez um descendente próximo do estilo Dardenne.

É nessa permanente inquietação que seguimos Pio nos seus diversos trabalhinhos para trazer dinheiro para casa, muitas vezes junto da comunidade africana, com quem os ciganos não se misturam, e que entregará à personagem matriarcal, embora talvez para honrar o avô a viver os seus derradeiros dias, embora a manter a nostalgia das liberdades do passado.

Carpignano tem acompanhado a vida deste rapaz desde que o ajudou a recuperar o automóvel roubado durante a rodagem de uma das suras curtas, conforme o cineasta de 33 anos nos relata na nossa entrevista. Algo que evoluiu para uma convivência regular. O mesmo se passa com o amigo Koudous Seihon, que participou em Mediterrânea e haveria de evoluir também para este filme, nessa delicada relação entre a comunidade cigana e os africanos. Como se imagina, esta é mesmo a praia de Jonas Carpignano. Ficamos à espera da próxima maré de Carpignano. Com ou sem Pio Amato.

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