Outubro 22, 2018

Na rodagem de um mito chamado António ‘Variações’

Foto: Joao Pina/David & Golias

João Maia: “Tudo é possível quando temos um sonho”

Não consigo dominar, este estado de ansiedade.
Tenho pressa de chegar, para não chegar tarde…
(Estou Além, António Variações)

O ícone de António Variações vai renascendo a bom ritmo no filme de João Maia, em grande parte graças à presença enigmática e à voz de Sérgio Prata. A estreia de Variações está prevista para o verão do próximo ano. O Insider esteve na rodagem e falou com João Maia e o produtor Fernando Vendrell.

A agitação à porta da discoteca Trumps até seria um lugar comum, não fossem apenas cinco da tarde (e não cinco da manhã!). Até porque a presença de inúmeros figurantes de camisas coloridas devidamente apertadas pelo cinto das calças e com cabelo bem penteado eram suficientes para nos transportar aos vibrantes anos 80. Mal inicamos a descida das míticas escadas de um dos mais famosos locais da noite lisboeta da altura o embalo do tema Estou Além, de António Variações, deixou-nos no mood adequado.

Foto: Joao Pina.

Isto porque se sentia a angústia na voz e no olhar de Sérgio Praia, devidamente vestido com calçoes justos e túnica vermelha, enquanto segurava no microfone e cantava de forma mansa, Não consigo dominar, este estado de ansiedade; tenho pressa de chegar, para não chegar tarde… A sua imagem era acentada pelo recorte do cenário chroma key verde, e pelas pinturas no rosto qua faziam lembrar Adam Ant. Pelo meio, sentiam-se interrupções, a voz não lhe saia. Calma, mas essa era afinal de contas a cena em que Variações já se debatia com o cansaço e com a doença que ele nçao compreendia mas que o consumia. E logo ele que sempre correu contra o tempo, mas que nos deixou temas imortais como a Canção do Engate.

Atrás da câmara mais de uma vintena de técnicos contribuia para que o avanço no trabalho fosse real. Mas a rodagem corria bem, como nos confirmou João Maia, e ia já na terceira semana, num trabalho conjunto que contava ainda com a presença de Filipe Duarte, Victoria Guerra e Filipe Albuquerque, entre outros. De tal forma que pudemos mesmo assistir à gravação de uma cena onírica em que o protagonista, que assegura todos os momentos musicais da vida do artista excênrico António Ribeiro, se cruza com Amália Rodrigues (Maria José Paschoal) numa cena sobrenatural em que partilha com ela o seu estado de ansiedade.

O realizador, João Maia. Foto: Joao Pina.

Nós também tínhamos pressa de chegar e já vinhamos tarde, pois há muito que se esgotara o tempo da imprensa para o set visit desse biopic com autoria e realização de João Maia, a decorrer naquele clube noturno. Felizmente, a simpatia e amizade do produtor Fernando Vendrell, da produtora David & Golias, facilitara-nos o acesso a esta produção (orçada em cerca de um milhão de euros) que retomava o hiato de mais de uma década, motivado com problemas judiciais pelo anterior produtor, entretanto tornada possível graçãs à intervenção do luso descendente Jaime Mateus Tique que acabou por juntar o atual produtor ao realizador.

Entretanto, na nossa mente pairava a recordação desse lugar, mas que recuava tão longe quanto a memória de ver ao vivo António Variações no concerto do Coliseu durante uma festa do jornal Se7e, provavelmente já no período derradeiro da vida e carreira deste cabeleireiro que decidiu ser cantor e acabou por se tornar num dos mais relevantes ícones da pop lusitana dos anos 80.

Fernando Vendrell sublinha esse lado especial, uma vez que “foi um projeto que reflete também o meu tempo de adolescência e um período – o final dos anos 79 -, em que artisticamente me consolidava antes de ir para a escola de Cinema estudar produção”. Por outro lado, assume que “é um filme em que a personagem do António Variações nos toca muito forte.” Em grande parte pela força emanada da prestação de Sergio Praia. Um personagem que não é nova para ele, já que a interpretou na peça Variações, de António, encenada por Vicente Alves do Ó. E menos ainda a Maia que iniciara a sua pesquisa antes mesmo da homenagem dos Humanos em 2002.

Sergio Praia (Antonio Variações) com Filipe Duarte (Fernando Ataide) e Victoria Guerra (Rosa Maria). Foto: Joao Pina.

É o rosto de Sérgio que Maia segue no monitor, à medida que Maria José Paschoal desliza num pequeno charriot até ao protagonista num subtil traveling mecânico. O realizador gosta do que vê e consegue a versão final em dois takes. Pouco depois, já na nossa entrevista, explicará o significado dessa sequência fulcral, prevista para o final do filme, já depois do concerto que Amália fez com Variações. “O que estamos a fazer hoje, é já sobre esse ultimo ano de vida, ” explica-nos. “Numa altura em que ele está já um pouco obcecado em saber porque está cansado, porque não está bem. Mas essa imagem recorrente da Amália, que aparece logo no iníco do filme, quando a ouve pela primeira vez.”

Quando João começou a fazer a pesquisa, o que mais o impressionou “foi o facto dele ter começado a carreira tão tarde. Tinha 37 anos quando fez o primeiro disco”. Por isso mesmo quis saber o que tinha feito antes. E aí encontrou mais algumas afinidades, “como o facto de não dele não vir de uma família de artistas e ter desbravado o caminho dele”. Afinal de contas, um percurso algo paralelo ao de João Maia. “Eu também não estudei cinema”, explicou-nos. “Foi à minha custa que me fui aproximando. Digamos que também tive essa ligação de alguém que vem de fora e que entrar no meio.”

Foto: Joao Pina.

No Sérgio Praia foi encontrar “essa desinibição de cantar sem medo”, tão vincada em António Variações. “Mas também um timbre parecido, para além das óbvias semelhanças físicas. Ele que tinha também uma vivência de aldeia, do campo. E teve de fazer das tripas coração para chegar à arte”. Portanto, “estava na altura certa e no momento certos quando o conheci.” Só que entretanto passaram dez anos, mas que acabaram por ser benéficos. “O Sérgio está muito melhor. Agora tem exatamente a idade do António quando gravou e está muito mais seguro.”

Para além de afirmar a força e a iniciativa deste criador, João Maia reconhece que o filme possui também “a responsabilidade da mensagem contra a discriminação. Algo que ele viveu quando não conseguiu gravar, pois não tinha grande voz, e as canções não eram boas, mas também pela sua orientação sexual. No fundo, a mensagem de que tudo é possível quando temos um sonho.”

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