Setembro 18, 2018

KVIFF: Radu Jude recorda o passado romeno e acusa ‘I Do Not Care if We Go Down in History as Barbarians’

Film Servis Festival Karlovy Vary

Depois do murro no estômago que foi O Capitão, do alemão Robert Schwentke, e a sua ousada incursão pelo relato das atrocidades cometidas por alemães contra alemães, no estretor da 2ª Guerra Mundial, eis que o romeno Radu Jude aborda uma temática igualmente incómoda do passado romeno. De certa forma, no longo titulo e nos 140 minutos de I Do Not Care if We Go Down in History as Barbarians, presente na seleção oficial para o Globo de Cristal, discute-se o controverso namoro romeno com o anti-semitismo. De certa forma, esta será até um prolongamento do documental do ano passado, The Dead Nation, focado no mesmo tema, depois já do relato da escravidão cigana aflorada em Aferim!, o filme que lhe deu a Jude o Urso de Prata em Berlim, pela melhor realização.

O que temos então no filme que cujo título acusatório fala por si? I Do Not Care if We Go Down in History as Barbarians abre a discussão sobre o passado romeno que muitos querem esquecer, mas que cederam ao apelo nazi transformando o povo judeu em presa e alvo. Agora na mira deste bravíssimo filme, o melhor que vimos no 53º KVIFF, e cujo cartaz oficial do filme apenas mostra o título e a ficha técnica em fundo branco, está o Marchal romeno Ion Antonescu e a responsabilidade do extermínio de centenas de milhar de judeus, ciganos e outras minorias, em 1941, altura em que era ainda aliado do III Reich. Isto antes de mudar de lado em 1944 e de ser executado em 1946. Ainda assim, e percebe-se no filme, não ficaram apagadas as simpatias anti-semitas romenas.

É precisamente essa ferida que Radu Jude toca ao encenar o documentário onde a atriz Ioana Iacob, com larga experiência no teatro, assume o papel da encenadora Mariana, determinada a recriar em praça pública o massacre que exterminou entre 25 a 30 mil em Odessa. Só que Jude vai mais longe nessa vontade de abrir ainda mais a realiade libertando a câmara que vai acompanhando a criação desse evento, como uma espécie de making off invisível. É assim que entra dentro da casa e da intimidade de Mariana, seguindo-a nas suas longas leituras de relatos detalhados da época – embora nunca pesadas e fora de contexto -, mesmo quando vai pesando outras variáveis oferecidas pela personagem de Movila, um adido governamental responsável pela aprovação do projeto (interpretado pelo veterano Alexandru Dabija, que também participou em Aferim!), procurando atenuar o seu desejo de mostrar o lado mais brutal do massacre.

Desrta forma consegue Jude ampliar a discussão em torno de acontecimentos mais generalizados, apontando o dedo a quem se deixou contagiar pelo ‘mal judeu’ tão em moda na época, talvez para deixar em aberto a forma como um certo populismo, paredes-meias com racismo, xenofobia ou mera sobranceria social acaba por estar, afinal de contas, tão presente nos dias de hoje em sociedades ditas avançadas. Se calhar até para deixar no ar a pergunta, até que ponto certos comportamentos de hoje não estariam mais próximos daqueles que há pouco mais de 70 anos contribuiram para um dos maiores crimes da História?

Sobre Paulo Portugal 666 artigos
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