Junho 17, 2019
insider

KVIFF: ‘Dream Away’ leva-nos ao paraíso perdido de Sharm El Sheikh após o terror e a Revolução

53ª Festival de Karlovy Vary – Documentários Competição

O realizador egípcio Marouan Omara e a artista vídeo Johanna Domke trouxeram a Karlovy Vary o seu segundo projeto realizado em conjunto. O documentário Fream Away é um registo arrojado e surreal do paraíso perdido de Sharm El Sheikh.

Depois do esforço conjunto em desmontar a censura nos media egípcios às portas da Revolução de 2011, que originou o bem sucedido e multi premiado documentário Crop, de apenas 50 minutos, Marouan e Johanna encontraram o material ideal para a sua primeira longa metragem no contraste chocante da imobilidade turística que são agora os resorts de luxo de Sharm El Sheikh na ressaca da Primavera Árabe e dos ataques terroristas do ISIS que vitimaram mais de duas centenas de turistas e afugentaram o turismo na região. Nesse sentido, Dream Away não é nenhum bilhete para o paraíso. Ou talvez até seja, mas no paraíso zombie em que se tornou este outrora oásis de luxo na ponta sul da Península do Sinai. Seguramente, uma visão algo surreal sobre o tempo num dos berços da nossa Civilização.

Seja como for, quando nasce um novo dia em cada hotel parece estar tudo em ordem. A voz suave que sai do altifalante convida uma multidão invisível para os programas do dia. O nadador salvador está já no seu posto quando dá inicio à coreografia diária da equipa de meninas da hidroginástica. Tudo está no seu lugar. Desde as espreguiçadeiras às toalhas perfeitamente alinhadas. As convidativas águas de verde cristalino do Mediterrâneo ou de tom mais azulado das piscinas vão esperando de algum movimento que interrompa esse ritmo. Algures na cidade, os restaurantes sem clientes estão prontos para o serviço. Aqui e ali, passam escassos veículos, por certo pertencentes aos trabalhadores do turismo local.

Há cinco anos atrás, a ideia original deste duo de realizadores era combinar este mundo alternativo com a confusão generalizada que ainda reinava no Cairo, mas cedo se tornou claro que esta nova realidade despida de gente era ainda mais ousada, já que lhe permitia questionar o poder das imagens numa sociedade tolhida pelos políticos, mas ao mesmo tempo tão perto do Paraíso. No fundo, temos um palco natural ideal para explorar a imaginação visual procurando encarar o que lá não está, ao mesmo tempo que observamos alguns corpos que inevitavelmente amaldiçoam o seu destino ao mesmo tempo que se questionam sobre um futuro incerto.

Neste cenário natural que precisa de respirar, Marouan e Johanna introduzem então sete criaturas que surgem do deserto, quatro homens e quatro raparigas, cada um com um sonho diferente, um plano hipotético se as coisas correrem bem, se os turistas regressarem. Temos o vulgar homem-estátua, pintado de negro e dourado, o DJ que passa música para uma pista de dança vazia, a empregada de hotel, o motorista musculado que passa por turista… Todos eles procuram algo melhor enquanto observam os aviões que partem, mesmo que não se permitam partir. As suas preocupações são apenas filtradas pelo macaco gigante colocado em cima de um carro usado para chamar a atenção e que serve de oráculo, consciência ou mesmo de terapia. Talvez isso seja o reflexo da ansiedade de uma geração cujo futuro permanece incerto, talvez seja o choque de gerações entre a tradição e a promessa de um liberalismo global.

De certa forma, Dream Away funciona quase como uma vida alternativa life, entre realidade e sonho, talvez da mesma forma que os elementos de realidade no filme de Sean Baker The Florida Project, sobre essa população de indesejados que vive no subúrbio da Disneyland.

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